sábado, 4 de outubro de 2014

O Tigre e a Neve (2005)




O filme é uma verdadeira surpresa. Surpreende em primeiro lugar pelo motivo do cineasta colocar como cenário de um filme ao que tudo indica ameno e otimista Bagdá no início da invasão americana. Os adjetivos ameno e otimista que me utilizo podem indicar falsamente a idéia de que Benigni não possui uma capacidade arguta e profunda da realidade que o cerca. Ledo engano que “A Vida é bela” escanteou para sempre. Você pode de forma amena e inteligente fazer críticas e lançar um novo olhar sobre temas delicados.

O filme, tal como “ A vida é bela”» surpreende. Mas aqui a surpresa não é tão agradável (infelizmente). Bernigni confirma, contudo que possui capacidade para realizar outras obras de envergadura ainda que essa tenha naufragado nas areias que cercam a fictícia Bagdá do filme. 

O diretor não errou em transportar uma história universal para Bagdá naquele momento. Foi oportunista, pois imaginou que poderia chamar mais a atenção para a singela história que contaria. Benigni possui a inteligência necessária para mostrar a situação complexa em Bagdá em 2003. Ainda que o personagem estivesse centralizado em salvar sua amada, poderia ter descortinado de forma mais clara a complexidade da situação que o cercava. A começar por denunciar a idiotice de estarem os italianos envolvidos numa Guerra não justa e que não lhe diziam respeito apenas por satisfazer o ego interesseiro de seu primeiro ministro. Gosto da forma como ele contrapõe o mundo da poesia, dotada de muito mais lógica que a realidade que o cerca. Contudo parece que o próprio cineasta percebeu que seu intento não obteve de êxitos. A morte de Fuad que soa deslocada e gratuita, nada mais seria que a aceitação do fracasso da empreitada a que se propôs.

Outra singularidade que o expectador atento descobrirá no filme é que Benigni se define de vez como um Chaplin dos tempos coevos. Tal como o inglês o cineasta desejaria unir humor e emoção ao serviço de uma mensagem de amor e compreensão universais. Um amor louco que transbordaria de tal forma que resolveria todos os impasses e calaria todos os canhões. Benigni consegue extrair de situações desesperadoras uma graça que poucos enxergam. O encontro com os camelos e o conflito de interesses entre Atilio e os animais é um achado. E também a emoção já sentida no final de Luzes da Cidade ameaça(em realidade ele nos remete a ela) vir a tela quando a corrente que ela levara a Badgdá salta do colarinho de Atilio.

O que me assusta é que me ficou a sensação que o filme naufragou devido ao receio que Benigni teve em desagradar a platéia americana. Os únicos momentos em que ele cruza com as tropas de ocupação, ele as mostra apenas na figura de jovens soldados estressados, assustados e desorientados. Begnini precavido não cita nem Abu Ghraib, nem os mortos iraquianos, nem os interesses escusos dos Grupos econômicos que mergulharam aqueles soldados lá. O suicídio de Fuad sela de vez qualquer tentativa de se olhar de uma forma mais aguda e com o olhar de um iraquiano o que ocorria. É, acho que Benigni precisa ter a coragem de concluir de maneira mais contundente aquilo que se propôs realizar. De qualquer forma não é um filme de todo descartável. Mas que decepciona pelo muito que prometia.
Escrito em 21/11/2010

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