domingo, 17 de agosto de 2014

Um Olhar do Paraíso (2009)




"Por muito menos que isso pessoas já foram presas, torturadas, etc." - Daniel Dalpizollo.


“Violentada e assassinada uma jovem de 14 anos descobre que a vida não cessa com a morte. De um lugar ignoto ela observa o mundo. Vê seus pais inconsoláveis começarem a se distanciar um do outro, deixando seus outros dois irmãos sob os cuidados de sua avó. Vê também o vizinho que a matou continuar a tramar outros crimes se valendo da impunidade.”

Curiosamente quando li o dito de  nosso colega e Cinéfilo Daniel Dalpizollo  e quis tomá-la para mim. Ainda que nossas opiniões sejam díspares sobre tal obra (ele a detestou). Em que consiste então essa dualidade ao ver a obra. Difícil será eu responder tomando o argumento dele, pois não o conheço. Terão de se contentar com o que vi e me agradou. Não querendo isso dizer que o que ele viu tenha sido outra coisa, talvez o que me agrada, não o apetece.





Até hoje o homem esbarra ante os pórticos do sepulcro com aflição milenar. A morte segue até hoje torturando os seres e os ferindo em seus sentimentos. E ao ler as críticas e comentários referentes ao filme, vemos que elas fazem uso de termos teológicos jungido a doutrinas que se fazem donas da verdade. Assim vale-se de vocábulos como paraíso, céu, inferno, Éden, etc., para descrever aquilo que o diretor plasmou na tela. E fossem as imagens de Jackson feitas em uma época muito antiga, ousando contrariar os dogmas pré-estabelecidos como verdades indiscutíveis e lá estaria toda a equipe que colaborou na concepção da obra presa ou torturada por cruéis inquisidores.

Ainda que o filme não seja uma obra prima carecemos de critérios para avaliá-lo de forma completa. Até por que o diretor foge dos estereótipos estabelecidos ao captar as imagens do que seria o local (ou locais) por onde Susan vaga. Ainda que muitos digam que o local (Paraíso, ou o que seja) onde Susan se encontra seja idealizado, melhor cometer desatinos e alcançar o seu lugar oposto(Se o Paraíso for assim, melhor optar pelo seu oposto - digo isso para aqueles que acreditam em tal destino). Ora, isso ainda que não agrade de todo, ofende aqueles que vendem faz milhares de anos uma visão maniqueísta do“além vida”. A idéia que surge é que cada qual cria a própria realidade que o circunda. Nada de conflito a desnudar e conseqüentemente uma ausência quase total de resoluções, uma estrutura narrativa desmantelada alternada por quebras de tom intrépido, e de opções gráficas, ao retratar as visões pós-morte, que achincalha as regras do esteticamente correto.

Extremamente colorido, kitsch mesmo, o diretor projeta a câmera nos fantasmas de sua heroína mesclando um quê da subcultura gráfica os anos 60 
e 70 ao criar tais imagens.



Alguns dirão que falta ação e fôlego ao filme. Que existe certo estancar na narrativa. Estão certos. Após o assassinato da garota o diretor ousa trabalhar sobre a frustração do não poder se direcionar sobre um caminho que nos agrade. O que me encanta não é o sofrimento físico dos personagens, que quase não é tratado em imagens, mas que é reforçado verbalmente em muitas tomadas. Tampouco o sentimento de impunidade que revolta, nem a temática da inocência perdida. O que me encanta é o pavor causado por uma situação que conduz os personagens a uma impotência, uma incapacidade de não saber o caminho a seguir, o sentir-se estancado diante de uma vida que prossegue. O vilão comete algo com o qual não sabemos lidar. Mata suas vítimas, mas não permite que a considerem mortas, pois não existe corpo pra comprovar seus atos(O mesmo se deu com as Torres Gêmeas). Espectador e os personagens são levados a um estado de encarceramento – e tudo se estanca nessa temática: aprender a viver com algo que é intolerável; cutucar o horror sem se permitir sufocar; aceitar o destino (ou sua sorte) sem poder obter a satisfação da vingança (já que nada tem um fim).

Talvez o aparente naufrágio da obra de Jackson deva-se a sua coragem. É uma história sobre aceitação: Uma garota deve aceitar sua morte e seus familiares devem aceitar a continuação da vida, apesar da dor da perda. E nós o público devemos aceitar a lidar com a aparente “morte” e a falta de compreensão do sentido do todo.





Ora se tudo continua (Talvez não exista o sono até o dia do juízo dos cristãos tradicionais; nem o nada dos ateus, tampouco o panteísmo de doutrinas orientais e nem o Paraíso dos Muçulmanos) as respostas ainda estão por serem dadas. E Jackson só coloca essa incerteza na tela. Se a garota ainda vive, todos viverão. Inclusive o vizinho assassino. E a sensação de incômodo (causada também propositalmente por estender propositalmente a duração da película em pelo menos uns 30 minutos) não se finda com o fim da projeção. Jackson retoma a trilha aberta por seus “Espíritos” e “Almas Gêmeas” com um amadurecimento muito maior. Instigante ainda que desagrade em alguns momentos.

Escrito em 11/07/2011

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