terça-feira, 22 de julho de 2014

O Albergue (2005) - Crítica




Hostel não é um grande filme. Existe, no entanto um algo mais que torna o filme em si e a própria realização um produto que deve ser conhecido. A grande virtude de Roth foi conhecer  bem o seu potencial (ou seus limites). O diretor nos conta que teve a idéia ao ver anúncios em jornais onde pessoas buscavam outras que se deixariam torturar em troca de dinheiro. Ele resolveu aprofundar a questão e daí surgiu a obra.


Conhecer seus limites é algo que denota bom senso. Roth não teve lampejos de querer criar uma obra prima como teria Ed Wood (quem viu o filme de Burton vai entender o que digo). Foi honesto com o material que possuía e elaborou o roteiro de forma a atrair e agradar um público diverso. Não só os que se comprazem com o gênero horror, mas, sobretudo a geração American Pie ou os aficcionados no gênero besteirol. A primeira parte segue os passos de três adolescentes em busca do jardim das delícias. Foram a Europa (dois deles, já que um é finlandês) a procura de jovens belas que proporcionariam momentos de prazeres sem compromisso. Ao ouvirem um conselho de um homem que lhes indica a Eslováquia como o lugar ideal seguem para lá. Tudo no inicio confirma a indicação: uma pousada aprazível e jovens disposta a cumprir os seus desejos. Roth explora bem esse lado voyeur do espectador e a beleza dos corpos jovens.




Após esse deleite se inicia o despertar da consciência, ou ao menos surgem no público a herança e o peso da religião. Ainda que não percebamos o homem que vive um mundo só de delicias está condenado a punição (é isso que nos é passado como verdade pelas religiões faz milênios). E essa punição surge às claras de maneira paulatina. O primeiro que desaparece é Oli o finlandês. O desaparecimento em si não causa grandes sustos em quem vê (sabemos que algo ruim se deu, e somente ao vermos apenas a cabeça bem depois o que jaz na sombra passa a ganhar um contorno mais nítido) e nem apreensão grande nos outros dois protagonistas. Eles continuam a se inebriar com o que a vida lhe oferece. Esses primeiros 40 minutos que muito poderiam considerar um estereótipo da juventude americana atual em minha opinião não o é. No Ocidente tais valores e esse modo de viver ganhou uma amplitude maior. Eu não apreciei os personagens, mas não os vejo como rasos. São reais. E os atores estão bem em seus papeis. Sobretudo Jay Hernandes e Derek Richardson.

Passada essa etapa o diretor muda o norte de seu filme. E ficamos (seriamos sádicos?) aguardando as coisas acontecerem. No segundo ato gradualmente o horror se instala, de forma mais sugerida que com nitidez. O roteiro não possui nenhuma concessão para com os protagonistas. Josh despertará numa enxovia e será cruelmente torturado, com um toque de sadismo que demonstra a impossibilidade de qualquer reação (quando a porta lhe é aberta e o caminho deixado livre). A idéia que está por trás do horror que vemos é ainda mais assustadora. Não sabemos ao final quem são essas pessoas que estão por trás da organização. O assustador é imaginar elas não como uma massa homogênea, mas seres oriundos de várias lugares e de várias realidades distintas(nazistas?, militares das ex-repúblicas soviéticas?, Capitalistas entediados? Loucos endinheirados? Religiosos? ).

No último ato temos o aumento de intensidade da narrativa. Sabemos o que ocorre de uma forma mais clara e o diretor nos deposita sobre o personagem que restou. Finalmente nos é mostrado de uma maneira mais ampla o local dos horrores. A ação e a violência são nos apresentada de uma forma deslocada, o que nos ajuda a quebrar  a noção de realidade. O acelerar de tudo é benéfico, já que dessa forma o horror não nos agride de forma a que nele adentremos. Não existem espaços para reflexões. Elas poderão ocorrer logo após a projeção, quando tudo o que vimos já está consumado. Notemos que não seria necessário se estender sobre a tortura sobre o último protagonista, pois Josh já o fora de uma maneira plena e eficaz. Os gritos advindos de uma sala contígua só despertam em Paxton o desejo de que aquilo que ainda ecoa em seu ser cesse de se materializar. Ele ao tentar salvar a jovem oriental, quer de fato cessar o horror em si. E ao vermos a desfiguração de que ela foi vítima, somos surpreendidos com a visão do horror de uma forma muito contundente. O que se segue a seguir é uma condensação e uma solução que visa dar satisfação a quem assiste de uma forma rápida e certeira. As sereias que seduziram os mochileiros encontram uma justiça rápida, o torturador mor recebe o castigo merecido (sem que necessariamente Paxton tenha se tornado aquilo que desejava eliminar – Ainda que tenha ceifado os dedos do algoz antes de eliminá-lo, não havia nele nada de premeditado, nem a frieza e o distanciamento dos que praticavam as torturas naquele local). O sacrifício (suicídio) da oriental que possibilita a fuga (resolvendo assim de maneira lógica um dilema) traz-nos algo a refletir. Se Paxton podia conviver com uma parte amputada (já que podia ser mais bem camuflada) a jovem não dispunha de um solucionar. É triste ver que somos julgados pela forma que nos apresentamos e não pelo conteúdo que carregamos.


Roth mostrou-nos um filme interessante e soube resolver com desembaraço os problemas advindos do público a que se dirigia. Não se trata de uma obra profunda, mas prende sem ofender a inteligência de quem assiste buscando um algo mais e não se deixa levar pelo aparente descompromisso de seu primeiro ato.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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