quarta-feira, 5 de março de 2014

Do Jeito Que Ela É (2003)



Filme independente americano, primeiro trabalho atrás das câmeras de seu diretor e a coragem de realizar um filme simples e ao mesmo tempo indigesto, apesar de trazer em seu bojo um conteúdo que passeia pela gastronomia.

Durante aproximadamente uma hora e meia iremos seguir duas narrativas distintas que se entrelaçarão de maneira definitiva ao término da película. Em uma seguiremos as agruras de April (que não possui dons culinários) buscando preparar a ceia de Ação de Graças para os parentes que não vê faz tempo. Inteligentemente o roteiro não interioriza a ação dentro da própria cozinha do apartamento onde ela vive, mas mostra os arredores e, sobretudo a vizinhança que habita no próprio prédio. Ai se nota que a miscigenação que sempre foi um tema delicado (com a divisão em guetos nos grandes centros americanos) já não mais existe como antes. No mesmo prédio afrodescentes, asiáticos e outros nichos vivem e carecem como April de se tornarem aceitos e ao mesmo tempo aceitar o outro. E ficamos sabendo que April seria como a filha indigesta de quem os familiares nada esperam de positivo. Na busca, sobretudo de um forno em pleno estado de funcionamento para assar o peru, os eventos que se sucedem mergulham na fusão racial que irá mostrar como o choque entre as várias culturas permite o surgimento de novas possibilidades em todas as áreas. A contribuição de todos na construção da nação americana, ao invés de um discurso de pureza racial. O namorado afrodescendente que saiu do apartamento após ajuda-la um pouco, busca trajes que o façam cair no agrado da família que se aproxima e nesse ínterim se depara com o ex de April inconformado com o término do relacionamento.



A outra narrativa se alicerça em um road movie reticente. Os familiares (exceto o pai) parecem estar rumo a um patíbulo. Todos já fazem as mais negras previsões sobre o fim da viagem. É, de April só pode-se esperar o pior. Não sabemos se ela foi expulsa, ou se abandonou o lar. Não sabemos também se ela é o que dizem, ou se só servia de desculpa para o fracasso de todos: A avó com Alzheimer, o filho fotográfo amador, a filha centrada só em si, a mãe em estado terminal e que demonstra uma mágoa que pode ser o que ocasionou o estado que se encontra (não sabemos de que mal sofre). Somente o pai guarda alguma esperança, de ao menos uma vez ver todos reunidos como deveria ser. Um sonho pequeno demais, mas com um significado profundo. Que com o passar do tempo nos soa inatingível, já que no caminho todos desfiam os prognósticos mais pessimistas, inclusive querendo se alimentar no caminho para não ter de sofrer a tortura do repasto que acreditam intragável.

Patricia Clarkson arrebatou indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro como a mãe. Mas ninguém no elenco destoa. Todos os personagens são críveis e não soam caricatos. Méritos para a direção e um roteiro eficaz.


Não pensem que o filme opta por um final cômodo. O percalço até o desfecho (em aberto, não se engane pelas imagens) nos mostra que o que o diretor quis mostrar são as suas dificuldades. Não somente de se aproximar novamente mãe e filha. É mais abrangente. Ele deseja o jungir de todos, respeitando as suas peculiaridades, e se enxergando como pertencentes a uma única família. A família esfacelada é a própria América que necessita de uma vez por todas resolver suas diferenças. Não é uma tarefa fácil, mas o simples fato de escancará-la nas telas é um avanço. Não se combate uma doença, negando-a...

Escrito por Conde Fouá Anderaos

4 comentários:

Guilherme Z. disse...

Já havia lido críticas boas sobre esse filme na época de seu lançamento, mas a péssima capa do DVD nacional é de tirar a vontade de qualquer um de assistir.

Guilherme Z. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Guilherme Z. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marlboro Guy disse...

Ótima resenha. Achei que só eu tinha achado horrível a capa do DVD brasileiro. Um bom filme sem dúvidas, porém nada extraordinário na minha opinião.
Ja vou aproveitar e indicar o blog que comecei recentemente com a intenção de comentar cinema e música...
http://daprimeiraasetimaarte.blogspot.com.br/