segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Tudo Que o Céu Permite (1955) - Crítica




“A Natureza é algo mutável, sempre e nunca a mesma.”

“A natureza está constantemente a misturar-se com a arte.”

“Uma seita ou um partido político é apenas um eufemismo elegante para poupar um homem do vexame de pensar.”

 Emerson.


Instigado pelo recente e oportuno escrito de meu colega Ricardo Nascimento (http://omundodoscinefilos.blogspot.com.br/2014/06/imitacao-da-vida-1959.html) acabei no sábado (09/08/2014) revendo essa obra que o Telecine Cult reprisava. Já a vira várias vezes, no entanto dessa vez me regalei (algo que se depreende em cada linha no escrito do meu amigo). E também  por que agora ela não pertença àqueles filmes calcados nas refilmagens de Stahl (a quem muito admiro). Acabei confessando sem o querer que meu conhecimento da obra de Sirk se restringe a Imitação da Vida, Sublime Obsessão e esse que me proponho a analisar.

Assim como Stahl, Sirk é conhecido por ser um autor de melodramas. Um gênero mal visto e tido como algo que encarcera o talento. Bobagem. Existem certas regras que o definem, mas o talento nunca se aprisiona a elas (ainda que as respeite) e sempre a engrandece com alguma contribuição para o seu enriquecimento. Gostaria de poder dizer a plenos pulmões que esse filme aqui seria o ponto alto da carreira de Sirk. Contento-me em dizer que é a melhor das 3 obras que conheço. E um filme que comprova realmente que Rock Hudson era um ator de recursos e merecia (merece) ser mais bem reconhecido.




O melodrama padece de alguns clichês que ele capta como um rio o faz com seus afluentes. O problema é que quem assiste possui apenas uma escolha de identificação que o delimita a um território familiar sem escapatória. São arquétipos bem delimitados que o engrandecem e o diminuem ao mesmo tempo. Ele descreve um universo conhecido e trabalha com personagens perfeitamente identificáveis socialmente falando. E qualquer transgressão a essas regras são proibidas. Assim o que o torna atraente é justamente esse choque entre dois polos contrários, essa ameaça de cisão no que já está socialmente estabelecido. Tudo o que constitui uma ameaça à ordem vigente. No melodrama a regra é o forte que deve dominar o fraco. Entenda-se forte não somente pelos aspectos físicos ou financeiros. Uma ideia que abale a ordem vigente e se estabeleça como verdade, que pode fazer ruir o já estabelecido, e que será combatida, por si só é algo forte, ainda que de inicio nos surja como algo risível. A sociedade ocidental sempre coloca uma jovem mulher como ameaça a instituição do casamento. Afinal o homem pode se aventurar, já que o lastro de uma relação cabe a fêmea. Assim vemos no filme, naquele clube conservador, um maduro buscando novas conquistas. A esposa mantém distancia e a sociedade aceita essas escapadelas. Afinal o lastro emocional está seguro. O filme, no entanto vai mais além na sua proposta. Não é somente o fato de ele ser jovem (o jardineiro) e por isso ser uma ideia perigosa. Afinal com sua juventude está ameaçando um lastro que estaria destinado a outro viúvo. Ele também é de condição financeira abaixo da dela. E o pior, vive recluso fora das vistas da cidade. Ele não pode ser vigiado, mensurado, analisado, enquadrado, estudado. Um homem totalmente fora dos padrões de enquadramento ditados como regra. Um bom selvagem que ameaça a Civilização.




Cary é uma viúva reclusa. Um ser urbano. Já foi enjaulada e segue os padrões ditados pelos que a cercam. Já tem uma função definida: Não será enterrada viva como as esposas dos faraós eram com seus esposos mortos. No entanto terá de se enquadrar, aceitando como companheiro um cinquentenário viúvo ou uma TV. Ron Kirby é a materialização daquilo que a solidão em que se enclausurou permitiu vislumbrar. A força da natureza que a cerca, e que a viuvez e a distância dos filhos, permitiu enxergar. A tv que tentam colocar naquela casa não é algo fortuito. É preciso que o ser seja distraído e não penetre as verdades que pedem para ser descobertas. É a ideia de domínio (Comte, Durkheim, Skinner, religiões, etc) que nos é vendida como verdade. O filme rompe aquela ideia de desejo carnal, de amor possessivo. Lembrem-se da réplica de Ron Kirby a Cary: Eu saberei fazer com que você descubra em si como se tornar um homem. Para alguns isso poderia soar como uma ironia (devido ao que se revelou de Hudson posteriormente; mas não se trata disso – fala-se de um homem mais livre das convenções que o limitam enquanto criação do eterno).




O filme não marcaria tanto se não houvesse a esplendorosa foto de Russel Metty. Ela salpica, enlameia de cores primárias e busca reencontrar a pureza original do mundo destruída pelo homem. Raros filmes mostraram a neve tão imaculada, as folhas de outono tão douradas, a natureza tão próxima e tão longe ao mesmo tempo de nós. A luminosidade parece emanar de Clair, sem que necessariamente o outono seja iluminado por ela. É como se ela se jungisse a estação.  E Jane Wyman compõe mesmo um personagem longe de qualquer estereotipo, uma mulher de verdade.



A tomada final é coisa de gênio. Homem e natureza compõe um cenário único. Um melodrama que busca distância de qualquer artificialismo. Simples e profundo. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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