segunda-feira, 28 de julho de 2014

Como Era Verde O Meu Vale (1941) - Crítica





Eis aí uma obra que é mal vista, não pelo que traz em seu bojo, mas simplesmente pelo fato de ter abocanhado os principais Oscars da Academia ao invés de “Cidadão Kane” que a época de seu lançamento, não teve o reconhecimento merecido, sobretudo pelas novidades que trazia na sua feitura. Mas se pensarmos somente na obra, “Como era verde o meu vale”,  não podemos deixar de enxergar nela vários elementos que merecem ser apreciados. É uma obra digna e que não envergonha a filmografia do grande Ford. John Ford exalta nela os valores da família e da solidariedade em uma comunidade de mineradores no Pais de Gales. Tudo é visto pelos olhos de Huw Morgan, que está para abandonar a casa agora vazia da família e nos passa a contar sua existência. Ele cresceu ali, descobrindo de maneira paulatina os prós e contras, as alegrias e tristezas advindas com o correr do tempo de morar em tal comunidade. É um filme que fala de partidas e chegadas, da vida e da morte com rara sensibilidade e um texto maravilhoso (“Homens como meu pai não morrem” – narra o protagonista quando o pai morre).

Em certo momento o idílico desaparece, os tempos difíceis chegam: Salários são achatados, trabalhadores despedidos. É a greve. O pai considera a greve um meio condenável, mas seus filhos maiores não acatam seu pensamento e deixam a casa familiar. O pai recebe ameaças, seu filho Huw e a esposa sofrem um acidente. O filho Huw permanece doente por vários meses. Um novo pastor se aproxima da família e assim como veio a crise se vai: a mina retoma seu funcionamento. Os filhos, contudo deixam a vila, pois foram despedidos. A filha da familia Angharad Morgan cai de amores pelo pastor, mas se casa com outro que tem melhores condições financeiras. Ela vive sozinha e infeliz em uma bonita residência, mas a intriga obriga o pastor Mr. Gruffydd a partir. 


Podemos achar estranho que Huw permaneça sempre jovem em sua aparência (nem tanto nas atitudes). Mas aí é um recurso plenamente aceitável, visto que quem conta pode se imaginar do jeito que quiser. Ingmar Bergman fez muito uso do recurso de mostrar alguém envelhecido, participar de fatos passados quando na juventude (No magnífico “Morangos Silvestres”). Aqui Ford optou por não mudar o ator, fazendo uso desse recurso tão comum. Mas que causa estranheza causa. 




Ford também construiu a pequena vila de uma maneira um pouco irreal (notamos que tudo foi feito em estúdio). Mas não deixa de impressionar a vila, acima do vale. A rua também enche os olhos: em queda longa, povoada de habitações, artéria principal da comunidade e da própria ação da trama. É dali que os trabalhadores partem rumo à mina, é ali também que os habitantes se encontram e conversam, fazendo assim juízo de valor sobre si mesmo e sobre os demais.

Em suma, trata-se de uma obra onde Ford deu-nos personagens bem construídos, frequentemente ambivalentes em suas escolhas e percursos. É isso que eu aprecio em Ford, em maior ou menor intensidade: Seus personagens, nós os conhecemos todos, bem como seus atores. E podemos reencontrá-los sempre. Basta querer ver de novo sua obra, não importa de quanto seja esse espaço de tempo. Mas quem resiste a ficar distante de filmes tão calorosos? 


Gilda (1946) - Crítica


Se eu já tinha anteriormente deitado meus olhos sobre Gilda? Sim. No entanto ao rever através do recurso do DVD esse filme percebi que ou eu estava sem óculos ou estava distante do que vira. Não sei se alguém já escreveu algo da forma como eu escreverei. E nem estou certo se conseguirei colocar em palavras o algo que percebi em seu arcabouço. E tampouco sei se tal visão é correta. De qualquer forma a escrevo de forma a não perder a ideia. E estou aberto a qualquer crítica e aprofundamento da questão.


“Em Buenos Aires, Farrel é um americano que ganha sua vida enganando jogadores nos dados, mas uma noite ele é agredido por uma de suas vítimas. Das sombras um homem distintamente trajado o salva e lhe indica um cassino que poderia frequentar. No Cassino Farrel se dá conta que seu salvador desconhecido é o dono do local: Ballin Munson. Esse o contrata após ser convencido de sua utilidade. A amizade e a confiança mútua entre ambos cresce a medida que o tempo passa a ponto de firmarem um pacto: Não haverá nunca ninguém entre eles e o jogo. Só que um dia Ballin conduz a sua casa, logo após uma viagem, sua nova esposa: a bela Gilda.”

