sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Além da Liberdade (2011)




 

“Além da Liberdade é uma história de amor fora do tradicional, aquela de um homem e, sobretudo de uma mulher que sacrificam sua felicidade pessoal pela possibilidade de libertar um povo. Nada, no entanto parece destruir esse laço tão forte, nem a separação física, o isolamento, a ausência, o isolamento e a inumanidade de uma junta militar e política que está no poder na Birmânia. O filme é a história de uma mulher que se tornou um dos símbolos da luta pela liberdade nos tempos coevos.”

Não foi sem surpresa que assisti a esse filme de Besson. Um dos motivos foram justamente as escolhas feitas pelo cineasta a meu ver surpreendentes de se enveredar a seguir um roteiro de uma forma inusitada em se tratando de sua filmografia. Que Besson a meu ver gosta de um cinema comercial e de se contentar em agradar uma bilheteria é sabido. Por outro lado o que me surpreendeu é que aqui ele deu-me a entender que trilharia por um caminho próximo daquele de Richard Attenborough quando realizou Gandhi (1982). O caminho parecia certo: centenas de figurantes, um país tido como exótico, a possibilidade de se mesclar conflitos em campos aberto e fechados, etc. No entanto o filme se centra sobre o aspecto familiar, os conflitos íntimos de se renunciar a uma vida familiar em prol da construção da liberdade de um povo. Um dos motivos parece óbvio ao se enveredar por esse caminho: Não existe documentos históricos que possibilite um maior conhecimento da história recente da Birmânia (Myanmar) e da influência efetiva do pensamento de Aung San Suu Kyi sobre a população como um todo. E também não sabemos as formas de seu pensamento. O Prêmio Nobel da Paz conferido a ela em 1991 soa-nos mais como algo construído pelo que se supõe que ela almeja, e também como um veto aos que governavam o pais do que algo que ressalte a grandeza possível de tal personagem.  Não que esta grandeza não exista, mas como Gandhi e Luther King a influenciam? Ao término da projeção continuamos sem resposta. Falta uma maior intimidade da obra com o que retrata e também coragem e falta de confiança. A figura retratada, o caos gerado por um regime de exceção que se pauta na herança maldita dos colonizadores (a influência comtiana do gerir público) poderia levantar inúmeras questões. 
 

O grande problema não é o caminho traçado, as escolhas feitas pelo diretor e pelo roteiro. O problema é que não sabemos o que efetivamente o par central tinha em comum. Que sentimento tão forte os unia de forma a que permanecessem juntos apesar de separados por milhas de distância. O roteiro não procura responder a isso. Mas a certeza de algo forte ali permanece. Mérito do par central que convence. Sobretudo David Trewlis que a cada gesto e olhar nos faz crer na profundidade da afeição e da consciência política do casal. É ele o grande destaque da obra.
 

Apesar do tom desabonador que emana das linhas acima o filme agrada. Agrada, sobretudo pela honestidade de não fantasiar sobre fatos que não podem ser comprovados (mas que podemos suspeitar). Foi sábia a decisão de se ancorar sobre o núcleo familiar. Afinal quando se sufoca a liberdade, a grande vítima é a família. As nações são construídas por essas células. São elas que sofrem quando a doença passa a habitar um corpo que deveria estar funcionando em proveito de todos. E o fato de se desnudar para o Ocidente os feitos solitários de uma figura de tal envergadura, servirá para que no futuro algo mais grandioso seja realizado. O material é encorajador. E Bresson ao menos nos deu um filme academicamente honesto. É recompensador ver tal estrutura financeira (é uma produção caprichada) ser destinada a um tema tão importante, justamente em um momento que parece que o regime que se quer implantar de maneira global, se mostra estar esgotado.  

