quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Feitiço Do Tempo (1993) - Crítica



A primeira vez que ouvi falar desse filme foi quando estreou no Brasil. Passou despercebido e só o vi depois que um colega chamou-me a atenção para ele. Ele viu qualidades que eu mesmo após assistir naquela época não vi. Vai o escrito a seguir em homenagem a ele, esteja onde estiver, já que não o vejo faz anos. Grato João Luiz Máximo da Silva pela indicação.

“Phil Connors, um apresentador de meteorología rabugento e arrogante, é escalado para fazer uma reportagem sobre a festa tradicional de uma pequena cidade chamada Punxsutawney que celebra todo dia 02 de fevereiro o despertar primaveril de uma marmota que se chama também Phil. Connors após cobrir o evento e descobrir que devido as condições meteorológicas se encontra preso na cidade, opta por passar o dia consigo no quarto do hotel onde se hospedou. Quando desperta no dia seguinte percebe estupefato que a data não mudou. Ele se encontra condenado a reviver indefinidamente o dia 02 de fevereiro, o dia da marmota.”


                             
  
Confesso que ao assistir pela primeira vez não morri de amores pela obra. Também não a achei mal feita. Achava-a, no entanto, esquecível. Ledo engano. Foi um dos filmes que mais cresceu em minha avaliação com o passar dos anos. Cumpre então dizer em que consiste tal afirmação.


Phil Connors (Bill Murray) é um dos personagens mais desprezíveis e egocêntricos que a sétima arte já concebeu. Encarregado de cobrir novamente o tradicional ground¬hog Day – dia da marmota, mais uma vez ele se dirige para a pequena cidade de Punxsutawney . Ele segue acompanhado de Larry (Chris El¬liott), seu cameraman e de Rita (Andie Mac¬Do¬well))sua nova produtora. Ele, desde que a história começa, pretende ficar o menor tempo possível em tal lugar. O destino, contudo o enclausurará em tal lugar e em uma mesma situação.




A história em si tem toda a estrutura de um conto feérico. Connors é um homem solitário que não ama ninguém, e tem a presunção de que ninguém que conhece merece sua atenção, seu respeito ou seu afeto. Esse caráter anti-social permite que o roteiro explore várias situações cômicas de uma forma elástica e ao extremo. Primeiramente após passar o susto o nosso “herói” explora a situação em tirando proveito para si. Resolve agir como um Dom Juan, torna-se um egocêntrico ao extremo. Nisso o personagem se assemelha a um personagem de Lubitsch, já que um de Capra seguramente não agiria dessa forma. Contudo é dele, da herança Capresca que o roteiro se aproxima, com sua base fantástica e seu cenário com a cidade encoberta por uma neve quase que natalina(“Adorável vagabundo”, “A Felicidade não se compra”). O cinismo que paulatinamente dá lugar a uma moral de cunho cristão, não é imposição dos estúdios, e não ocorre de forma a dotar o roteiro de algo sem sentido. Após a fase de depressão o “herói” percebe que sua felicidade depende da dos que o cercam, e que se a vida é infinita cabe a ele tornar sua jornada puída em jornada dos sonhos. Aprende também que conquistar uma mulher não é uma ciência exata.


                 

O roteiro elíptico e o uso das repetições não são privilégio dessa obra. Talvez ela tenha se valido de uma maneira mais enfática. Para recordarmos de algo anterior me vêm à lembrança “O ano passado em Marienbad”. Só que lá o uso de tal recurso tinha (tem) uma função hipnótica. Aqui se serve notadamente para criar de cenas análogas (os tapas, os suicídios, os despertares, os encontros e esbarrões). O humor nasce dessa repetição de eventos acidentais que recaem sobre o herói. A originalidade nasce da forma como a direção se valeu do mise em scène para nos manter interessados nesse quadro estático graças ao uso de uma retórica sutil e ao talento de um ator que beira o sublime em uma atuação comedida e discreta. 

