terça-feira, 26 de agosto de 2014

A Perseguição (The Grey)







Uma declaração de amor. Não qualquer declaração; mas uma declaração fausta e franca sob a contemplação de um homem de olhar vazio e fatalmente desesperançado. Entrecortes, nos quais se afiguram uma mulher ausente, “sem que se deixasse de relembrá-la um só instante”. Um dócil gesto: amavelmente tirar-lhe os cabelos lisos e soltos que recobriam a maçã de seu rosto e seus grandes e belos olhos de mistério. Apenas uma memória. E uma exclamação categórica: nunca mais poderei vê-la! 


Mais cortes que oscilam na continuidade do discurso desolado. Um gole de bebida. E mais um. E outro mais. O esboço de uma fotográfica lembrança e a certeza de um temível destino, sem mais. E outra virada de copo, e uma dose a mais.


A neve, o vento gélido, o refúgio na solidão. A mais plena confusão entre o ambiente geográfico e o coração humano. Cores pálidas e cinzas; nenhum sinal do Sol. E então um uivo ecoando distante, gritante, porém indefinível. É um lobo que uiva ou um homem que sofre?




Por entre neblinas e flocos, vemos o homem, que anuncia sua própria morte ao findar do dia. Ou talvez já estivesse morte antes mesmo de anunciá-la. Ao seu redor surgem outros homens, com os quais trabalha nesse ambiente inóspito, homens aparentemente perdidos em sua miséria, ou aventureiros exóticos, ou, quem sabe, apenas um bando de potenciais suicidas, de si mesmo dando risadas, com seu fim friamente planejado. Nenhum lugar seria melhor para o fim do que o próprio fim do mundo.


Em meio às hostis circunstâncias externas – e ao mesmo tempo tão internas! - veem-se acidentados no meio do nada. Alguns desistem, alguns insistem, alguns sangram até a morte. A esse ponto, a luta pela sobrevivência é tudo o que lhes resta. Propositalmente, acredito eu, a incansável chuva de gelo é sempre levada pelo vento em direção contrária ao caminho que os homens precisam seguir, como que se, nas filmagens, imanassem ventiladores das próprias câmeras, cobrindo de gelo quem quer que apareça. Em todas as direções que tomam, a nevasca demasiadamente agressiva metaforiza uma adversidade insuperável que precisam aprender a adaptar-se ou sucumbir-se; não só com respeito ao nada aprazível mundo externo, mas, e, sobretudo, com a avalanche de sofrimentos que sufocam seus próprios dolorosos sentimentos.




Esse esboço de minha perspectiva, do que seria uma breve narrativa inicial (não descrevi sequer mais do que as cenas iniciais, de alguns poucos minutos) apenas para dizer que ambos, crítica e público, enganam-se ao julgá-lo um mero filme de “lobos caçando homens no gelo”. E é com esse viés distorcido que nomearam o simples e bonito “The Grey” como “A Perseguição”.


Abro parênteses aqui para um desabafo pessoal. Em vista de mais uma das patéticas traduções brasileiras tão usuais, assim como a afetada correlata incompreensão na tradução de sua intenção e significados. Ora, a clarificação de certos símbolos não poderiam – e nem deveriam – se definirem a si mesmos, ao menos não de uma forma sistemática, como axiomas matemáticos ou princípios científicos. 


A arte, enquanto tal, deve afetar a sensibilidade e subjetivada humanas, não se explicitando abertamente (ato que muitas vezes parte do pressuposto de que o público não possui capacidade alguma de interpretação imagética), a arte deve seduzir sem se entregar, deve flertar com possibilidades e dimensões novas, a partir de elementos tais como a verdadeira expressão poética, o flerte com a consciência humana, em todos os sentidos, a arte deve ser de tal essência que se eleve a si mesma e possa se reinventar. É com tristeza que leio críticas que se tecem nessa orientação tão supérfluas. E é ainda com mais tristeza que vejo o público sendo “educado” a acatar essas fórmulas simplórias. 



Pois é. Afinal, quem precisa de Arte? 


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