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O Enigma Chinês (2013)


Em primeiro lugar antes de tecer quaisquer comentários sobre essa obra é preciso delimitar muito bem os limites de minha visão. Trata-se de um filme que faz parte de uma trilogia. Não conheço os dois primeiros (“ Albergue Espanhol 2002” e Bonecas Russas 2005)e me proponho a falar do último. Isso não me agrada, mas é necessário colocar no papel as impressões sobre certas obras, de forma que elas não fiquem perdidas e irrecuperáveis. Não sei a razão, mas me vem a mente aquela história dos cegos e do elefante(http://www.edicarlos.com.br/mensagens/Os%20Cegos%20e%20o%20Elefante.htm).  O meu maior receio é que tal filme, incluído dentro da trilogia, ganhe uma profundidade maior e um sentido mais abrangente do que aquele que assisti. Por outro lado, acho que houve a preocupação de se fazer uma obra que se ancorasse por si própria, sem a necessidade de se conhecer previamente os dois primeiros filmes. De certa forma torna-se bastante cômodo realizar a tarefa. Aquele que nutre carinho pela obra se eu lhe for pouco lisonjeiro, me perdoará dizendo que eu não posso ser trucidado já que me faltou maior conhecimento. O mesmo se dará em relação a quem rogou pragas contra o filme, só que em sentido inverso.

"Homem de 40 anos, abandonado pela esposa, para não se distanciar de seus filhos, resolve se mudar para New York. O filme retratará as dificuldades do recomeço, tanto no aspecto físico, quanto no emocional desse homem que deseja apenas continuar a existência e refazer sua vida."

O filme em si não traz nenhum arroubo de novidade quer seja no aspecto técnico, quer no da própria condução do roteiro. Acreditamos de início que o cineasta enveredará por caminhos mais ásperos, dando um sopro de renovação dentro do inusitado. Afinal trata-se de um francês, que mergulhará seus personagens em uma cidade que muda de identidade rapidamente, com seus arranha céus gigantescos, população multifacetada e  um sistema de existência que em comparação com o francês é pouco vinculado a reflexões. Esse espaço físico (New York) que já foi violado por várias câmeras, vários cineastas, não pareceu instigar Cédric. A história que nos é contada se soa universal, não se justifica ter sido filmada em New York. Raros são os momentos em que a Cidade interfere na narrativa e quando eles surgem estão distanciados ou não são explorados de maneira eficiente (Atenção leitor lembre-se que Xavier é um escritor). Aquele talhe no cimento dos seus pais, o apartamento em Chinatown, o metrô para chegar no bairro onde vive sua ex, o acidente de trânsito, etc. Tudo plasticamente presente e cerebralmente distante.

Outro ponto que talvez venha a ser mais duramente criticado é aquele que se refere aos personagens. Talvez sem medo de errar, nesse caso específico, podemos afirmar que sem sempre a madureza traz a sabedoria. Os personagens na faixa dos 40 anos, possuem atitudes mais próprias aquelas dos jovens na faixa dos 20 anos. Xavier, Martine, Isabelle, Wendy demonstram ser levianos ou imaturos. Se enveredássemos por um drama existencial, teríamos um farto material a ser explorado: os filhos que estão a deriva sem um porto aprazível e seguro onde ancorar. Mas não se toca nisso.

O problema da imigração nos mostra um sistema onde até tal dilema já virou mercadoria. O casamento entre iguais é visto de maneira natural, e os limites desses relacionamentos (não geração de filhos) são superados devido o progresso da ciência. No entanto se as aparências são resolvidas, ainda se trata de seres humanos, e vemos que Ju e Isabelle não vivem um conto de fadas. Isabelle ainda é imatura e sequiosa de satisfazer seus instintos pode por tudo a perder de uma hora para outra.

As interpretações são um caso mais complicado. Romain Duris surge limitado, parece ser ele próprio o tempo todo. Não tem recursos. Kelly Reilly é sexy, mas só isso não basta. Mas não posso creditar a ela somente  a falta de recheio. O papel é limitado e o roteiro não a contempla. Tatou que surgiu adorável em “O Destino de Amélie Poulain” não funciona. A possibilidade de redescobrir um amor já extinto fica na superfície. Não existe química entre esse par. E a Martine que ela compõe está mais para estúpida do que para ingênua. É irritante e frustra. Mas em compensação temos Cécile de France. Uma atriz de recursos. Parece não se repetir, ainda que as vezes o papel não esteja a altura de sua capacidade. Está bem a vontade como a amiga lésbica já quarentona que cede a atração oriunda de uma mulher mais jovem. È disparada a melhor performance do filme.

