sábado, 4 de outubro de 2014

Hannah Arendt (2012)

O material que nos chega através de Margarethe Von Trotta  é oportuno e atual. Tentar resumir a existência de uma criatura em 120 minutos é uma tarefa impossível. Ainda mais quando se trata de uma das maiores intelectuais do século XX. O filme buscou se centrar em apenas um episódio de sua existência, dando-nos alguns flashbacks de outros  momentos.  Vê-se que um desses momentos é constrangedor. O reencontro com Heidegger. Breve e sem sentido nenhum. Deveria ter sido aprofundado (pela importância que teve para a retratada) ou descartado. Também as cenas na cidade de Israel soam deslocadas e distantes. Não parecem reais. l O resto convence. Méritos para um roteiro que se pautou pela sobriedade e uma atriz maravilhosa no papel principal: Barbara Sukova.  Para nós que não vivemos a época em que se deu a temática debatida é mais importante ainda. Afinal não se deve negar um fato que marcou negativamente a história da humanidade e é bom refletir sobre os rumos tomados para se ver onde se errou, e questionar-se se existem outros caminhos (Arendt era contra a forma com que se materializou o sonho de Israel, temia que virasse um estado militarizado como foi Esparta na antiguidade...  ela acertou na mosca).

Hannah Arendt foi uma filósofa alemã de origem judia que ganhou reconhecimento mundial após a publicação de “As Origens do Totalitarismo” onde devassou o mecanismo de funcionamento do regime nazista e também do regime soviético sobre o comando de Stalin. O filme aqui vai mostrá-la em pleno exercício de reflexão enquanto cobre o julgamento do nazista Adolf Eichmann, que foi raptado na Argentina por membros da Mossad e levado a Jerusalém. Adolf Eichmann foi um oficial nazista e era responsável  pela identificação dos judeus  e o seu transporte até os campos de concentração. O acompanhar parte do processo desencadeia em Arendt a criação de 5 artigos que serão publicados na imprensa meses depois e que causam um furor na opinião pública mundial e sobretudo entre o povo judeu.

Arendt ao contrário do que se esperava, não endossa simplesmente a atitude tomada pela justiça israelita. O filme descreve como Arendt molda essa cobertura de uma forma forte, mas lembra da importância da reflexão individual frente às soluções do conformismo. O filme não discute a relevância do que ela afirma tampouco a veracidade de suas afirmações. Reduz-se tudo aos dois pontos cruciais de suas afirmações: a banalidade do mal e a afirmação que muitos dirigentes judeus de várias comunidades europeias por razões complexas teriam contribuído (ou facilitado) com o processo de exterminação levado a cabo pelo III Reich.
O grande dilema do filme é retratar a figura de Arendt sem que isso ofusque as questões levantadas por ela. Assim, como não poderia deixar de ser, os trajes, os flashbacks, a ambientação, o elenco, agem de forma que nos aproximemos daquilo que seria a figura de Arendt. Suas amizades, seus romances, seu cotidiano. Tendemos ao nos inserir em sua vida, a olharmos tudo através de seus olhos e assim perdemos a nossa capacidade de argumentar.  O filme fala dela, do julgamento de Eichmann, da controvérsia que suas opiniões causam na comunidade judia nos EUA e Jerusalém.  Mas o que se quer atingir é algo mais abstrato. Fala-se da liberdade de pensar, do conformismo em todos os tempos e em qualquer lugar. O interesse causado pelo julgamento, a violência que toma o lugar da razão quando desse julgar, as incertezas e confusões geradas buscando tornar Eichmann uma exceção dentro do seio da humanidade, quando em verdade seria uma figura extrema, de um processo banal, frequente mesmo: aquele de negar ao outro o direito de pensar diferentemente, de interditar o direito do outro, ou a sua radicalidade mais expressiva: Negar-se a pensar em tudo e nas suas consequências (Vede o EI nos dias de hoje, ou a política extremista de Israel).

O que despertou a atenção em Arendt é como Eichmann se pronunciava. A forma como ele dava a sua visão do que ocorrera. Como ele de certa forma (consciente) tinha se anulado para ser apenas uma ruela de uma engrenagem maior. Isso, ao contrário do que se possa imaginar, não diminui a extensão de sua culpa, ao contrário, a aumenta. Quando se nega a sua capacidade de usar a inteligência, a norma é a satanização. O maior crime que um humano pode fazer a si mesmo é negar-se o direito de pensar. Fazer as coisas maquinalmente, sem dimensionar os efeitos de sua ação.

Arendt será acusada de ser nazista ou anti-semita. Até pelo fato de ter escapado do extermínio e ter conseguido chegar a América.

O filme desagradará a muitos. Afinal leva a sério a proposição da liberdade de pensamento. Fórmula frequentemente usada para se criticar as ditas ditadura, os regimes não democráticos. Só que na obra esse lema se estende a todos. A liberdade deve ser convocada como responsabilidade de todos os indivíduos face a toda política conformista e não somente contra as dos Estados Ditatoriais. Num mundo onde o sistema educacional faz usa da velha fórmula da punição e recompensa, preconizada pelas teorias comtianas (Skinner é seu fiel discípulo) tal mensagem é sempre oportuna. O grande problema é saber se o discurso será compreendido.

A aceitação sem reserva do cumprimento das ordens de seus superiores nazistas tornaram Eichmann um  monstro (não o homem, mas o indivíduo). O mesmo se dá num grau menor (geralmente), no comportamento da mídia, dos radicais de toda comunidade, e nas reações intempestivas da turba quando de um fato que gere comoção. É o totalitarismo em sua forma contemporânea. Não se anula impunemente o pensar.

Um filme difícil, obrigatório e necessário.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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