quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Enigma Chinês (2013)


Em primeiro lugar antes de tecer quaisquer comentários sobre essa obra é preciso delimitar muito bem os limites de minha visão. Trata-se de um filme que faz parte de uma trilogia. Não conheço os dois primeiros (“ Albergue Espanhol 2002” e Bonecas Russas 2005)e me proponho a falar do último. Isso não me agrada, mas é necessário colocar no papel as impressões sobre certas obras, de forma que elas não fiquem perdidas e irrecuperáveis. Não sei a razão, mas me vem a mente aquela história dos cegos e do elefante(http://www.edicarlos.com.br/mensagens/Os%20Cegos%20e%20o%20Elefante.htm).  O meu maior receio é que tal filme, incluído dentro da trilogia, ganhe uma profundidade maior e um sentido mais abrangente do que aquele que assisti. Por outro lado, acho que houve a preocupação de se fazer uma obra que se ancorasse por si própria, sem a necessidade de se conhecer previamente os dois primeiros filmes. De certa forma torna-se bastante cômodo realizar a tarefa. Aquele que nutre carinho pela obra se eu lhe for pouco lisonjeiro, me perdoará dizendo que eu não posso ser trucidado já que me faltou maior conhecimento. O mesmo se dará em relação a quem rogou pragas contra o filme, só que em sentido inverso.

"Homem de 40 anos, abandonado pela esposa, para não se distanciar de seus filhos, resolve se mudar para New York. O filme retratará as dificuldades do recomeço, tanto no aspecto físico, quanto no emocional desse homem que deseja apenas continuar a existência e refazer sua vida."

O filme em si não traz nenhum arroubo de novidade quer seja no aspecto técnico, quer no da própria condução do roteiro. Acreditamos de início que o cineasta enveredará por caminhos mais ásperos, dando um sopro de renovação dentro do inusitado. Afinal trata-se de um francês, que mergulhará seus personagens em uma cidade que muda de identidade rapidamente, com seus arranha céus gigantescos, população multifacetada e  um sistema de existência que em comparação com o francês é pouco vinculado a reflexões. Esse espaço físico (New York) que já foi violado por várias câmeras, vários cineastas, não pareceu instigar Cédric. A história que nos é contada se soa universal, não se justifica ter sido filmada em New York. Raros são os momentos em que a Cidade interfere na narrativa e quando eles surgem estão distanciados ou não são explorados de maneira eficiente (Atenção leitor lembre-se que Xavier é um escritor). Aquele talhe no cimento dos seus pais, o apartamento em Chinatown, o metrô para chegar no bairro onde vive sua ex, o acidente de trânsito, etc. Tudo plasticamente presente e cerebralmente distante.

Outro ponto que talvez venha a ser mais duramente criticado é aquele que se refere aos personagens. Talvez sem medo de errar, nesse caso específico, podemos afirmar que sem sempre a madureza traz a sabedoria. Os personagens na faixa dos 40 anos, possuem atitudes mais próprias aquelas dos jovens na faixa dos 20 anos. Xavier, Martine, Isabelle, Wendy demonstram ser levianos ou imaturos. Se enveredássemos por um drama existencial, teríamos um farto material a ser explorado: os filhos que estão a deriva sem um porto aprazível e seguro onde ancorar. Mas não se toca nisso.

O problema da imigração nos mostra um sistema onde até tal dilema já virou mercadoria. O casamento entre iguais é visto de maneira natural, e os limites desses relacionamentos (não geração de filhos) são superados devido o progresso da ciência. No entanto se as aparências são resolvidas, ainda se trata de seres humanos, e vemos que Ju e Isabelle não vivem um conto de fadas. Isabelle ainda é imatura e sequiosa de satisfazer seus instintos pode por tudo a perder de uma hora para outra.

As interpretações são um caso mais complicado. Romain Duris surge limitado, parece ser ele próprio o tempo todo. Não tem recursos. Kelly Reilly é sexy, mas só isso não basta. Mas não posso creditar a ela somente  a falta de recheio. O papel é limitado e o roteiro não a contempla. Tatou que surgiu adorável em “O Destino de Amélie Poulain” não funciona. A possibilidade de redescobrir um amor já extinto fica na superfície. Não existe química entre esse par. E a Martine que ela compõe está mais para estúpida do que para ingênua. É irritante e frustra. Mas em compensação temos Cécile de France. Uma atriz de recursos. Parece não se repetir, ainda que as vezes o papel não esteja a altura de sua capacidade. Está bem a vontade como a amiga lésbica já quarentona que cede a atração oriunda de uma mulher mais jovem. È disparada a melhor performance do filme.

Como disse no início, são impressões baseadas na última parte dessa trilogia. Certamente esse vazio existencial dos personagens deve funcionar melhor nos filmes que os retratam mais jovens. Agora é triste saber que alguém feche sua criação com um filme tão aquém do que poderia ter sido explorado. Uma pena. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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