Como disse no início, são impressões baseadas na última parte dessa trilogia. Certamente esse vazio existencial dos personagens deve funcionar melhor nos filmes que os retratam mais jovens. Agora é triste saber que alguém feche sua criação com um filme tão aquém do que poderia ter sido explorado. Uma pena. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O Joelho de Claire (1970)



O filósofo Immanuel Kant, ao falar da moral, gostava de exemplificar as coisas separando o desejo da vontade. O desejo é aquilo que o ser humano sente, sem ter como escolher esse anseio. Já a vontade é o que o ser humano de fato faz. Ou seja, o ser humano não escolhe o que deseja, mas escolhe a vontade de fazer. De certo modo O Joelho de Claire (Le Genou de Claire, 1970), de Eric Rohmer, evoca essa questão ao mesmo tempo de modo complexo e singelo, pois a narrativa é naturalista e a seu modo discute questões humanas das mais intricadas.
A sinopse é simples, Jerome (Jean-Claude Brialy) é um diplomata que está prestes a se casar com sua noiva que vive em Estocolmo. Enquanto isso ele passa férias com sua amiga de longa data Aurora (Aurora Cornu), que alugou um quarto na casa de uma senhora que tem duas filhas adolescentes, Laura (Béatrice Romand) e Claire (Laurence de Monaghan). A casa é às margens do lago Annecy, cercada de belas montanhas.
Se alguém visse os primeiros quinze minutos da obra sem saber do título, provavelmente pensaria que o romance a se desenrolar nela seria entre Jerome e Aurora. Porém ambos estão acima disso, ali eles estão apenas com a função de provocar os desejos alheios e controlar os seus. Eles são a presença adulta, versão desenvolvida dos sentimentos, lidando com o desejo impulsivos das crianças. Tanto que em certo momento Aurora revela que nas últimas semanas trabalhou para conquistar cinco garotos, apenas pelo prazer de conquista-los.



Então Jerome conhece Laura, uma menina magricela que nem desenvolveu seu corpo direito, mas que já desenvolveu seus pensamentos e se auto afirma ao expressá-los pela fala. Em meio aos adultos, seu jeito infantil se destaca e logo os mais velhos percebem que ela está apaixonada por Jerome. Ele, no começo, apenas troça da situação, mas aos poucos mira a possibilidade de lançar galanteios a jovem com o intuito de seduzi-la exclusivamente por… Diversão.
A reviravolta porém se mostra com a chegada de Claire, até então apenas citada. A irmã de Laura é uma garota quieta e que aparece com ares de Lolita em sua primeira cena, apenas de biquíni tomando banho de sol no gramado, à beira do lago. Dessa vez se percebe claramente a admiração de Jerome pela jovem. Seu desejo agora reassume a situação e vai depender dele controlar ou não sua vontade.
O espaço para discussões quentes entre personagens frios é o mais interessante de O Joelho de Claire. Jerome e Aurora se imaginam acima dos jovens, porém agem infantilmente assim como eles, senão pior. Apesar de o longa estar divido em dias e contar a história de um mês, os cortes secos entre as passagens dão a impressão de um diálogo corrido.

A direção simples de planos comuns em paisagens plácidos abre caminho para o roteiro, muito forte e conciso, ditar o ritmo do filme que, apesar de lento, não deixa de ser interessante em nenhum momento. Se você quer ver questionamentos sobre as condições humanas, principalmente no que se dá ao relacionamento amoroso, esse é o filme a ser visto. Respostas, é claro que nem sempre são dadas nesse tipo de obra, mas é aí que está o seu glamour.

Giancarlo Couto


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Luz Silenciosa (2007) - Crítica

“Johan, Esther e seus seis filhos são menonitas que vivem no norte do México em uma comunidade e falam um dialeto próximo do alemão. Eles aceitam algumas das benesses trazidas pelo progresso científico e renegam outras. Assim o trabalho no campo é mecanizado, o avanço trazido pela medicina é aceito, no entanto os meios de comunicação (telefone, televisão, rádio, internet, etc) são banidos. Sob essa paz aparente de uma vida atrelada a natureza, Johan sofre. Ele caiu amoroso por outra mulher e não consegue se desembaraçar dos braços dessa paixão. Entra assim em contradição com a lei de Deus e aquela da comunidade aonde vive. O que será dele? E de sua família? Estará sua alma condenada?”

