sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Enigma de Uma Vida (1968) - Crítica




Existem algumas obras que apesar de suas qualidades indiscutíveis jazem esquecidas por razões impenetráveis. Impossível tentar desvendar o motivo pelo qual isso ocorre, afinal ainda que creditemos isso aos interesses do mercado, sabemos que existiram casos que esse interesse não foi suficiente para calar a arte, e ela brilhou no meio dos caos da adversidade. O filme a se discutir é por si só tão original e perturbador, que o fato de permanecer esquecido e pouco comentado causa-me surpresa.  Conheci-o através da tela pequena, mais precisamente pelo Tele Cine Cult. E já o vi por três vezes. E em todas elas as virtudes de sua narrativa e execução nocautearam-me. Como é possível nunca ter ouvido falar de tal filme?


“Em uma área residencial abastada, Ned Merril sai do bosque que a entorna e mergulha na piscina de uma rica residência. Ele é bonito, está trajando apenas roupas de banho. Saindo da piscina sobre o olhar desconfiado dos residentes ele os cumprimenta e afirma que possui uma ideia: Retornar ao seu lar atravessando todas as piscinas da vizinhança.”




Frank Perry o diretor com a ajuda de sua esposa que escreveu o roteiro vai nos contar um inteligente road movie. O road movie de uma alma. Fazendo uso de uma mise em scène original que causa certo desconcerto, o filme vai narrar como a América dos anos 50 vai entrar na era da dúvida e de um grande questionamento das premissas que a construíram.  Durante seu trajeto de piscina em piscina Ned Merril vai cruzar com vários personagens pertencentes ou que vivem no entorno da Sociedade WASP. O diretor desmascara a alta sociedade, composta de intelectuais, empresários, artistas que representam a American Way of Life.  É uma visão que poderia nos soar agradável num primeiro momento. Um mundo de “Caras” aparente.  No entanto como ele nos é apresentado por um personagem que nos desconcerta, não sabemos o que lhe vai n’ alma, tampouco o caminho que ele trilha. Então essa casta que celebra seu sucesso com festas a beira da piscina, regadas a comida cara e bebida fina, traz por trás um mundo vazio de valores ou moralidade. Um mundo de aparências, totalmente oco. Apesar de Merril se encontrar com dezenas de pessoas, delas não se carrega nada, a não ser a sensação de vazio. Seres sem alma, que levam o espectador atento a sentir certo mal estar e se encontrar como o protagonista: deslocado. A necessidade que ele possui de mergulhar nas piscinas nos dá a ideia de que é preciso se purificar, necessidade de ressurgir das cinzas desse “mundo” um novo homem. Será possível retornar a fonte primeira e renascer purificado, virgem?

Na primeira cena do filme somos levados a um bosque onde Merril surge-nos de costas quase nu. Parece-nos um selvagem livre das impurezas trazidas pela Civilização. Quando sai da mata para retornar ao mundo de onde veio,  a trilha sonora de Marvin Hamlisch casa perfeitamente com  percurso que nos é apresentado. Ele inicia o filme com um tema que remonta ao lírico mas que possui uma surda melancolia evocando de certa forma a força da natureza, mas algo outonal, que remonta ao seu declínio. A trilha sonora se junge ao sonho de pureza e de renascimento de Ned (lago, árvores, revoada de pássaros, rio), mas traz em seu bojo já a ideia de término dessa utopia. Ao sair desse bosque, o vemos de costas defronte a piscina da primeira casa, a melodia retorna de forma tímida, somente algumas notas que se aceleram, anunciando a partir desse momento as feridas do personagem, sua loucura. Quando ele pula na água, o tema lírico retorna, como se ao seu contato, tudo se limpasse, se retirasse dele o mal que o acomete. A ilusão de renascer retorna.





A medida que o protagonista remonta ao rio imaginário a partitura retorna. Mas ela passa a ser maculada em sua pureza pelas influências da Civilização corrompida. A bebida servida por um amigo, os coquetéis a beira das piscinas, as revelações sobre seu passado, vão contaminando esse lirismo transformando-o em algo mais sombrio e doentio até desembocar na cena final onde um Ned é acompanhado pelos instrumentos de uma orquestra a que se mesclam sons de um ambiente sepulcral para dar forma a uma sinfonia fúnebre que o colocará face a face com o vazio de sua existência. Burt Lancaster está excelente no papel e ele possui o físico certo e consegue com seu talento nos passar a ideia desse declínio físico e psíquico do personagem a medida que vamos desnudando sua alma. No inicio ele nos aparece como um semideus. A ator nos passa as nuances dessa transformações até o momento em que ele cai de joelhos. O elenco que o acompanha impressiona, sobretudo Janice Rule, que transmite pelo olhar e gestos a dor que a dilacera.


Frank Perry jaz desconhecido, mas se o restante de sua obra trouxer o vigor dessa,  é necessário revisitá-lo com urgência. Com certeza um dos filmes chaves americanos da década de 60, que une originalidade a um arguto diagnóstico da sociedade que retrata. Imperdível. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Um comentário:

Anônimo disse...

ótima crítica, condizente com o impactante filme sobre o qual se debruça.