segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Joelho de Claire (1970)



O filósofo Immanuel Kant, ao falar da moral, gostava de exemplificar as coisas separando o desejo da vontade. O desejo é aquilo que o ser humano sente, sem ter como escolher esse anseio. Já a vontade é o que o ser humano de fato faz. Ou seja, o ser humano não escolhe o que deseja, mas escolhe a vontade de fazer. De certo modo O Joelho de Claire (Le Genou de Claire, 1970), de Eric Rohmer, evoca essa questão ao mesmo tempo de modo complexo e singelo, pois a narrativa é naturalista e a seu modo discute questões humanas das mais intricadas.
A sinopse é simples, Jerome (Jean-Claude Brialy) é um diplomata que está prestes a se casar com sua noiva que vive em Estocolmo. Enquanto isso ele passa férias com sua amiga de longa data Aurora (Aurora Cornu), que alugou um quarto na casa de uma senhora que tem duas filhas adolescentes, Laura (Béatrice Romand) e Claire (Laurence de Monaghan). A casa é às margens do lago Annecy, cercada de belas montanhas.
Se alguém visse os primeiros quinze minutos da obra sem saber do título, provavelmente pensaria que o romance a se desenrolar nela seria entre Jerome e Aurora. Porém ambos estão acima disso, ali eles estão apenas com a função de provocar os desejos alheios e controlar os seus. Eles são a presença adulta, versão desenvolvida dos sentimentos, lidando com o desejo impulsivos das crianças. Tanto que em certo momento Aurora revela que nas últimas semanas trabalhou para conquistar cinco garotos, apenas pelo prazer de conquista-los.



Então Jerome conhece Laura, uma menina magricela que nem desenvolveu seu corpo direito, mas que já desenvolveu seus pensamentos e se auto afirma ao expressá-los pela fala. Em meio aos adultos, seu jeito infantil se destaca e logo os mais velhos percebem que ela está apaixonada por Jerome. Ele, no começo, apenas troça da situação, mas aos poucos mira a possibilidade de lançar galanteios a jovem com o intuito de seduzi-la exclusivamente por… Diversão.
A reviravolta porém se mostra com a chegada de Claire, até então apenas citada. A irmã de Laura é uma garota quieta e que aparece com ares de Lolita em sua primeira cena, apenas de biquíni tomando banho de sol no gramado, à beira do lago. Dessa vez se percebe claramente a admiração de Jerome pela jovem. Seu desejo agora reassume a situação e vai depender dele controlar ou não sua vontade.
O espaço para discussões quentes entre personagens frios é o mais interessante de O Joelho de Claire. Jerome e Aurora se imaginam acima dos jovens, porém agem infantilmente assim como eles, senão pior. Apesar de o longa estar divido em dias e contar a história de um mês, os cortes secos entre as passagens dão a impressão de um diálogo corrido.

A direção simples de planos comuns em paisagens plácidos abre caminho para o roteiro, muito forte e conciso, ditar o ritmo do filme que, apesar de lento, não deixa de ser interessante em nenhum momento. Se você quer ver questionamentos sobre as condições humanas, principalmente no que se dá ao relacionamento amoroso, esse é o filme a ser visto. Respostas, é claro que nem sempre são dadas nesse tipo de obra, mas é aí que está o seu glamour.

Giancarlo Couto


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