terça-feira, 24 de junho de 2014

Amantes Eternos (2013)

                                                   



Todas as criaturas de Jarmusch parecem pertencer a um mesmo elo. Algumas mitológicas, outras estranhas, outras lendárias. Jarmusch é o cinema do deslocamento, do profano e do sagrado, do maldito e do abençoado.

Os vampiros de Amantes Eternos (Only Lovers Left Alive, 2013), trazem a tona a linguagem de Jarmusch até a estética. São criaturas lendárias, obviamente, mas não clássicas, nem contemporâneas. Os vampiros de Jarmusch, são, necessariamente criaturas deslocadas no tempo. Não fazem parte do estilo clássico, não vivem em mansões mal-assombradas, na verdade, são ligeiramente civilizadas. Contudo, também não fazem parte do estilo moderno, não brilham ao sol, como a maioria dos vampiros que pintaram por Hollywood brilham, são seres exclusivamente da noite. Enquanto, Jarmusch propõe uma fábula em torno desses personagens lendários, os constrói a partir de nenhum tempo. Esses seres, são ao mesmo tempo adaptados a era contemporânea, de como dizem “maldito século XXI”, usam até iPhones, acredite, no estilo mais “cool” possível, tecnologia de última geração, computadores com a marca da maçã, trocam o clássico órgão presente em todo boa casa vampiresca, pela guitarra distorcida, pelo som voraz, mas cultuam da mesma forma a antiguidade, acompanharam todas aquelas maravilhas da modernidade de perto.



foto de Amantes Eternos


Parece que Jarmusch, e sua visão sobre os vampiros, mais se adequa. Para ele, não existe ao certo, um conceito concreto, por isso mistura entre o velho e o novo, o arcaico e o moderno. Não atoa, brinca com sua filosofia niilista, Adam (Tom Hiddleston) aparente ser mais uma figura que Hollywood já filmou, tem cabelinho caído, é amargo, inexpressivo, porém é a perfeita miscigenação entre um profanador e um gótico atual. O casarão desses dois vampiros, Adam e Eve (Tilda Swinton), parece representar toda a linguagem de Jarmusch, suas conversas sobre literatura, ciência e arte, vão de extremos, de Pitágoras a Darwin, seus instrumentos, de uma Gibson 1905 até uma atual, sua parede, cultua desde o cinema de Buster Keaton a figuras como Isaac Newton. Como deve ser bom, afinal, discutir depois de séculos as teorias, de todos esses figurões que marcaram história, não? Da ciência de Einstein até filosofia de Byron. Apesar de tudo, é na música que Jarmusch consegue expressar esse paradoxo, as guitarras distorcidas como lhe é comum, acompanham da era de 50 até o rock n’ roll mais atual.




Mas é o mal da eternidade que Jarmusch faz questão de abordar. É uma era de extinção para os vampiros e nem digo pela má fama que conquistaram em Hollywood, ou muito menos na internet – ninguém escapa dela, afinal. A crise anunciada por Jarmusch também se trata de uma crise “temporal”, os vampiros perderam seu charme, não existe mais temor, são figuras ameaçadas. O sangue aqui, adquiri o efeito semelhante a de um LSD, existe um prazer carnal, que se não chegam a relembrar o clássico de Raul Seixas (vampiro doidão), pelo menos fazem o papel de relembrarem a rebeldia, são jovens eternamente afinal, a lisergia, Adam parece Syd Barrett e Eve, a própria figura de Swinton já é psicodélica, no mais lembra a David Bowie.

Os vampiros de Jarmusch, são decadentes, mas são imortais, resistiram a todos os séculos e Jarmusch, filma em 2 horas, um pouco desse cotidiano fora do normal dessas figuras e sua resistência no tempo. Não é o sobrenatural que salvou os até o presente momento, mas sim, o sentimento mais humano vivo dentro deles, o do amor.


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