terça-feira, 24 de junho de 2014

O Grande Hotel Budapeste (2014)

                                               


Wes Anderson é um homem, senão a frente, fora de seu tempo, mas nunca antiquado. Não existe simplesmente ninguém que filme igual. Seu tom fabulesco não apenas volta às origens da Nouvelle Vague ou no caso de O Grande Hotel Budapeste (The Grand Hotel Budapest, 2014), aos romances de Agatha Cristie ou quem saiba de Doyle e o detetive inglês mais famoso do mundo, há algo autoral e forte na marca de Anderson.

Seu tom cômico, sempre descontraído, não se deixa levar a sério, por mais grave que a situação seja, ou deveria ser, há o deboche, não uma gozação infame, mas um contexto onde a morte, pura e simplesmente pareça algo natural e senão natural, algo tragicamente engraçado. Seus personagens, de características fortes e marcantes se escondem através do luxo estético de Anderson, quando o que deveríamos ver por exemplo, em M. Gustave (Ralph Fiennes), não é aquela pessoa elegante e educada, mas sim um aproveitador de senhoras idosas ou na linguagem popular, um verdadeiro “comedor” de velhinhas.



Existe porém, o lado dramático que não se deixa abater na narrativa de Anderson. Não seria crueldade ou uma tentativa de reformular a ideia dos contos, um protesto contra os “happy end’s” de modo algum, sabe-se que Hollywood faz, ou pelo menos anda tentando fazer isso. Tragédia, não é sinônimo de tristeza na linguagem de Anderson, mas sim escada para potencializar sua trama. É imaculado em O Grande Hotel Budapeste (The Grand Budapest Hotel, 2014) o humor de todas as formas, do escrachado ao pastelão, do negro ao bobo enquanto que na realidade, existe um suspense maligno composto por excêntricas figuras, Dmitri (Adrien Brody) o filhinho da mamãe e o psicopata mal encarado Jpoling (Willem Dafoe), em busca do tal quadro do Rapaz com a Maçã. Se Hitchcock dizia que um bom filme depende de um bom vilão, Anderson reafirma através da falta de verossimilhança, do absurdo e do que o público pouco está acostumado a ver.






O herói, um aproveitador, o protagonista/narrador, um empregado, os vilões, a família em busca do que é seu de direito. Quase não é percebido, mas acompanhamos de perto nada mais nada menos do que um autêntico canalha classe A. Mas há também o maior divertimento nisso, a vagabundice, malandragem e a boa lábia, nada mais entretém do que a aventura de um vagabundo ou um aproveitador, Chaplin já reafirmava essa ideia com seu Carlitos e principalmente Henri Verdoux em Monsier Verdoux (idem, 1947), as maiores provas vivas desse divertimento cativante entre essas peculiares personalidades no cinema. Se Paulo César Sareceni fazia em seu O Gerente (idem, 2011) um testamento sobre o extravagante prazer de um homem, Anderson repete através do cômico, não vê motivos para não se divertir com aquela situação de crimes e mistérios, daquele suspense mortal que tanto custa a vida de alguns.

Claro, com o perdão do trocadilho, há o lado bom no espírito desses bons vivants do cinema e literatura. Nunca podem ser derrotados, pois já se encontram, pelo menos previamente fracassados, derrotados, são figuras que nunca a sociedade ira honrar, pelo menos não para sempre e isto lhes garante mais segurança, não zelam por sua reputação, não escondem identidades, não tem uma namoradinha para salvar e proteger. Isso acontece com nosso lobby boy (Tony Revolori) que a essa altura toma a posição de fiel escudeiro do nosso Don Juan.



E em sua Europa fria, congelante, da década de 30, há os dois, como se fossem “gordo e o magro” , envolvidos, claro, na pior enrascada possível. Anderson não faz censuras, seu humor, assim como contesta a internet sobre a zoeira, não tem limites. Suas fábulas não envelhecerão com o tempo, por que não pertencem a nenhum, mas sim a todos. Que cineasta é esse Wes Anderson, fora e a frente de seu tempo.


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