A primeira questão fechada sobre a obra é que se trata de um filme noir americano. Consenso quase geral e que eu não possuo argumentos para questionar (e nem pretendo). Agora é um filme americano que faz uso de uma cidade que a época da feitura do filme era cosmopolita. E a Buenos Aires vista no filme nada se assemelha a realidade. E nós nem colocamos isso como um empecilho, uma crítica contra o que foi construído e nos apresentado enquanto obra. A história está tão bem urdida, o elenco tão afiado, a direção tão inspirada que o real da tela nos cativa. Onde já vimos isso? Não precisamos ir muito longe. Basta recuar uns dois pares de ano e nos lembrarmos de Casablanca. Casablanca é um filme realizado em estúdio (tal como esse) e nada possui de verossimilhança com a capital do Marrocos. Mas é impossível deitar os olhos sobre um mapa geográfico e ao ver o local não nos remetermos ao filme. Casablanca criada por Hollywood tem ares de uma cidade mitológica povoada por personagens carregados de sentimentos que tão bem conhecemos. E o filme de 1942 soa até hoje como algo que todos tentam tocar. E Casablanca ao menos soa mais generosa que Germelshausen (Brigadoon) já que ao contrário dessa que só surge uma vez cada cem anos, podemos revê-la  mais rapidamente, bastando para nós nos colocarmos diante da tela quando a oportunidade surgir (antes do advento do Vídeo Cassete, DVD, Blue Ray os Cineclubes ao menos duas vezes ao ano punham em cartaz o filme – como no feliz curta  Nem Tudo Que É Sonho Desmancha No Ar ) Mas diachos o que este cara está falando, dirá um atônito leitor. O filme a ser discutido não é Gilda?! Sim é. Mas voltando a Casablanca. Na década de 40 o impacto causado pelo filme produziu obras que tentavam imitá-lo como “Os Conspiradores” e “Uma Aventura Na Martinica” para ficarmos em duas. Tiveram lá o seu êxito, mas ficaram distantes do que pretendiam homenagear.  Já Gilda...


Acredito que Gilda se vale do esqueleto de Casablanca de uma forma sutil e inusitada. Só que os personagens e o clima são distintos daquele do filme de Curtis. Em Casablanca o que víamos na tela eram refugiados e vários artistas em papéis similares (eram também refugiados: Peter Lorre, Conrad Veidt, Marcel Dalio, etc).

O que em primeiro lugar distingue ambos os cenários é que em Casablanca a Guerra estava ainda presente. Em Gilda a história se dá logo após seu término em uma cidade em um país que serviu de pátria para muitos adeptos do Eixo.

Num segundo momento os personagens são em geral, cópias mais negras (excetuando-se o detetive Maurice Obregon) daqueles de Casablanca:

Johnny Farrel é um Rick mais empedernido: Um jogador profissional e trapaceiro que possui uma única fraqueza: Gilda.  Mas ele não é um apaixonado e encontra no homem que a possui qualidades semelhantes a sua. Ele tudo faz para o proteger (vê Ballin como seu alter ego). E acha que punirá sua ex amante a mantendo presa de uma certa forma a Ballin (ou ele mesmo).




Gilda é uma Ilsa sem a aura romântica, dotada de uma beleza mais sensual, de corpo frágil e sobretudo que transpira uma fatalidade. Está ao centro da amizade entre dois homens e sabe que é desejada por ambos. Simboliza a amante e a amada. Ela somente desposou Ballin para agredir Johnny. A sua beleza estonteante e o distanciamento e artifícios que faz uso para agredir o amado demonstram que o romantismo se existe está encoberto por camadas de máscaras sociais. É uma armadura para se defender de um mundo que está longe de possuir uma aura de paraíso.  


Ballin é o personagem mais ambíguo da película, de uma certa forma indescritível. A maneira como o ator George MacReady o compôs nos desconcerta: Ambicioso, egoísta, possessivo, calculista e dono de si. Sempre vestido elegantemente, ora com um roupão, lenço destacado e uma dicção suave trazendo junto a si uma bengala punhal, tão afiada como seu pensar. O Johnny que ele enxerga não é o real, mas aquele que simboliza sua ideia de amizade. Ele brinda sempre em trio: o terceiro personagem é essa bengala (símbolo fálico?). Difícil classificá-lo tendo em conta Casablanca. Seria como o inspetor Renault totalmente vendido ao Furher.  E também temos na  relação entre os dois algo que desemboca em uma cumplicidade maior: Os três personagem são vetores de uma sexualidade – hetero ou homo – permanente durante toda a película, driblando de forma inteligente os limites da censura da época. Ballin então tem todos os motivos para querer matá-los: foi duplamente traído e perdeu a ambos.  Não é possível a saída: “Isso é o começo de uma grande amizade”.




Tio Pio é um velho que tem ares de filósofo. Mais contundente que Sam, ele não perde a oportunidade de escancarar o que pensa. O que Sam tem de submisso, Pio possui de ousadia. Não custa lembrar que ambos, no entanto estariam como espectadores da história, algo que em Gilda deixa de se assemelhar ao filme de Curtiz devido a atitude final de Pio.



O detetive Maurice Obregon é um Renault que não precisa agradar nazistas ou nacionalistas. E também não se aproveita de sua posição. Está ali como o personagem mais insípido de toda a trama.

Outro momento que muito se assemelha a Casablanca é a primeira aparição da fêmea na tela. De forma inesperada e que causa estupefação e tremores no amado.