A repetição mostra que existe uma desconexão entre a causa e conseqüência:
- Encarcerado bêbado ou se matando, seu destino é sempre despertar da mesma forma e no mesmo horário. 

- Sua gama de conhecimento sobre o mundo cresce na medida em que ele passa a conhecer intimamente os cidadãos e a rotina da cidade, que passa a ser vista como um ser humano vivo com suas peculiaridades e encantos. 




Esse aspecto repetitivo faz com que se consiga obter algo grandioso: o diretor consegue contrapor os intervalos entre o que conta (o filme em si) e a vida de Phil durante esses 10 anos (o tempo e o espaço diegético diferem ou podemos dizer que coabitam dois tempos e dois espaços diegéticos dentro de uma mesma trama).

Quem assiste ao filme participa de um jogo, já que passa a entender a regra e pode de maneira antecipada às vezes antever o que ocorrerá. E tal convite a reiniciar a brincadeira é renovado a cada manhã.

Não posso afirmar que o roteiro tenha bebido de alguma fonte reencarnacionista, já que não possuo elementos para tal. Mas tal narrativa se encaixa perfeitamente como uma fábula sobre a possibilidade do ser se harmonizar com o todo que nos envolve. Phil no início do filme se julga a última passa do panetone e se serve dos outros para seu gozo pessoal. No final o vemos modificado. Vive para servir e descobre em si potencialidades adormecidas: a literatura – poesia, escultura, música. Várias doutrinas pregam que o ser humano possui a eternidade para se educar e que só se libertará da dor e do sofrimento quando se harmonizar com a criação servindo-a, e não somente se servindo dela. De certa forma o pesadelo de Phil nada mais seria que aquele destinado a alma em aprendizado: Repetir o ano até aprender a lição. Findo isso

, novos horizontes se descortinam para o alçar de novos vôos. 

Notemos que o roteiro (um primor) se vale do início para apresentar os personagens. Quando o tal feitiço do tempo dá as suas caras vemos que nos é apresentado da seguinte maneira:

1ª repetição: Phil aparvalhado com o que ocorre 

2ª repetição: Phil procura especialistas, fica nervoso com não encontrar resposta, acaba preso.

3ª repetição – Com o conhecimento que possui evita o desagradável Ned, a poça, etc

4ª e 5ª repetição – Resolve seduzir Nancy.

Depois é dedicada várias repetições a seduzir Rita. Com o fracasso e não vendo novos horizontes vai-se deprimindo. Acaba tentando se matar e descobre que tal não é possível. A questão é que aos poucos nós não sabemos quantos dias se passaram. Percebemos que ele se dá conta que é eterno e tem, querendo ou não, de conviver com essa verdade. Ele mergulha na vida da comunidade e com acertos e erros descobre uma forma de se tornar importante e útil para todos e para si próprio (aproveita o tempo para se aperfeiçoar, estudando arte e literatura, dedica-se a ser uma espécie de anjo protetor). Comovente e profundo quando ele se dá conta de que não pode evitar a morte do velho andarilho( o que desmente a idéia de que seria um Deus). Que Deus é esse que não pode criar ou prolongar vidas? 




Sabemos que tal busca, ainda que numa cidade pequena, demanda esforço e tempo. Isso torna crível a proposta de seu autor que visava mostrar 10 anos de prisão temporal. E o Phil que finda o filme nada mais tem a ver com aquele homem que o iniciou. Ele é outro, e agora tem condições de fazer a corte a Rita. Não estaríamos aqui falando do que dizem os reencarnacionistas? Temos de nascer até aprender a viver.


Se Harold Ramis não atinou essa última hipótese quando da feitura de seu filme (Reencarnação), foi mais um que atirou no que viu e acertou em algo mais. Que todos os diretores tenham a felicidade de criarem obras tão ricas quanto esta que cresce aos olhos a cada visita que lhe fazemos. E que permite de várias leituras. Que tal fazer a tua?

Escrito em 24/01/2010

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