Difícil definir o que nos surge a tela. Habituado que estamos com a velocidade frenética dos tempos atuais, do avanço dos meios de transportes e de comunicações o filme de Reygadas nos estarrece: é sóbrio, austero, feito de sussurros, brilho e de uma melancolia, da qual o diretor se vale para inserir uma serenidade paradoxal que causa em muitos um mal estar, por nos levar a refletir sobre as reais necessidades do ser humano em face daquelas criadas pela Sociedade Capitalista em que nos encravamos. Os menonitas aqui não são retratados como radicais inflexíveis. Os atrativos do mundo moderno não são tentações  tratadas a fogo e ferro. Eles apenas não querem inserir dentro do seu cotidiano certos portais, que podem desestabilizar um mundo que lhes basta.
A abertura do filme é de uma suntuosidade raras vezes vista. São cerca de sete minutos de maestria estética que nos coloca o dilema que permeará a obra até o seu fecho. O embate entre o impermanente e o passageiro, entre o finito e o infinito, entre o profano e o sagrado. Casa-se perfeitamente com a tomada final e parece extraída deum sonho de um pintor surrealista. O problema é que causa choque. Habituados a sociedade moderna, quantos de nós olhamos para o céu e nos fixamos lá, ao menos alguns minutos durante ao menos um dia da semana? Madrugada, do céu escuro a câmera espera a luminosidade vencer as trevas para então mergulhar numa residência secundada por árvores onde uma família faz o desjejum tranquilamente. Antes de se ficar no ser humano, pararemos diante de um relógio. Ele serve para delimitar o mortal daquilo que permanecerá. O tic tac quebrará o silêncio até que a atividade humana se manifeste. E essa atividade ainda que serena não protege seus protagonistas do embate intimo que os conduz em busca de um significado para o existir. 
O tempo corre monotonamente e Reygadas se vale desse morosidade para mostrar seu virtuosismo técnico. O cinema que surte é grandioso, as tomadas dos lugares, dos corpos, dos rostos, das vozes que rompem o silêncio: o diretor sempre opta por uma mise en scène que engrandece o sentimento, uma inteligência que olha do alto os personagense coloca na tela a vida, em lugar de tentar moldar uma dentro de um roteiro fechado em si (todos os que surgem na tela pertencem de fato aquela comunidade). Já vimos outras obras que se valem de não atores para dar seu recado. O que surpreende em Reygadas é a forma como ele se vale desse recurso. O seu cinema (a julgar por essa obra) afasta-se daquele do neorrealismo italiano, já que é mais reflexivo. As imagens parecem flertar mais com Tarkovkski, ainda que tematicamente lembre mais Kielowski e seu Decálogo (sem o peso religioso desse último). É um filme que exige do espectador paciência. É ela que provoca a ação e nos conduz a recompensas. Saborear calmamente um mundo perdido e esquecido. Um lugar onde o pôr do sol, o amanhecer, o contato constante com a natureza, a respiração da vida em volta, de se ver voltado para seu interior e sua incompletude ao mesmo tempo que assusta, nos engrandece. 

Outro ponto positivo é que não se trata de retratar seres visto como fanáticos religiosos. A cena em que as crianças assistem televisão num furgão é dotada de tamanha magia, que amplia esse objeto hoje tão comum, em algo mágico. Para os curiosos o cantor apresentado é Jacques Brel (um belga cantando Les Bonbons). A imagem extraída parece ter saído de um túnel do tempo, e colocada como foi, hipnotiza não só aquelas crianças, como também a nós. O pai não se sente ferido ou em pecado por se deleitar com a tv (são contra os meios de comunicação). Apenas, dá a entender, não valer a pena fazer de imagens captadas parte de um ritual cotidiano, já que a vida diuturnamente nos oferece possibilidades de captação de imagens maiores e mais próximas. O mundo que os cerca basta para provar sua teoria. 
O embate íntimo que vergasta o protagonista também não conduz o filme a um melodrama barato. Apenas nos convida a reflexões. É legítimo preferir ir viver com outra mulher e abandonar uma que a razão nos diz que amamos e ainda nos ama? O dilema desse ser e a força do desejo carnal não são ampliados, tampouco desprezado pela narrativa. E para que não nos deixemos levar pelas aparências as mulheres que as interpretam são parecidas: possuem uma aparência comum e uma beleza interior grandiosa. 

