quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Em Um Mundo Melhor (2010)

Ganhador do oscar de 2010 de melhor filme estrangeiro, abocanhando também o Globo de Ouro a obra da dinamarquesa Susanne Bier (de quem eu já vira o interessantíssimo “Depois do Casamento) tem lá seus fãs ardorosos e alguns críticos que veem na sua confecção a preocupação de uma moldura que agradasse a indústria cinematográfica americana.  Sem querer discordar desses últimos, acho primeiramente que o fato de se fazer um produto que agrade um determinado segmento, não invalidada totalmente um projeto, desde que ali se mantenha uma certa coerência autoral. É o que ousarei tentar explicar nesse escrito.

“Anton é médico. Ele divide sua existência se dedicando a seu lar instalado em uma cidade aprazível e calma na Dinamarca e seu trabalho no meio de um campo de refugiados na África. Ele se encontra separado de sua esposa e ambos ainda não se divorciaram. Eles tem dois filhos. O mais velho tem cerca de doze anos e é vítima de bulling na escola por conta de seus dentes saltados sendo alcunhado de coelho. O acesso dos seus colegas de escola tem um fim com a chegada de um outro garoto, Christian, que lhe toma a defesa e age de uma forma decidida e brutal. Christian deixou Londres com seu pai, logo após a morte de sua mãe, vitimada por câncer. Ensaia-se uma amizade entre ambos e a possibilidade de serem camaradas. A revolta existente em Christian quanto ao destino da mãe no entanto faz com que ele ao planejar uma vingança coloque em risco essa amizade e também a vida de ambos.” 

Um filme ambicioso que busca amalgamar vários temas complexos que instigam a sociedade atual: Violência, Educação, Doenças, Perdas Familiares, Assistencialismo, Humilhação Familiar, Colonização, etc.

Se o filme dá mais destaque a história dos dois garotos e suas implicações, o alicerce explicativo da visão da cineasta (ainda que inconsciente) é Anton, o pai. Através dele teremos um questionamento do rumo tomado pela Europa como um todo no tocante ao que alicerça a sociedade. O filme suscita uma reflexão dolorosa sobre o fundamento da civilização dita civilizada que serviria de modelo para se chegar a um mundo melhor. Como se chegar a uma sociedade que fique imune aos excessos que transformam tudo num caos. A África que surge de maneira pouco incisiva é fruto dos excessos cometidos pelos europeus em seu solo durante a longa colonização e serve para questionar e mostrar que o que ocorre no velho continente é apenas discurso, sofisma(em Depois do Casamento o protagonista também fazia assistência social em outro país vítima da colonização: A Índia; o que demonstra que a preocupação com esse tema pode ser uma constante em sua obra). O começo do filme mostra-nos a amizade surgida entre dois seres após uma atitude bárbara. E essa amizade é mórbida pois não inclui, é exclusivista, egoísta, etc. Uma ligação baseada na exclusão de um e no ódio cego de outro.  O que nos prende é justamente verificar como eles conseguirão se moldarem a lei e deixarem de a transgredir. E isso vai mais além, já que na realidade as respostas que procuramos servem para o todo. Bier nos mostra pais impotentes ou ausentes, mães que se tornam déspotas (e os filhos submissos ou revoltados), e isso é algo que presenciamos no mundo todo.
Bier no entanto faz apenas questionamentos. Ela não nos dá resposta, pois não as tem. Apenas intuição de por onde seguir. Se vai dar certo não o sabemos, mas não seria importante dar chance a um outro caminho ainda não tentado? Por outro lado como colocar na tela algo tão politicamente incorreto (pela sua originalidade apesar de ser algo bem antigo) e complexo se o filme visa o público americano? Apesar de possuir talento e saber fazer, o que ocorre é que nem Bier sabe a resposta para esse paradoxo entre violência e suas origens. Anton é a válvula de escape e o homem que pode possuir a resposta. Mas também por ser humano não é infalível, pois também está sujeito a irascibilidade. Ele tem seus limites, e isso explica o agir como Pilatos em relação ao Big Man.
O grande problema do mundo atual é não aceitar a dualidade humana. A educação nossa é baseada sobre Comte e seus seguidores: Durkeim, Skinner, os behavioristas em geral, os educadores etólogos, etc. Educação baseada em condicionamento, que descarta a possibilidade do ser humano ser material e espiritual. Apesar de em certos momentos defenderem o uso da razão o negam com suas atitudes e métodos. Para Kant um ser razoável jamais faria mal a um outro ser razoável. Mas isso é um processo de construção, de autoconhecimento, de um instinto que deve ser aflorado e descoberto lentamente. A construção de um ser autônomo.  Bier tem a intuição de que o problema está na base educacional.

Anton é o personagem que busca um novo rumo, que tateia buscando sair da escuridão que encobre a verdade. As respostas são múltiplas, mas ele parece entender que é no pacifismo que se encontra o caminho mais curto. Um pacifismo que não se cala e dá voz a consciência despertada de muitos. A questão é que tal tema levado a fundo desagradaria o mercado norte americano e os próprios europeus. Afinal o que sedimenta o sistema em que vivem é antagônico a tal pensar.
O elenco todo convence e também pudera. Na tela desfilam o que existe de melhor em termos de atores do norte da Europa. E a dupla de jovens (Markus Rygaard – Elias e William John Nielsen – Christian) parecem veteranos no meio desse cast fabuloso.


Apesar do conflito entre sua proposta e o mercado onde se quis colocar o produto o resultado final convence. Contudo se não houvesse essa preocupação o resultado final poderia ter sido mais denso e instigante. A ver obrigatoriamente.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

2 comentários:

Anônimo disse...

assisti esse filme ano passado na globo e gostei dele.seu blog é muito bom!vida longa e muito sucesso!Marcos Punch.

Cinema Sal e Tequila disse...


olá :)MUITO BACANA SEU BLOG!

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