quinta-feira, 1 de maio de 2014

Lisa e o Diabo (1973)

                                                       

Sonho, pesadelo, fantasia. Lisa(Elke Sommer), turista que acaba se perdendo no passeio, cujo rumo nunca mais encontrará, é a mulher que nos guia e nos representa. Lisa e o Diabo (Lisa e Il Diavolo, 1973), trata-se sobretudo de um pesadelo eterno, mental, sem fim, místico que ao engolir a protagonista nunca mais a liberta. Um terror existencial.

A narrativa de Mario Bava, é não menos que singular. Logo de início enfrentamos o labirinto que ele viria a propor durante todo o resto do filme, encaramos uma grande equação, trata-se de um filme surreal, onde não basta encontrar saídas físicas, concretas para que se possa escapar do pesadelo, é preciso quebrar toda a energia que se instala na mente e cuja percepção e interferência humana são impossíveis. Lisa e o Diabo (Lisa e Il Diavolo, 1973) é como uma fábula, uma história mitológica, um conto de fadas, uma história como Alice no País das Maravilhas ou a Bela Adormecida, é charmoso, elegante e transcendental, onde Bava expõe belíssimas cores por todo o redor daquela mansão que acabamos de encontrar junto com Lisa. Está instaurado então o cenário, de cores exuberantes, personagens típicos de um conto de terror e acontecimentos estranhos, mas que ocorrem de forma natural.

O surrealismo aqui, é o que provoca o incômodo. Desde a entrada naquela mansão, Bava usa de seus personagens como cobaias de seu experimento que permite a ele desfigurar a sanidade mental de todos. Afinal, como fez Buñuel em O Anjo Exterminador (El Angel Exterminador, 1962), existe uma força sobrenatural que impede a fuga de qualquer indivíduo ali, simplesmente algo que detém, que mantem todos ali passivos ou ativos. E a naturalidade como tudo flui na mão de Bava é impressionante, aquela mansão agora faz parte do interno de cada um, é inevitável, e é essa força metafísica que faz a luta dos personagens ser impossível e segura pelo resto do filme todo, o grande enigma a ser descoberto.




A câmera, inquieta, persegue cada um. Apesar de Lisa ser uma intrusa é também parte essencial e complementar de tudo aquilo, é ela quem voltou a dar vida ao pesadelo – função que o espectador também desempenha -, por isso a atenção narrativa de Bava sobre a mesma, torna-se única, como desencadeadora dos acontecimentos, como uma necromante. Praticamente penetrando na alma de suas personagens, Bava abusa de todas as técnicas que dispõe, com ironia, desde closes até reflexos que jogam a culpa para cima do espectador, formando labirintos com suas longas sequências. Tudo o que envolve aquela mansão, que já fazemos parte, recebe grande importância para Bava, desde atuações (Telly Savalas esbanja sarcasmo) até pequenos pensamentos(os devaneios de Lisa, tornam-se ao mesmo tempo que belos espetáculos visuais e momentos de fuga daquele inferno, que por vezes se mostra romântico, como também apenas mais uma representação da perdição em que se encontra) e sequências de morte. Seu domínio da narrativa elegante e ao mesmo tempo brutal, revela-se a cada momento maior. O pesadelo filmado aqui faz parte do subconsciente imaginário.

Fazemos parte fundamental de tudo o que resguarda dentro daquele casarão. Assim como o mordomo, observamos a sutileza de todas as mortes e desastres que ocorrem naquela mansão, porém também assim como Lisa, estamos perdidos no inferno, que não se pode fugir. Em Lisa e o Diabo (Lisa e Il Diavolo, 1973) somos vítimas e assassinos do próprio destino.

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