O final longe de diritmir os questionamentos, apenas parece encerrar em si (ao casar com a cena de abertura) o desvendar de um dos dramas que a humanidade produz diariamente no orbe em que está enclausurada. Um filme que certamente não agradará a maioria, já que nos remete ao nosso interior. E são poucos os que gostam de ser deparar diante de seu eu. A humanidade se embriaga com a fuga e a irrealidade.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Ziegfeld - O Criador de Estrelas (1936)



Confesso que ao deitar os olhos pela primeira vez no filme faltou-me fôlego. Achei-o longo, cansativo mesmo. Será que eu estava em um bom dia? Mister se faz, no entanto, dizer que conheci a obra através do dvd. Existem muitos números musicais. Não domino a língua inglesa, o filme é legendado, quem transpôs para o português comete a imbecilidade de não legendar o que se canta. Falha da obra? Não, falta de carinho para com a obra, das pessoas que lucram com ela.

Revi um mês depois, afirmo que o filme continua longo (desnecessariamente). Contudo talvez a época de sua realização isso soasse grandioso. Assim como a presença do retratado que morrera em 1932 ainda permanecia viva. O filme tenta dar cabo de contar a história do itinerário do célebre produtor americano Florenz Ziegfeld que iniciou sua carreira no circo, e que graças a seu tino comercial, a sua agudeza com a publicidade e a capacidade técnica inovadora criou shows espetaculares dentro da Broadway. Seu nome ficou marcado na mística que envolve a história das grandes comédias musicais do início do século XX. Muitos dos que trabalharam com ele viraram mitos e alguns foram absorvidos pela indústria cinematográfica que nascia. 

Para nós que assistimos a película nos dias de hoje e não temos conhecimento do retratado, o filme nos soa comum e as vezes pouco atraente. O mundo retratado ali é o do teatro. O tom é predominantemente teatral. Muitos dos números musicais restringem-se a mostrar puramente o que se via no palco criado por Ziegfeld. A câmera nos parece bem presa, assim como os atores limitados a um cenário que visa mais a busca de ser fiel. Não posso criticar tal escolha. Aqueles que o assistiram na década de 30 e já conheciam as produções de Ziegfeld devem ter se sentido recompensado, havia uma ligação que os unia ao que era retratado.

Reconheci no filme um dos artistas que fizeram parte de sua troupe: Will Rogers, vivendo a si mesmo. Will um dos maiores artistas americanos do início do século XX. Equivaleria ao que representou para nós Oscarito ou Mazaroppi. Conhecia-o de filmes do Grande Ford (“Juiz Priest” e “Nas águas do rio”). A partir daí comecei a entender o valor de tal obra. É bom que exista. Funciona como um documentário romanceado que visa manter acesa a chama do mito. Filme feito dentro dos moldes tradicionais. Assim como “Três palavrinhas” de Richard Thorpe com Fred Astaire e Red Skelton que retratava a vida da dupla Bert Kalmar e Harry Ruby, ou o nosso “Tico- tico no fubá” (filme baseado na biografia de Zequinha de Abreu). 

As interpretações em minha opinião estão atreladas a maneira de se interpretar da época. Realmente Luise Rainer é quem se destaca (ganhou o oscar). Não achei o filme uma obra-prima. Sua premiação como melhor filme soa-me exagerada. Credite-se a isso a fortuna gasta em sua produção (mais de 2 milhões de dólares) e a fama do retratado (como já disse). No mesmo gênero já vi filmes melhores daquela mesma época (“Rua 42”). Vale como documento de uma época. Para ser visto como um caprichado semi-documentário enriquecido com belas músicas.

Escrito em 11/10/2008.