quinta-feira, 1 de maio de 2014

Os Pássaros (1963)

                                   

Logo após o ataque dos pássaros na escola, Melanie Daniels(Tippi Hendren) e as crianças encontram abrigo na pequena lanchonete da cidade. Ao informar sobre o ataque dos pássaros por telefone, pessoas começam a perguntar, afirmar coisas que não fazem ideia do que havia acontecido, e desse modo um debate se cria, simples, mas essencial sobre o ser humano e os animais que o cercam. Existe um bêbado que não para de proclamar o fim do mundo, uma senhora intrometida que fala dos pássaros com segurança e custa em acreditar que aquelas criaturas tenham atacado alguém, outra é uma mãe desesperada e angustiada após o ataque dos animais e insiste que todos fiquem quietos para não assustar as crianças que já indagam temendo: “Mamãe, os pássaros querem nos devorar?”.

Esta é apenas uma das sequências que provam que Os Pássaros(The Birds, 1963) não é só um filme onde criaturas atacam os seres humanos e o pânico, eventualmente, se alastra. O que Hitchcock propõe a todo momento, além de cada detalhe ou interpretação, é o estudo do ser humano e o seu convívio primitivo com outras espécies. Não atoa, Hitchcock analisa desde o principio a nossa relação com o mesmo, quando em um pet shop, existe um diálogo de dois desconhecidos. O ser humano, ali, livre escolhe o animalzinho que deseja, a cor que acha necessário, a ocasião e para quem dar. Já nesse instante, Hitchcock parece afirmar, através da sua genial simplicidade e despretensão que se trata de um filme existencialista e do convívio com outras espécies, a incapacidade do ser humano viver com simplicidade.

A partir daí, apresentada a grande equação problema a ser resolvida, Hitchcock insere a fragilidade dentro de cada uma das pessoas no silêncio. Afinal, não se trata de um filme puramente amaldiçoado, de uma cidadezinha que atraiu uma besta ou uma mulher que trouxe consigo uma maldição. Por isso, Os Pássaros(The Birds, 1963) trabalha boa parte de seu tempo com diálogos, existe uma importância maior em analisar como eles irão enfrentar esse problema e não como é o problema. De fato, a figura dos pássaros como a besta, o mal do filme, é totalmente necessária a Hitchcock, pois assim, ele consegue criar seus clímaxes, que perseguem a vítima e não mostram alguma escapatória, até porque trata-se de um mal que esta no ar, é inevitável.


O pânico geral de todos, o grande objeto de analise que torna este um Hitchcock singular, é tratada com pura crueldade e frieza. Hitchcock faz aqui, dezenas de longas sequências de puro pânico da ameaça que os pássaros representam, ameaça essa que se torna alienante. Trabalha sobretudo, no misticismo de uns, no ceticismo de outros, mas ao fim, os torna farinha do mesmo saco, equivalentes quando o assunto é algo que ameaça suas vidas. É dessa especulação, que forma todo o filme em um monumento sobre o homem e sua dificuldade em lidar com si mesmo, com os outros, com o mundo e seus problemas, um monumento sobre o convívio. Todos se unem, as barreiras que antes os separavam, agora os juntam e fazem com que reflitam e encarem a situação, pelo menos por agora.



*Postado originalmente em cerebroinfernal.blogspot.com

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