Gilda não quis ser concebido como um filme que imitasse Casablanca. No entanto soa-me que seus autores ao buscarem a originalidade, deixaram de forma inconsciente, que o filme de Curtiz lhe enriquecesse a criação. É a impressão que tive ao término da projeção. De qualquer forma cabe a quem não viu o filme o conhecer. E os que já degustaram das duas obras assisti-las novamente. Quem sabe mais alguém enxergue o que eu vi. E se não notarem semelhança nenhuma ao menos serão agraciados ao fim da projeção com o que de melhor era produzido na década de 40 nos Estados Unidos. É isso.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sexta-feira, 25 de julho de 2014

O Enigma de Uma Vida (1968) - Crítica




Existem algumas obras que apesar de suas qualidades indiscutíveis jazem esquecidas por razões impenetráveis. Impossível tentar desvendar o motivo pelo qual isso ocorre, afinal ainda que creditemos isso aos interesses do mercado, sabemos que existiram casos que esse interesse não foi suficiente para calar a arte, e ela brilhou no meio dos caos da adversidade. O filme a se discutir é por si só tão original e perturbador, que o fato de permanecer esquecido e pouco comentado causa-me surpresa.  Conheci-o através da tela pequena, mais precisamente pelo Tele Cine Cult. E já o vi por três vezes. E em todas elas as virtudes de sua narrativa e execução nocautearam-me. Como é possível nunca ter ouvido falar de tal filme?


“Em uma área residencial abastada, Ned Merril sai do bosque que a entorna e mergulha na piscina de uma rica residência. Ele é bonito, está trajando apenas roupas de banho. Saindo da piscina sobre o olhar desconfiado dos residentes ele os cumprimenta e afirma que possui uma ideia: Retornar ao seu lar atravessando todas as piscinas da vizinhança.”




Frank Perry o diretor com a ajuda de sua esposa que escreveu o roteiro vai nos contar um inteligente road movie. O road movie de uma alma. Fazendo uso de uma mise em scène original que causa certo desconcerto, o filme vai narrar como a América dos anos 50 vai entrar na era da dúvida e de um grande questionamento das premissas que a construíram.  Durante seu trajeto de piscina em piscina Ned Merril vai cruzar com vários personagens pertencentes ou que vivem no entorno da Sociedade WASP. O diretor desmascara a alta sociedade, composta de intelectuais, empresários, artistas que representam a American Way of Life.  É uma visão que poderia nos soar agradável num primeiro momento. Um mundo de “Caras” aparente.  No entanto como ele nos é apresentado por um personagem que nos desconcerta, não sabemos o que lhe vai n’ alma, tampouco o caminho que ele trilha. Então essa casta que celebra seu sucesso com festas a beira da piscina, regadas a comida cara e bebida fina, traz por trás um mundo vazio de valores ou moralidade. Um mundo de aparências, totalmente oco. Apesar de Merril se encontrar com dezenas de pessoas, delas não se carrega nada, a não ser a sensação de vazio. Seres sem alma, que levam o espectador atento a sentir certo mal estar e se encontrar como o protagonista: deslocado. A necessidade que ele possui de mergulhar nas piscinas nos dá a ideia de que é preciso se purificar, necessidade de ressurgir das cinzas desse “mundo” um novo homem. Será possível retornar a fonte primeira e renascer purificado, virgem?

Na primeira cena do filme somos levados a um bosque onde Merril surge-nos de costas quase nu. Parece-nos um selvagem livre das impurezas trazidas pela Civilização. Quando sai da mata para retornar ao mundo de onde veio,  a trilha sonora de Marvin Hamlisch casa perfeitamente com  percurso que nos é apresentado. Ele inicia o filme com um tema que remonta ao lírico mas que possui uma surda melancolia evocando de certa forma a força da natureza, mas algo outonal, que remonta ao seu declínio. A trilha sonora se junge ao sonho de pureza e de renascimento de Ned (lago, árvores, revoada de pássaros, rio), mas traz em seu bojo já a ideia de término dessa utopia. Ao sair desse bosque, o vemos de costas defronte a piscina da primeira casa, a melodia retorna de forma tímida, somente algumas notas que se aceleram, anunciando a partir desse momento as feridas do personagem, sua loucura. Quando ele pula na água, o tema lírico retorna, como se ao seu contato, tudo se limpasse, se retirasse dele o mal que o acomete. A ilusão de renascer retorna.





A medida que o protagonista remonta ao rio imaginário a partitura retorna. Mas ela passa a ser maculada em sua pureza pelas influências da Civilização corrompida. A bebida servida por um amigo, os coquetéis a beira das piscinas, as revelações sobre seu passado, vão contaminando esse lirismo transformando-o em algo mais sombrio e doentio até desembocar na cena final onde um Ned é acompanhado pelos instrumentos de uma orquestra a que se mesclam sons de um ambiente sepulcral para dar forma a uma sinfonia fúnebre que o colocará face a face com o vazio de sua existência. Burt Lancaster está excelente no papel e ele possui o físico certo e consegue com seu talento nos passar a ideia desse declínio físico e psíquico do personagem a medida que vamos desnudando sua alma. No inicio ele nos aparece como um semideus. A ator nos passa as nuances dessa transformações até o momento em que ele cai de joelhos. O elenco que o acompanha impressiona, sobretudo Janice Rule, que transmite pelo olhar e gestos a dor que a dilacera.


Frank Perry jaz desconhecido, mas se o restante de sua obra trouxer o vigor dessa,  é necessário revisitá-lo com urgência. Com certeza um dos filmes chaves americanos da década de 60, que une originalidade a um arguto diagnóstico da sociedade que retrata. Imperdível. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 22 de julho de 2014

O Albergue (2005) - Crítica




Hostel não é um grande filme. Existe, no entanto um algo mais que torna o filme em si e a própria realização um produto que deve ser conhecido. A grande virtude de Roth foi conhecer  bem o seu potencial (ou seus limites). O diretor nos conta que teve a idéia ao ver anúncios em jornais onde pessoas buscavam outras que se deixariam torturar em troca de dinheiro. Ele resolveu aprofundar a questão e daí surgiu a obra.


