terça-feira, 29 de abril de 2014

Dead Man (1995)


Numa longa estação em meio ao faroeste, um trem passa. Dentro deles, homens e mulheres sentados ociosos esperando a chegada. Mais a frente, um maquinista comanda a velha maria-fumaça que percorre o oeste. Dentro, porém, desses vagões, um homem curioso de chapéu e óculos observa todos ao redor, que logo mais também o observam. Ele tenta, sem sucesso, se distrair, pega uma revista e lê um artigo. Novamente, agora mais decidido tenta jogar cartas. Olha a paisagem afora, o grande deserto, mais a frente vê algumas aldeias indígenas. Tenta dormir. Conversa com um estranho e sai do trem.

Dead Man (idem, 1995) resgata primeiramente, o suspiro de um cinema que já não mais existe, um cinema da observação, contemplação da rotina. Acompanhamos apenas um homem em meio ao velho oeste em busca de um emprego, enquanto John Ford observava o espírito vingativo de Ethan (Rastros de Ódio (The Seachers, 1956)) e Clint Eastwood observava a redenção dos pecados de William Munny (Os Imperdóaveis (Unforgiven, 1992)), estamos aqui acompanhando a simples jornada de um indivíduo em busca de emprego, mas que ninguém se engane, esse homem, William Blake(Johnny Depp) não é alguém comum que se vê todos os dias, é um esquisitão deslocado, de aparência peculiar, desajeitado.

Jarmusch logo de início, coloca em meio a sua narrativa, um homem que simplesmente as pessoas ignoram, um azarado. Embora Dead Man seja um filme sobre um cinema que não ira mais voltar, usa e abusa dos recursos modernos, afinal é um filme moderno – um filme de Jim Jarmusch -, temos então, junto com o conservador preto e branco e a hipnótica montagem, onde sai uma cena calmamente para dar espaço a outra, uma guitarra que informa uma ação, em perfeita e magnífica sintonia.

Mas afinal, o que quis Jarmusch com esse homem?  Dead Man é o filme, como diz o título, sobre um homem morto, um homem ignorado pela sociedade e que agora está encrencado, o pobre coitado, que mal sabe quem é, agora tem a confirmação de que esta morto ou melhor procurado pelos 3 assassinos mais sanguinários e psicopatas do oeste, daqueles dos filmes de Leone, e que com certeza não são bons e nem, simplesmente, feios, mas sim maus. A narrativa de Jarmusch flui até aí, como um doce espírito de aventura, que esbarra em uma condução literária intrigante, de um western inexistente, um western morto, que resgata um gênero que já passou e já representou os tempos maravilhosos que a indústria conseguia arrecadar tanto dinheiro e hoje é visto maneira ultrapassada.



Sendo assim Dead Man é um filme metafísico, não pode existir e está além da compreensão, mas simplesmente está ali, não há como ignorar, é como um aviso de que apesar de “morto”, esquecido, o western é imortal graças às telas do cinema. Fantasmagórico, Jarmusch une sua poesia e toda sua carga criativa sob a estética de seu filme, esta que influi no indígena, na garota inocente, nos vilões e enfim da lenda no western, lenda essa que está para ser criada, estamos descobrindo a magia que ronda este gênero através do cinema moderno. Sobretudo, o filme de Jarmusch quer representar a criação e a morte de uma lenda a partir do homem convencional, afinal, toda atmosfera esta ali, mas da onde vem aquelas criaturas de chapéus e mãos prontas para puxar o gatilho, que eternizaram os filmes de Leone, Ford e Eastwood somente no leve e minucioso andar de seus sapatos e o suave som de suas esporas batendo no árido solo desértico? Não seria necessário apenas a busca pela sobrevivência para formar um verdadeiro cowboy a sangue frio? O western, é agora esse homem que todos estranham e não mais dão valor, antiquado e ignorado. É isso que Jarmusch tenta desvendar por meio de suas florestas, da brutalidade que irrompe o silêncio e som das guitarras – o som da modernidade – que louvam a antiga lenda.



domingo, 20 de abril de 2014

Fuga do Passado (1947)

                                                    

Amor, traição, violência e passado. Fuga do Passado (Out of The Past, 1947) é um filme sobre mais do que um tempo que volta a inferir sob o presente, mas também de sua força sobre o mesmo, de sua oportuna sobrevinda ao tempo atual para firmar, condenar o destino de suas personagens.

Como em um terror, Tourneur implementa aos poucos uma narrativa frenética sobre o filme, onde seu noir adquire uma estética alucinante de acontecimentos, atropelados sob os outros, de reviravoltas. Iniciando-se na pequena rua onde tudo começa e tudo termina, todo o cenário está em sintonia com os sentimentos que devem transmitir. Mais do que um mundo cínico, Tourneur da uma importância ao olhar de suas personagens, onde todos parecem suspeitos e integram aquele lugar sombrio que acabamos de conhecer e já sabemos que não somos bem-vindos. Desse modo, a narrativa contada primeiramente por Jeff (Robert Mitchum) adquire um tom sombrio, para transformar praticamente todas as cenas do filme em um portentoso clímax, onde Tourneur mais uma vez deixa o espectador de maneira subjetiva, intrusa de todas as ações.


