quarta-feira, 5 de março de 2014

Chico Xavier (2010)




Assisti ao filme dirigido por Daniel Filho e apesar do receio que carregava, surpreendi-me: é um cinema voltado para as massas e dentro dessa proposta a sua qualidade é enorme.

Um dos primeiros questionamentos que levei ao cinema é de como um ateu convicto poderia retratar um personagem que fez de sua existência uma caminhada díspar daquele? Diz ele que dirigiu mais para homenagear um antigo companheiro já desencarnado (usemos aqui da terminologia própria à obra) que lhe foi muito próximo profissionalmente: Augusto César Vannucci. Ora, nunca morri de amores por Daniel Filho, e nunca assisti a nenhum filme dirigido por ele que me entusiasmasse de verdade. Tampouco acho que essa obrigação para com um antigo colega de profissão seria motivo bastante forte para que todas as objeções fossem derrubadas. Isso ele resolveu de maneira artística, colocando-se na história como o personagem Orlando (um ateu como ele). Também o fez ao ressaltar e retratar o lado bem humorado do personagem em detrimento do lado, digamos, missionário de Chico (somos avisados das obras criadas e mantidas por seu trabalho somente nos créditos finais).
Excetuando-se a cena do avião (seria mais curial em um programa como “Zorra Total”) o filme beira o sublime. Os atores conseguiram dar conta do recado e criaram interpretações maravilhosas. Giovanna Antonelli cria uma madrasta que consegue só com o olhar, os silêncios e os gestos, cativar não somente o Chico Xavier menino, mas também os que assistem a obra. Pedro Paulo Rangel demonstra a competência de sempre e cria um sacerdote fiel aos seus deveres, mas que se engrandece devido a tolerância e respeito para com os irmãos de outros credos. Luís Melo que sempre se valeu de sua formação teatral, dessa vez não comete de excessos e cria um pai bondoso e aturdido com o comportamento do filho. Mas cabe a Tony Ramos e Cristiane Torloni o ponto alto das interpretações destinadas aos coadjuvantes: Soam verdadeiros e a cena do tribunal que “praticamente” encerra a história cala fundo. Quantas vezes procuramos culpados para jogar sobre os ombros desses as mazelas que nos acontecem.
E não percebemos que muito disso faz parte do próprio jogo da existência.

Aqueles que interpretaram Chico Xavier impressionam, mas Ângelo Antonio se destacou: criou um Chico crível, dos quais restam apenas algumas fotografias esparsas e as lembranças dos que o conheceram quando jovem. 

O aviso dado no início do filme serve para esse e para qualquer biografia: A vida de um homem não cabe em um filme. O filme é construído sobre excertos, aquilo que de mais vivo permaneceu. E mesmo assim sabemos que o homem retratado poderia gerar ao menos 8 horas de um bom cinema. Mas isso não seria comercialmente viável.
A direção de arte merece elogios, conseguiu a recriação da pequena cidade de Pedro Leopoldo, com suas casas coladas a rua, fábrica de tecelagem, mostrando-nos com perfeição uma época em que os automóveis eram artigos de exceção e as ferrovias exerciam um importante papel de ligação entre os municípios. 

A simplicidade de uma existência no seio do Brasil e o fato do retratado ter permanecido fora dos grandes centros, já demonstra a seriedade com que ele via o que deveria fazer de sua existência. 

Como ressalva fica a sonoplastia que falha muito. A dublagem carece de sincronia em vários momentos. 

Chico Xavier ficará marcado na historiografia do cinema, como um dos primeiros filmes (houve “O Homem da Capa Preta” e “Villa Lobos – Uma vida de paixão”; mas apesar de aceitáveis, não atingiram o patamar dessa obra) a retratar de maneira feliz um personagem histórico brasileiro, algo que os americanos fizeram as dezenas e nós aplaudimos muitas vezes a sua competência. Que venham outros retratados: Vargas, Dumont, Monteiro Lobato, Catulo da Paixão Cearense, etc. Só servirá para que deitemos novamente nossos olhos sobre a nossa terra. Esperemos somente que o que vier ao menos se iguale a esse filme. 

Parabéns a equipe pela imparcialidade demonstrada na feitura do filme. E aquele que ainda não o assistiu minha recomendação: Assista, talvez não fique tão entusiasmado como eu, mas não irá se decepcionar. É isso.


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