Conhecer seus limites é algo que denota bom senso. Roth não teve lampejos de querer criar uma obra prima como teria Ed Wood (quem viu o filme de Burton vai entender o que digo). Foi honesto com o material que possuía e elaborou o roteiro de forma a atrair e agradar um público diverso. Não só os que se comprazem com o gênero horror, mas, sobretudo a geração American Pie ou os aficcionados no gênero besteirol. A primeira parte segue os passos de três adolescentes em busca do jardim das delícias. Foram a Europa (dois deles, já que um é finlandês) a procura de jovens belas que proporcionariam momentos de prazeres sem compromisso. Ao ouvirem um conselho de um homem que lhes indica a Eslováquia como o lugar ideal seguem para lá. Tudo no inicio confirma a indicação: uma pousada aprazível e jovens disposta a cumprir os seus desejos. Roth explora bem esse lado voyeur do espectador e a beleza dos corpos jovens.




Após esse deleite se inicia o despertar da consciência, ou ao menos surgem no público a herança e o peso da religião. Ainda que não percebamos o homem que vive um mundo só de delicias está condenado a punição (é isso que nos é passado como verdade pelas religiões faz milênios). E essa punição surge às claras de maneira paulatina. O primeiro que desaparece é Oli o finlandês. O desaparecimento em si não causa grandes sustos em quem vê (sabemos que algo ruim se deu, e somente ao vermos apenas a cabeça bem depois o que jaz na sombra passa a ganhar um contorno mais nítido) e nem apreensão grande nos outros dois protagonistas. Eles continuam a se inebriar com o que a vida lhe oferece. Esses primeiros 40 minutos que muito poderiam considerar um estereótipo da juventude americana atual em minha opinião não o é. No Ocidente tais valores e esse modo de viver ganhou uma amplitude maior. Eu não apreciei os personagens, mas não os vejo como rasos. São reais. E os atores estão bem em seus papeis. Sobretudo Jay Hernandes e Derek Richardson.

Passada essa etapa o diretor muda o norte de seu filme. E ficamos (seriamos sádicos?) aguardando as coisas acontecerem. No segundo ato gradualmente o horror se instala, de forma mais sugerida que com nitidez. O roteiro não possui nenhuma concessão para com os protagonistas. Josh despertará numa enxovia e será cruelmente torturado, com um toque de sadismo que demonstra a impossibilidade de qualquer reação (quando a porta lhe é aberta e o caminho deixado livre). A idéia que está por trás do horror que vemos é ainda mais assustadora. Não sabemos ao final quem são essas pessoas que estão por trás da organização. O assustador é imaginar elas não como uma massa homogênea, mas seres oriundos de várias lugares e de várias realidades distintas(nazistas?, militares das ex-repúblicas soviéticas?, Capitalistas entediados? Loucos endinheirados? Religiosos? ).

No último ato temos o aumento de intensidade da narrativa. Sabemos o que ocorre de uma forma mais clara e o diretor nos deposita sobre o personagem que restou. Finalmente nos é mostrado de uma maneira mais ampla o local dos horrores. A ação e a violência são nos apresentada de uma forma deslocada, o que nos ajuda a quebrar  a noção de realidade. O acelerar de tudo é benéfico, já que dessa forma o horror não nos agride de forma a que nele adentremos. Não existem espaços para reflexões. Elas poderão ocorrer logo após a projeção, quando tudo o que vimos já está consumado. Notemos que não seria necessário se estender sobre a tortura sobre o último protagonista, pois Josh já o fora de uma maneira plena e eficaz. Os gritos advindos de uma sala contígua só despertam em Paxton o desejo de que aquilo que ainda ecoa em seu ser cesse de se materializar. Ele ao tentar salvar a jovem oriental, quer de fato cessar o horror em si. E ao vermos a desfiguração de que ela foi vítima, somos surpreendidos com a visão do horror de uma forma muito contundente. O que se segue a seguir é uma condensação e uma solução que visa dar satisfação a quem assiste de uma forma rápida e certeira. As sereias que seduziram os mochileiros encontram uma justiça rápida, o torturador mor recebe o castigo merecido (sem que necessariamente Paxton tenha se tornado aquilo que desejava eliminar – Ainda que tenha ceifado os dedos do algoz antes de eliminá-lo, não havia nele nada de premeditado, nem a frieza e o distanciamento dos que praticavam as torturas naquele local). O sacrifício (suicídio) da oriental que possibilita a fuga (resolvendo assim de maneira lógica um dilema) traz-nos algo a refletir. Se Paxton podia conviver com uma parte amputada (já que podia ser mais bem camuflada) a jovem não dispunha de um solucionar. É triste ver que somos julgados pela forma que nos apresentamos e não pelo conteúdo que carregamos.