                                       


A medida da evolução do próprio enredo, Fuga do Passado (Out of The Past, 1947) se mostra um noir mais do que singular, um autêntico Tourneur. Elegantemente brutal, de conceitos semelhantes a Sangue de Pantera (Cat People, 1942), vai aos poucos se tornando em um filme melancólico e pessimista da própria situação e destino de todas as personagens, parecido com o que Alfred Hitchcock realizou em A Sombra de uma Dúvida (A Shadow of Doubt, 1943), onde a felicidade para se não poder existir. Jeff, o apaixonado, fracassado, se encanta pelo mesmo charme que a besta tanto encantou os personagens de Jacques Tourneur em seus outros filmes, por isso o grande mal do filme não é o seu passado que aparenta o condenar, ele vem apenas como uma prova para alegar seu destino – parecido com o que Cronenberg realizou em Marcas da Violência (A History of Violence, 2005) -, mas sim o seu encanto pela femme-fatale, pela fera, que jamais pode ser correspondido.

As lentes de Tourneur parecem estar preparadas para todo os momentos se aproveitar de cenas para criar seu suspense. Porém diferentemente de qualquer filme seu, apesar da presença do olhar ter sido sempre significativa para a construção de seus personagens, aqui ela aparece, propicia com que haja uma aproximação do espectador com as características psicológicas de cada um. Pois é impossível não reparar, na melancolia e falta de rumo no rosto de Robert Mitchum, a cretinice em Whit (Kirk Douglas) e a manipulação de Kathie (Jane Greer). Além de um retrato fiel ao homem no mundo noir, não existe no cinema tal aproximação desse estilo com a frenética maneira com que tudo é manejado aqui. De longas sequências, dessa vez Tourneur utiliza a trilha-sonora ao seu lado para criar sua atmosfera e da um destino final para seus personagens em forma de redenção, onde todos pagam de certo modo pelos seus maiores crimes, o crime de terem se apaixonados uns pelos outros.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Clube de Compras Dallas (2013)

                                                  


Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013) é um filme sobre principalmente a sociedade de uma época com enfoque de quem a enfrentou. Antes de mais nada, trata-se também de um filme sobre redenção de valores, em um Estados Unidos onde se cultiva desde as grandes cidades até o interiorzão, o machismo, homofobia e os grandes males que atualmente voltam ou melhor finalmente são discutidos, com alguma liberdade.

É claro que Dallas Buyers Club é um filme acadêmico desde o princípio, até por que, ao contrário da especulação da grande maioria sobre a encarnação dos atores em seus personagens (Matthew e Jared em Ron e Rayon), que realmente é o grande destaque do filme, a proposta de Jean Marc-Valeé é muito mais discutir um determinado tempo e uma sociedade do que a vida, especificamente, de suas personagens. Por isso, existe aí, mais uma escada utilizada por meio destes para se criar uma crítica e atualizar um assunto que se repete e que agora está sendo levado em conta.


A princípio, existe o certo aprofundamento em Ron, nosso guia, protagonista que move o filme. Estamos encabeçados numa estreita e difícil situação, um homem machista e tosco tem agora aquele tal negócio de HIV, “coisa de viado”. Valeé, se utiliza no primeiro ato do filme para então encaixar muito mais a vida da própria personagem e a equação que agora ela deverá enfrentar, porém, a partir daí somente encontramos a mesma narrativa lá pelo final onde voltamos ao mesmo ponto de chegada. Interessante observar que enquanto Valeé se usa dessa narrativa, para a construção de sua personagem, temos aí um interessante andamento, onde o espectador esta ali e acompanha a infeliz situação de Ron, estética semelhante a de Aronosfky, não a de Réquiem para um Sonho (Requiem for a Dream, 2000) mas sim a de O Lutador (The Fighter, 2008), de um maduro envolvimento, sem se tornar apelativo ou pretensioso, buscando esse encontro com a personagem e seu problema de forma a haver um acerto de contas com o que lhe fez bem e agora trouxe as consequências ruins. É nessa fase que sabemos quem é aquele texano homofóbico que estamos acompanhando, seus valores – ou a falta deles - que agora estavam sendo postos contra si na parede, teria que enfrentar seus próprios erros e pecados.

 


Quando da chegada de Rayon, a outra estrela do filme, temos aí então a quebra dessa narrativa, desse enfoque, praticamente passamos para um outro objetivo, o mercado de drogas. O didatismo inserido por Valeé logo no início da película sobre o medicamento, que havia se mostrado leve e apenas informativo, vem agora para inserir a representação de uma sociedade (da década de 80) diante do problema da AIDS, que definitivamente não pode voltar. A partir daí, não acompanhamos mais Ron, o cara que acabou entrando nessa grande equação, praticamente por acaso, mas sim de Rayon, ou mais especificamente de quem sofreu para conseguir os tais medicamentos. O discurso que era subjetivo, que colocava uma problemática para um único personagem, adquire então o formato quase documental e objetivo de toda situação. Deslocado, o espectador assim como Ron, agora é apenas mais um naquela multidão de gente que com todas as suas forças buscava algum jeito de continuar vivo. Aquele pequeno conteúdo informativo no início se torna em um cansativo discurso sobre drogas, que embora equilibrado e bem amarrado, não deixa de ser clichê e excessivamente tedioso, um discurso geral que se confunde, atropela o outro que havia construído até então, que só insere o que já sabemos, o que temos ideia de forma previsível e banal.

 

Os cortes bruscos, rápidos que se mostravam em uma empolgante narrativa frenética do vício que agora se agravaria ou tencionavam a mostrar uma outra linha de raciocínio, de fato, acontecem. Porém, é neles que esta o grande mal, que torna Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club, 2013) extremamente acadêmico, que praticamente se garante apenas pelas atuações – ou melhor, entregas de Jared Leto e Matthew McConaughey – por que afinal se esconde, de maneira bem digna até, mas não eficaz, que de fato é acima de tudo um filme acadêmico sobre a AIDS nos anos 80.