segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Janela Indiscreta (1954)



“A televisão matou a janela”
- Nelson Rodrigues

A frase acima nunca combinou tão bem com um filme. Contudo o que Hitch faz aqui é ressuscitar esse “meio de entretenimento”. Por muitas razões que a janela ainda se sobressai da televisão, por exemplo: nós sentimos o calor das pessoas durante suas tarefas cotidianas (mesmo íntimas), o que um reality show na tv jamais seria capaz de mostrar com tanta intensidade, vemos tudo com uma qualidade inacreditavelmente superior daquele pequeno tubo transmissor de imagem. Porém certamente a maior e melhor qualidade de todas, essa sim totalmente avançada, de "tecnologia futurista" é a capacidade de se comunicar. Em outras palavras, a grande diferença da janela para a televisão, é que nela não somos invisíveis e assim como os outros que exploramos, também podemos ser explorados.

Hitchcock brinca conosco estudando a mesma tarefa do espectador ao ir ao cinema, sobretudo, o que mantém ele preso a um filme: a curiosidade. Analisando então essa curiosidade que é comum do espectador, mas com um único detalhe, em Janela Indiscreta (Rear Window, 1954) estamos nus. A câmera sufocante tira dessa vez, não a privacidade de personagens fictícios (?), mas a nossa. Acompanhar a narrativa do filme com Jeff (James Stewart) é arriscado, não é mais como ver televisão, nos arriscamos, podemos ser vistos. O personagem de Stewart é o mesmo personagem que desempenhamos sempre ao ver um filme, quase como “jornalistas” que procuram um furo, tentamos achar o que aconteceu, onde e a toda hora, incansavelmente, mas com a mais cruel incapacidade, não podemos sair de nossa cadeira, estamos presos no apartamento.

Janela Indiscreta é então o filme sobre a observação, entre outras palavras um filme sobre o ato de assistir a um filme sem saber. Hitch tira e nos dá duas coisas: primeiro temos a oportunidade de observar, quase de discutir com Lisa (Grace Kelly) e Stella (Thelma Ritter) já que somos como Jeff e, portanto partilhamos das mesmas dúvidas e curiosidades, a segunda é, além da incapacidade de interagir com o mundo que observamos, o fato de estarmos vulneráveis. Sobretudo, o que a linguagem de Hitch faz aqui é inverter lugares, quem assiste é quem esta dentro da tela e não quem esta fora, nós somos o personagem principal, interpretamos uma figura de protagonista-espectador e cada particularidade das janelas que vemos, revela por meio das silhuetas da cortina ou expostos, uma personagem de características únicas e perfeitas, daquela que em toda bela vizinhança possui: a gostosona, o cara sinistro, o casal etc, mas o que nos da medo é que conhecemos esse mundo, ele é real.

A sensação que da ao ver tanta meticulosidade no trabalho de Hitch é que vemos algo além de um filme, que permite criar um estudo sobre o ser humano. É difícil até dizer o que seria de tantos outros diretores “filhos” de Hitchcock sem Rear Window: tudo, absolutamente tudo o que foi criado acerca do ato de observar e explorar não ganharia sentido. Com apenas a câmera em sua mão e sem o 3D, 4D e todas as tecnologias mirabolantes dos dias de hoje e ainda assim sendo uma das experiências mais sensoriais do cinema, o que Hitchcock faz aqui é nos enforcar, dar um tapa na cara do espectador, abusar de sua liberdade como criador e não deixar o público apenas ali, observar calmamente, seguro em sua poltrona.


A narrativa não só sufoca por transformar todos na vizinhança em suspeitos, mas também por não dar trégua alguma, não a nenhum momento de paz que Hitchcock nos dê, mesmo quando a majestosa Grace Kelly aparece em cena não demora muito para voltarmos à ação e com isso, apenas atrair mais uma pessoa a essa alienação que vira em certo ponto uma paranoia, transforma-se em espetáculo de circo: que no final é e sempre será a origem do cinema. Janela Indiscreta homenageia a nós espectadores puxando-nos para dentro da tela, não há experiência no cinema mais forte em captar o ato de ver, os motivos que movem as pessoas a olharem, explorarem, por isso logicamente Janela Indiscreta prova ser, não apenas com o tanto de inspiração e cópias exaustivas que outros filmes fariam, mas com a capacidade de se tornar imortal, pois o instinto, a natureza do ser humano não muda, Hitch analisa e faz aqui o testemunho e a bíblia da natureza do suspense.

Um comentário:

Marcelo Castro Moraes disse...

Grande Clássico para ser visto e revisto várias vezes