Roth mostrou-nos um filme interessante e soube resolver com desembaraço os problemas advindos do público a que se dirigia. Não se trata de uma obra profunda, mas prende sem ofender a inteligência de quem assiste buscando um algo mais e não se deixa levar pelo aparente descompromisso de seu primeiro ato.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

Depois Do Casamento (2006)




Quando assisti esse filme fiquei de revê-lo novamente para melhor compreender sua feitura, o alcance de sua proposta. Eis que a oportunidade surgiu (de tempo, já que o DVD descansava em minha estante). Eis que cumpre agora tentar dissecá-lo através da palavra escrita, algo a princípio fácil, mas que me dá sempre a sensação que o resultado fica aquém do imaginado.

Trata-se de um filme dinamarquês que ganhou o mundo e um raro produto daquelas plagas que ganha o mercado nacional. Felizmente o filme possui qualidades, a sua chegada até nós não foi fruto de um modismo passageiro. É um filme que pede muito de seu telespectador, mas que nos recompensa generosamente. Do elenco maravilhosamente dirigido, só reconhecemos Mads Mikkelsen que já trabalhou em Cassino Royale como vilão. Ele faz o papel de Jacob, homem que vive faz anos na India e se dedica a obras sociais. O começo do filme nos encaminha a imaginar que o que será discutido na tela é a questão da responsabilidade social, e isso não é todo errado. Susane Bier (a diretora) trabalha tal tema de uma forma inusitada. Ela coloca seus personagens em ambientes fechados, se vale de pequenos dramas periféricos, sem deixar um só momento a questão universal da responsabilidade social. Jacob é um homem que nos surge como alguém político corretamente. Mas trata-se também de um ser com suas fraquezas, seus acertos e erros. Em suma, não existe ali, o interesse de deificar ninguém. Não existe o super-homem, mas todos podem querer encarna-lo. Jacob se vê obrigado a ir até sua terra natal, única esperança de conseguir verba para o seu pequeno projeto social que ameaça ruir. Ao chegar na Dinamarca ele se depara com o Mecenas que pode salvá-lo : Jørgen (Rolf Lassgård em interpretação fantástica). 

O que percebemos pelo primeiro encontro é que Jørgen não parece transmitir nenhum interesse em abraçar a causa trazida por Jacob. A única preocupação que move Jørgen é a de dar a sua filha uma festa de casamento perfeita (ainda que ele não esteja seguro do passo dado pela filha, ainda que ela não seja sua filha verdadeira). Jørgen é assim um pai de família exemplar, um homem que se dedica a família e aos que o rodeiam. Em suma: Um ser que não tem preocupação nenhuma com que ocorre longe dos seus olhos, ainda mais tão distante de sua própria terra.

Anna a filha de Jørgen logo após o casório se sente duplamente traída (pelo fato de descobrir que Jacob é seu pai, também pela atitude indigna de seu marido que ousa traí-la em sua própria residência e que encaminha quem vê o filme a supor que seu marido apenas a queria como forma de galgar uma posição maior dentro da empresa do sogro – Jørgen mostra-se receoso quanto ao casório no que foi acalmado pela mulher que diz “é o primeiro casamento dela” – estranho país esse em que o casamento já é um produto descartável).

Helene, a mulher de Jørgen teve um relacionamento no passado, cujo fruto materializado é Anna. Ela no entanto é realmente fiel e apaixonada por Jørgen, e procura compreender a razão com que fez com que ele trouxesse novamente a sua presença o antigo namorado.

Jacob é um ser sonhador. Ficamos sabendo de seu passado leviano, de que foi um indivíduo nefelibata, mas que nos últimos tempos, fincou os pés na realidade. Ele acredita que está sendo manipulado por Jørgen, mas não tem certeza sobre qual motivação: vingança ou soberba.

Jørgen é um ser que nos é vendido como alguém acima do bem e do mal. Quase um semideus, devido a sua invejável condição financeira. Ele passeia por sua residência e nela nos deparamos com animais empalhados, oriundo de várias partes do orbe. Símbolo do poder de seus habitantes. Símbolo também do crime perpetrado por essa sociedade ao meio-ambiente. Quão humano ele surge, sobretudo após sabermos que ele está morrendo. Nem todo o seu poder, pode privá-lo da condição humana. E quão frágil ele surge a partir de então, como fazemos uma nova análise sobre tudo o que assistimos até então. Futuramente ele será apenas como os que jazem empalhados em sua parede. A diferença é que sua imagem desaparecerá tridimensionalmente. Viverá apenas nas lembranças dos seus, em fotografias e filmagens. Por baixo da etiqueta social, do pai exemplar, surge um irmão compartilhando sua dor, que encontra eco em todo esse pequeno globo, simples poeira perdida na imensidão do Universo.

Susane Bier consegue perpassar por todo o filme a cena que o abriu. A nuvem de crianças que esticavam a mão em busca de um naco de alimento. Nuvem essa que se agigantava a medida que a câmera abria e o tempo passava. Todos os seres desse planeta, em certo instante perceberão que estão interligados. Não existe uma ilha onde se isolar. O final do filme com o retorno de Jacob e o convite que ele endereça a uma das crianças é exemplar: Ele não quer ir morar com Jacob na Europa(Jacob devido a uma cláusula do contrato assinado com Jørgen, teria a obrigatoriedade de ficar residência na Dinamarca). Ele gravara em seu coração o que Jacob lhe dissera: Ele não gosta da Dinamarca. Jacob se cansara de se esconder da realidade.

 O garoto nascera nela e não queria fugir.


