sábado, 2 de agosto de 2014

Vocês Ainda Não Viram Nada! (2012)

                                         



Quando vamos ao teatro ou cinema, exercemos algum tipo de relação com o espetáculo/obra que estamos presenciando. Sentar-se nas poltronas, cadeiras de cinema é praticamente um exercício, um encontro, entre a arte e o indivíduo. Nesse encontro, independente de gostarmos ou não, em todas as suas formas e modos, estaremos praticando um ato de sociabilidade, adquirindo e chocando pensamentos, ideias e visões, um tumulto, um choque de culturas em um pequeno espaço, mas de tempos variáveis e infinitos de um mesmo objeto, de um mesmo alvo, de uma mesma peça de arte.


Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n'avez encore rien vu, 2012), parte desse conceito para (re) criar seu mundo. Não acompanhamos mais um filme por si só, uma ideia apresentada em forma de imagem, mas sim encontramos um desafio maior – afinal, o espectador sempre encontra um desafio em frente à tela, em maior ou menor grau -. Não se trata mais apenas do que se vê, mas de quem se vê. Por isso, o filme de Resnais utiliza esse conceito tão pouco explorado, mas tão evidente entre a obra e o espectador, esse diálogo essencial. Claro, esse confronto também, ainda que nítido em imagens e em nossa cabeça (da plateia diante do espetáculo, fisicamente), é simplista. Por isso Resnais explora por trás da imagem, desse desafio – que ele mesmo já nos proporcionou em tantos outros filmes – se aventura, se arrisca entre esse contato nosso com a arte.





Desse modo, Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n'avez encore rien vu, 2012), adquire traços, não surrealistas, mas sim enigmáticos. O contato, em seu sentido mais primitivo, guarda para si imensos significados. Se Hitchcock manipulava as imagens a ponto de enganar seus personagens, fazendo cair em uma profunda obsessão, Resnais embora não utilize desse tom macabro e impiedoso de Hitch, estrutura seu filme da mesma maneira. Se nos filmes de Lynch, o sonho se misturava com a realidade (podendo se moldar de forma feliz ou cruel), Resnais pratica esse exercício de forma mais “clara”, embora a imagem pareça um sonho, uma ilusão, aqui ela adquire traços reais, por isso não há medo algum, assim como a Rosa Púrpura do Cairo (The Purple Rose of Cairo, 1985), desse aprofundamento dos espectadores com a imagem, que não só lhes seduz, lhes atrai, mas também parece se direcionar diretamente a eles.


Qual a verdadeira diferença entre teatro e o cinema? Resnais não parece se preocupar com isso, muito possivelmente essa nem seja a pergunta adequada a se fazer. Seu filme é, sem dúvidas, cinematográfico no sentido mais puro da palavra. Ao mesmo tempo que sua obra só poderia existir no cinema, prefere discutir nosso contato do que ela em si, somos os protagonistas. Por isso, seus atores não precisam aqui de outros nomes que senão os seus, estão à mercê da imagem, para imagem e a favor dela com sua própria linguagem e gramática. Daí talvez a razão de seus personagens – não só aqui, mas principalmente em todo seu cinema – amarem, cantarem, sofrerem, sorrirem, viverem. Vocês Ainda Não Viram Nada! (Vous n'avez encore rien vu, 2012) é o testamento de um cineasta, de um artista humilde e genial que sintetiza um pouco o seu amor pela arte, uma obra a qual todos desejariam ter, perfeita para eternizar de vez seu próprio criador. A peça/filme acaba, as cortinas fecham, aplausos para Alain Resnais. 

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