quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Consciências Mortas (1943) Crítica


Revi esse filme por esses dias. Já o assistira não me lembro quando. Nem o sei se desfrutei dele na sagrada tela grande. Vi agora pelo TCM e posteriormente aluguei um DVD para rever. Como uma obra dessas passara despercebida por mim? É... Amadurecer faz bem.
Até o presente, salvo falha da memória, vi apenas outras 3 obras desse cineasta: O grito das selvas(1935), Nasce uma estrela (1937) e Nada é sagrado(1937). Fora o primeiro, se os demais não me entusiasmaram, também não me decepcionaram. Eu o tinha a conta de um artesão competente. Nada mais. 
Agora é impossível negar as qualidades de “consciências Mortas” e não o colocar no patamar de jóia rara. O filme se finca na temática do linchamento e da histeria coletiva. Um western onde a psicologia e a reflexão se sobrepõem ao espetáculo e a ação. Talvez seja o filme que colocou o Western com os dois pés naquilo que poderíamos chamar de fase adulta. Inspirado em um romance baseado em fatos reais, o roteiro extremamente bem escrito e resolvido nos mergulha em um mundo onde não existem heróis e o embate entre Civilização e Barbárie faz-se presente. Muito dos personagens que nos são apresentados, irão ser desenvolvidos em filmes posteriores. Para citar apenas um, fortes são os laços que unem Gerald Tetley a Ransom Stoddard de “O homem que matou o facínora”. É uma nova geração que desabrochava e buscava implantar no Velho Oeste outros princípios. Representam o despertar da consciência de uma civilização.

Ao nos lembrarmos o ano em que foi produzido, voltar o olhar para as chagas de uma época, quando o país estava mobilizado contra o ideal fascista, essa obra dotada de um amargor incomensurável, navegava na contramão da história, quando as massas preferiam ver o patriotismo e o nacionalismo exaltados. A repercussão em outras plagas também não foi das melhores. O filme até hoje carrega uma aura de algo pretensioso e enfadonho. Talvez tais predicativos cairiam melhor se citássemos a obra “Matar ou Morrer”(em minha opinião). Aqui o que foi chamado de enfadonho eu classifico como austeridade e sobriedade. Seria mais justo falarmos de coragem quando nos referíssemos a essa obra.
O filme se restringe a um espaço de tempo bem restrito. Uma expedição conduzida a punir sem julgamento, guiada por sentimentos exaltados. É quase impossível que ali se consiga fazer com que a razão domine a mente da maioria, a tentativa de se buscar a razão é um engodo, já que a violência e o sangue estão impregnados na alma de cada um. O requisitório de Arthur Davies ao grupo (juiz) é tarefa impossível. O filme caminha em sua construção com a utilização de cenários pouco surpreendentes e sem ornatos. Inexistência de correria de gente armada, barulhos ou tiroteios, pouca ação, nada de grandiloquente e ainda menos de ato heróico de último minuto –“se puder salvar a minha cabeça, salvo a dele”. Alguns dirão que a sobriedade é seca demais, além de estática. Será que essa escolha nos impede de mergulhar e captar o prazer oriundo de um roteiro tão fabuloso? Não teria essa escolha a capacidade de ter reforçado a força do texto. Em minha opinião certamente. É um filme que nos aprisiona, apesar de não deixar espaços para um respirar.

Um filme distante de qualquer patriotismo, sem heróis, que pinça inteligentemente alguns aspectos da psicologia de um grupo, o nascimento de um rumor que os envolve, até que todos deságuam na violência coletiva, deixando qualquer resquício de razão de lado. 

O maniqueísmo está longe em tal obra. O filme prima pelo distanciamento. O personagem do bonzinho vivido por Henry Fonda é passivo. Ergue apenas um tímido dedo para demonstrar sua posição contrária no momento fatal. Os condenados também parecem desconcertados perante o destino e um deles não se importa de levantar falso testemunho sobre outro. A iniqüidade triunfa quando o coletivo se alimenta de sua própria cólera para reclamar suas vítimas. Estamos diante da desmitificação do herói do Oeste. Na realidade enforca-se essa visão estereotipada do homem do oeste puro e duro. O que vigora é a intolerância e a insatisfação com o meio que o cerca.
O elenco todo não destoa. Destaques para um incrível e surpreendente Dana Andrews (nunca o vi em melhor forma) e Jane Darwell, que criou com extremo talento e propriedade um ser cruel e estúpido que se amalgama ao grupo de tal forma que não se vislumbra em si nenhuma feminilidade.
Algumas tomadas comprovam a genialidade e o dedo do diretor. Sempre sóbrio seco e dono de si. Vejam o travelling curto e brilhante do homem que traz a notícia da morte do fazendeiro Kincaid, o expressionismo nas tomadas pós enforcamento. Veja a leitura final da carta no salão. O enquadramento somente mostra os lábios de Fonda e parte de seu rosto, escondendo seus olhos. Wellman não buscava a emoção fácil. A verdade das palavras ecoa no salão, mas não parecem encontrar eco na consciência dos ouvintes.

Na realidade ao invés do condenado derramar sobre o papel o amor que sentia por sua mulher e filhos, ou condenar aqueles que o julgaram, ele preferiu legar a sua esposa e seus descendentes um ensaio filosófico sobre a justiça. Algo que aquela geração ainda não tinha capacidade de compreender, as tais consciências mortas do título. Pura obra prima


Escrito em 14/02/2012

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