A diretora faz uso de vários planos detalhes, não raras vezes a lente se fixa em um olho, nos lábios dos personagens. Não é preciso mostrar o todo para nos encontrarmos. Filme exemplar que nos coloca em permanente meditação.

Escrito por Conde Fouá Anderaos em 27/12/2008

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Welcome to New York (2014)

                                         


O novo longa de Ferrara, apesar de algumas diferenças, no fundo é o velho Ferrara que já conhecíamos nos anos 80/90. Welcome to New York diferente do que se pode pensar, é sobre o cinema calcado na obsessão doentia, o sexo não como prazer, mas como maldição. Assim como O Rei de Nova York (King of New York, 1990), Ferrara parece voltar as suas origens gângsteres singulares, não como um mundo que o nosso imaginário já  criou, como é no cinema de Scorsese, mas sim da fragilidade dos homens de terno.


A narrativa de Welcome to New York é criada por olhares. Os diálogos que conduzem parecem curtos e na maioria das vezes insignificantes, a verdadeira criação de relação entre os personagens de Ferrara, é pura e primitiva, e se responde quando não no sexo, no cinismo, na indiferença. O mundo contemporâneo aqui é o mesmo que representado em O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013), só que por olhares completamente distintos, mas que criaram visões interessantes para serem comparadas. Se Scorsese prefere aproveitar das brincadeiras e do mundo da luxúria de Jordan Belfort em uma linguagem mais “acessível”, Ferrara e seu mundo sujo dialoga de maneira diferente, mais imagética e poderosamente realista e pessimista.


 


Deveraux (Gérard Depardieu) assim como Frank White (Christopher Walken em King of New York) não é um homem podre, ainda que tudo leve a pensar que sim. Há neles uma fagulha de esperança. Deveraux, porém é um espelho mais maligno e menos esperançoso (e bondoso) que White, vazio, triste e viciado em sexo. A Nova York e o mundo contemporâneo de Ferrara, não é mais o mesmo daquele caótico que se encontrava na década de 80 e 90, o caos mudou, é silencioso, quieto, incomum, onde as verdadeiras armas, metralhadoras são as câmeras fotográficas que famintas, pegam cada instante do andar de Deveraux.


Welcome to New York, não parece ser mais o lar de Ferrara, agora é um lugar mais estranho, mais ríspido, de violência psicológica. O homem de terno captado por Abel não é diferente de tantos outros. O mundo não parece mais girar através de metralhadoras, fuzis, ação no seu sentido mais puro. O que movimenta o mundo nessa “nova” Nova York de Ferrara são os números, a política, a tal da democracia. O homem de terno de Ferrara é ao mesmo tempo que mais alguém perdido nas ilusões do mundo atual, é também um retrato de um cinema que habitou dois tempos; se antes os personagens de Ferrara eram “reis”, agora são inadequados, antiquados, não pertencem aquele mundo cínico, o vício claro, continua ali, mas o pessimismo parece ser mais forte. Welcome to New York é o filme de ação dos tempos atuais, não há mais Walken, Snipes, Stallone ou Norris, mas sim um Depardieu obeso e obsessivo que esta mais em confronto contra si mesmo do que com os outros.

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O Homem Urso (2005)

                                         


É normal ver na TV, biólogos, especialistas convivendo com a natureza, os famosos Geographic Channel, Discovery Channel e principalmente o Animal Planet, recheados de uma programação que inclui o nosso contato com o da natureza, seja com seres aquáticos, selvagens, exóticos. Mas, talvez, nunca tenha existido alguém que tenha amado, no máximo o equivalente, os animais como Timothy Treadwell.

É claro, que esse amor, se confunde também com a fuga da civilização, o medo, uma ligação especial. É aí, que o filme de Herzog vem para inverter o alvo do documentário. Não se trata de mais um registro, do tipo Animal Planet, sobre a vida dos outros animais, mas sim de nós mesmos, os animais mais complexos (?) e esse nosso contato com a natureza. É importante olhar então, que agora o alvo central é puramente Treadwell, o nosso protagonista e amante dos animais, dos ursos que assumem aqui a representação dessa natureza que tentamos manter contato, que destruímos, que nos destrói, que parece não cruel em relação ao ser humano, mas indiferente.


O que leva então, o jovem Treadwell a arriscar sua vida para se aproximar dos animais? De opiniões sinceras, outras mais sentimentais, o filme de Herzog rodeia. Porém, parece permanecer nessa pergunta dois pontos principais, que parecem cercar, indireta ou diretamente a obra e o próprio espectador; a ciência e a fé. Herzog não aborda espiritualidade ou religiosidade alguma – embora a certa parte, ela apareça no discurso de uma amiga próxima de Treadwell – mas esse tema se torna um dos centros, a partir da paz que o jovem Timothy parece sempre pregar em seus discursos gravados em meio a floresta. A ciência, por sua vez, vem por exemplo, do especialista, que perguntado por Herzog, responde racionalmente condenando os atos de Treadwell, onde o mesmo estaria interferindo no território daqueles animais e que ainda que com boas intenções estaria prejudicando os ursos.


 




O que quer afinal, Timothy longe e solitário na floresta? Para Herzog, nosso narrador, uma possível conclusão é tirada disso. Em busca, conosco, de informações, percebe que também se trata de isolamento. Os questionamentos de Herzog não parecem permear através do porquê Timothy tinha essa aproximação especial com os ursos (embora a resposta dos mesmos não fosse sempre simpática e tenha resultado tragicamente), mas sim da fragilidade daquele homem. Já se perguntaram, enquanto viam ou mudavam de canal, o porquê de tantos biólogos, especialistas, arriscarem suas vidas, se isolarem, conviver apenas com outros animais? Pode e deve não ser a mesma resposta para todos, mas para Treadwell, a civilização parece mais feroz, selvagem do que o ambiente dos ursos.


“O homem solitário é uma besta ou um deus”, disse Aristóteles. Qual dessas figuras Treadwell melhor se encaixa? No documentário de Herzog, nenhuma dessas duas. Herzog, definitivamente, prefere questionar, questionar, valorizar a dúvida, analisar as imagens como se fossem obras de arte pertencentes ao cubismo, com todos os seus lados e formas possíveis, do elogio à repreensão ao debate, a crítica. Ao meu ver, a que mais se encaixa para Treadwell, é a frase de Deleuze a Godard; “um homem solitário, mas muito povoado por dentro”.

sábado, 12 de julho de 2014

Até Os Deuses Erram (1972) - Crítica




“Johnson um inspetor de polícia investiga faz várias semanas o caso de jovens adolescentes que são vítimas de um pedófilo. Naquela tarde uma outra adolescente desaparece e após uma batida em uma floresta próxima ela é encontrada caída, coberta de contusões e traumatizada pelo inspetor. Apesar do estado da menina, Jonhson procura interrogá-la a todo custo. Entra na ambulância que a socorre e continua um interrogatório desumano o que a faz entrar em um estado de histeria e é sedada contra a vontade do inspetor. Naquele mesmo dia um suspeito é levado a polícia e Jonhson seguro de sua culpa o interroga...”

 Em Emilio, Rousseau indaga de Montaigne se seria possível creditar ao homem como normal, aquilo que universalmente não poderia ser aceito como algo tolerável, a custa de se considerar aquilo como algo inerente a diversidade das civilizações. Ou seja, seria possível aceitar a pedofilia (para citar uma das taras da humanidade) como algo aceitável dentro de uma sociedade qualquer? Para Rousseau a resposta é óbvia: Não. A razão e a consciência seriam juízes severos e certos valores seriam universais.

Esse filme de Lumet, quase desconhecido, é visto por muitos como uma obra que destoa do restante de sua filmografia. Ledo engano. Os temas recorrentes de seu cinema ali se encontram:Ele sempre é citado como um cineasta que possui uma mise em scéne inventiva e cerebral. Falam que ele é por demais teatral. Seus filmes sempre se desenrolam em lugares fechados e se valem sempre dos diálogos. “Até os Deuses erram” (péssimo título em português) se ancora em uma peça de teatro e o diretor em nenhum momento tenta mascarar isso. Ao contrário ele crê que tal não é problema e as próprias cenas em ambientes externos são filmadas como se os personagens estivessem enclausurados dentro de uma redoma gigante sob o olhar atento do espectador. Desde o início tudo está impregnado por uma sensação de uma tragédia anunciada, em um lugar asfixiante e sem saída, um mundo sem horizontes, onde o homem jaz encarcerado. O subúrbio é filmado como um lugar sufocante. Desnudado sem piedade pela câmera. Vemos os blocos de construções como gaiolas cinzas onde o ser humano se enclausura. A Auto estrada não nos soa como uma rota de saída, mas surge como uma cerca que delimita as gaiolas. Edifícios com poucos andares, que não ousam procurar atingir o céu. Todos lúgubres com cores decadentes. A própria chefatura de polícia mais parece um nosocômio e a sala de interrogatório  uma sala de cirurgia que desvendara as doentes entranhas de seus personagens.

O cinema de Lumet repousa sobre o embate entre os personagens. Ele é apaixonado pelo ser humano, em esmiuçar esse ser e o tentar inutilmente compreender: A iluminação, os movimentos da câmera, o cenário, tudo é definido de forma a procurar demonstrar em imagens o que vai na mente de cada personagem. Daí sua predileção pelos filmes de processo, onde tudo que está em jogo é o desvendar do ser humano. É um diretor de atores e geralmente ele conseguia tirar o melhor deles (depois de ver esse filme, duvido que alguém não credite a Connery a melhor atuação de sua existência). Então não acreditem que essa obra seja uma exceção em sua filmografia. Não o é. É apenas o seu filme mais indigesto, onde ele ousou tocar em temas nada agradáveis: loucura, pedofilia, violência, sadismo, etc.



Connery prova que era um ator de respeito. Foi ele que bancou a produção do filme. Era um ator que não queria ficar preso a imagem do super agente Bond. E essa produção não é tão conhecida hoje, talvez pelo fato de seus produtores temerem com isso interromper a frutífera franquia com seu público. Então eles dificultaram a distribuição do filme, temerosos que esse público se assusta-se com essa sua outra faceta. Uma pena. Vale a pena conhecermos esse filme truncado e ousado. Até para se homenagear esse ator e o desvincularmos da imagem de Bond. Sem necessariamente ser contra o personagem, mas é bom saber que ele não era um artista de um só papel.


Quanto aos demais aspectos técnicos do filme, vale destacar que a trilha sonora esteve a cargo de Harrison Britwistle e a meu ver colabora com sua violência ao clima sufocante da obra ajudando a transformar tudo em um pesadelo. A mixagem destila a composição criando um clima de tensão crescente na obra. Os momentos de silêncio, rompidos por ruídos inesperados, não criam espaços para que o espectador respire. O filme nos impele em todos os aspectos técnicos a um mergulho em desfiladeiro de horror. Lumet levou seu talento às últimas consequências. Certamente você ira preferir outros filmes de sua lavra, mas não terá como negar que essa obra é a sua mais perfeita contribuição a sétima arte. É indispensável conhecê-la. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 1 de julho de 2014

Vivendo no Limite (1999)

                                            

Parece que os personagens da noite nova-yorkina de Martin Scorsese, tanto Frank (Nicolas Cage), como Paul Hackett (Griffin Dune) em Depois de Horas (After Hours, 1985) e Travis Bickle (Robert De Niro) em Taxi Driver (idem, 1976), parecem transitar, embora suas divergências, em uma mesma persona. Essa persona construída é entediante, mais um alguém da grande metrópole estadunidense, alienada, pouco lúcida, com problemas existenciais, e o mundo, as noites, conspirando contra os mesmos, mas também abrigando tais figuras, como vampiros condenados e abençoados com o dilema dom/maldição da eternidade.

Se em Taxi Driver havia uma relação quase visceral entre protagonista e ambiente – este nem sempre agradável, mas sempre acolhedor – em Vivendo no Limite (Bringing out The Dead, 1999), os fantasmas da noite underground da metrópole tornam-se parte literal da vida da personagem. Frank, diferente do taxista Travis, viaja entre a morte e a vida no campo imagético da alucinação e a realidade dura (de um Estados Unidos que beira ao fracasso total de seu sistema de saúde). A cena praticamente não assume um diálogo, mas sim um mandato da perdição em que se encontra cada um dos indivíduos captados pela mesma. Se as fortes cores opacas, os vagabundos, marginais e prostitutas – responsáveis justamente pela parte mais irônica do filme -, prédios despedaçados e vidas entediantes complementam a nova York dos anos 70 de Scorsese todas transitando pelo taxi de Bickle, aqui se assume uma posição degradante mais oficial.


Os passageiros de Frank necessitam a sua ajuda, mas a evitam, temem, fazendo-o assumir praticamente uma posição de “ceifador”, de testemunho de pessoas que estão entre a vida e a morte. Esse homem ocupa então um espaço especial nas sequências de Scorsese, enquanto cumpre esse papel “maligno” para si mesmo, é no fundo uma figura boa, um paramédico afinal, de salvador, praticamente de milagroso, mesmo que não seja visto dessa forma nem por ele mesmo e muito menos pelas pessoas que leva em sua ambulância, invertendo o conceito inicial que seu trabalho infere.



Ainda que, nem sempre infernal, a noite também ocupa seu charme com relação aos seus habitantes, viventes dela. O ambiente noturno, para Scorsese, parece ocupar em seu campo, duas almas através de uma mulher. Além do café que ainda mantém aqueles seres em pé, surge um romance, uma relação entre essas figuras scorsesianas e alguém que parece nesse meio obscuro e sombrio, uma luz, uma chama de esperança, mas também um delírio, uma obsessão, que se encontra numa personagem feminina. Diferente do que se pode pensar, Frank não é um homem totalmente niilista, chatos ou pessimista, existe na alma daqueles homens gravados por Scorsese, uma esperança que também se nutre através da atração por uma garota – infernais e abençoadas -, principalmente presente em Vivendo no Limite (Bringing Out the Dead, 1999), essa que ocupa uma Patricia Arquette que contracena com Nicolas Cage de forma tristemente otimista. Daí a explicação de um Cage fora dos padrões extremamente surtados, e totalmente rebeldes, que estamos acostumados a ver.


Essa fé, ainda que diferente da fé exposta em Caminhos Perigosos (Mean Streets, 1973) ocupa um lugar parecido. Charlie (Harvey Keitel no filme de 73) e Frank, além de serem mais uma representação desse dilema fragilidade/resistência, partilham também uma mesma característica em comum que parece ser escondida, ocultada pela frenética ação, seja psicológica ou literal dentro da tela. Ambos possuem uma crença forte em si mesmo que parece lhes consolar e entre outras coisas não optarem pelo suicídio – embora a fé nem sempre seja suficiente – tentando escapar e se tornarem mais um dos engolidos pelo caos urbano.


Falando também de forma popular com a própria cidade e a noite, Scorsese brinca novamente de forma “explicitamente implícita”. Frank, assim como estava Travis, está encaixado em um contexto social e político totalmente real, não apenas na representação punk das ruas de nova-york, afinal isso já se tornou marca de seu próprio diretor, mas sim de uma cidade que carece de auxílio médico, profissionalismo. Os “zumbis” que ocupam espaço no campo da imagem de Scorsese, não são apenas os drogados, viciados e marginais, mas também de quem os cuida, de quem os recebe, nessas caóticas noites, é uma troca entre auxílio de loucos para doidos. Adquire aí então o surreal, não apenas da fé, de que algum dia aquilo mudara ou melhorará, mas também do relato entre o real e fictício em choque, o delírio e a alucinação, de um homem que vive entre a vida e a morte, como todos nós, afinal.