sexta-feira, 21 de março de 2014

O Homem que quis matar Hitler (1941)



Eis aqui um filme onde existe um texto e discurso aparentemente simples, que podemos definir rapidamente: A Democracia é o bem e o Nazismo o mal. Definição está que não satisfaz ao gênio. Lang deixara a Alemanha já que não quis se sujeitar ao Establishment imposto pelo III Reich. Não aceitara ser tutelado por Goebbels e contribuir com a sua parcela a Educação do Povo através de uma propaganda maciça.


Lang aceita então participar em solo americano de obras que tinham por objetivo uma propaganda antinazista. Isso não quer dizer que ao se criticar o outro, não se critique também a si próprio. Para Lang o desvendar da psique humana através dos novos conhecimentos advindos da Psicanálise é o móvel de sua obra. E ele faz um filme que a cada visita renderá de novas observações. É certo que a época de seu lançamento a demonização da imagem de Hitler já ganhara a mídia. E o diretor logo no inicio do filme brinda o espectador com um sonho que habitava o coração de muitos. Um britânico caçador de férias na Baviera, estando numa floresta, capta no visor de seu rifle Hitler ao invés do animal que perseguia. Ele aperta o gatilho e nos damos conta que nada ocorre, Estava desmuniciado. Em seguida ele o municia (não sabemos se era seu desejo atirar) e um agente da Gestapo entra em luta corporal com ele e o prende. A partir daí o roteiro nos apresenta de surpresas e reviravoltas que jamais poderíamos supor. A complexidade ganha à tela, devido a direção de Lang, onde o inquirir sempre permeia a ação. Quero dizer com isso ainda que o objetivo que norteou a feitura do filme tenha sido o de ser uma propaganda contra o Nazismo (realizada quando o EUA ainda não adentrara no conflito),  temos de notar que Lang jamais abandona a noção de que certos valores (ou vícios) são inerentes ao ser humano em geral, e que a Guerra não cria heróis.  Desde o inicio o personagem que deveria ser o herói se mostra ambíguo; é muito mais rico do que supunhamos.


O filme desde o primeiro plano vagueia sobre questões morais que carecem de resposta. A Câmera penetra entre as árvores, trepadeiras, samambaias e os arbustos de uma floresta escura onde um caçador se coloca na trilha de sua presa. Alan Thorndike caça em pleno coração da Alemanha. Supostamente ele a encurralou, então se alonga no solo, adota tranquilamente uma posição de tiro, ajusta o objetivo com a roda para esse fim, coloca o alvo em sua mira, foca e aperta o gatilho prazerosamente. Então busca a munição dentro da mochila e se prepara de novo. Só que desta vez é bruscamente interrompido. A suposta caça é Adolf Hitler mergulhado sob o parapeito de uma varanda. Ainda que a caça seja um sacripanta, o caçador não se aproxima da visão de um herói. Nem o verniz da educação britânica, nem o contexto de uma eminente guerra consegue desviar o nosso pensamento de que estamos diante de alguém frio e perfeccionista. Ainda que ele não se perceba como tal. O propósito de uma caçada é seguir uma caça, cercá-la e abatê-la. O Caçador esconde sua personalidade atrás de uma fachada de civilização. A explicação dada ao oficial nazista (esportiva) é uma fachada que esconde um real propósito. O homem que persegue a caça e a cerca, pouco difere daquele que tem um prisioneiro diante de si e o tortura. A ambiguidade do filme ai nasce e subsistirá até o seu término. Thorndike transformar-se-á na caça, a fim de que se reconheça em sua complexidade. Thorndike e Quive-Smith em realidade mais se assemelham que se desconhecem. É pequena a linha que separa o oficial torturador e o aristocrata britânico. A diferença é que o oficial tem um conhecimento mais pleno de si, algo que o britânico desconhece. Despertar a consciência desse homem de maneira a mais sutil possível é o real objetivo que norteia a direção de Lang. E graças a isso o filme hoje não nos soa datado ou absurdo. Mesmo torturado sob a supervisão de um oficial mais semelhante a um inglês (propositadamente interpretado como um diplomata por Sanders) ele continua a negar a si e aos nazistas que desejasse matar o furher. Ele quer crer que o que fazia era um esporte onde a beleza consistia em apenas não desferir o golpe fatal.Miraculosamente escapa da situação e chega a Londres. Lá, a terra natal não vira o refúgio esperado. Os Nazistas pululam por toda a parte e já penetraram com o seu pensar dentro da própria sociedade inglesa. Não estaria se valendo disso Lang para demonstrar que não existe escapatória para a consciência?


É cruel a forma como Lang se vale da aparição de uma jovem prostituta para realçar mais ainda o aspecto ambíguo de um homem que se nega a si próprio. Encurralado na residência dela ele continua a se arvorar atrás da postura de um cavalheiro distante e inalcançável Ainda que passamos a perceber que ela não está somente atrás de mais um cliente. Ao se postar sempre como alguém superior a todos, ele não se dá conta dos perigos em que colocou os que os cercam. O destino da pobre cortesã é traçado mais por sua atitude de distanciamento, do que pela sanha de seus caçadores. Também podemos acreditar que Lang satiriza a reprimida sociedade britânica de antanho. É uma visão justa. Mas se tal fosse, por que a queda no abismo passa a nascer a partir do exato momento onde o policial interrompe o beijo. E o final onde Thorndike é cercado como as antigas presas e lhe é revelado o destino da jovem, não se limita a um embate entre o nazista e o britânico. É também um embate entre o distanciado inglês e o real predador que se mostra em toda sua potencialidade. Naquela gruta o civilizado se vale de todo o legado da barbárie para sobreviver e suplantar a dor que dilacera intimamente. Quando do salto de paraquedas as imagens que lhe assaltam a consciência é daquela jovem fêmea a que ele negou atenção e também se negou conhecer a fundo. Não se trata simplesmente de arrependimento. Lang de maneira maldosa talvez nos ofereça a visão de que a Guerra não forma heróis. Ela apenas desperta a besta adormecida que o homem guarda dentro de si. Assumir o seu lado predador, não importa quem seja Hitler, ou se existe um Hitler.



Outra coisa que cala fundo é a forma como Lang filma; o tratamento que ele dá a violência. Não se trata somente dos limites da época e do Código de Censura. Trata-se do talento que possuía para tornar essas cenas incrivelmente bem planejadas. Algo que deveria servir de lição para os cineastas de hoje que a banalizaram tanto, que acabaram por enfraquecer a força de sua dramaticidade. Extremamente feliz é a cena do interrogatório onde é elaborado um jogo complexo sobre as sombras, em que o som reforça o horror que ocorre fora do campo. Dois sulcos de água deixados pelos pés marcam o chão enquanto ele é arrastado diante do oficial nazista após sair da sala. Este simples recurso torna o não visto, algo extremamente insuportável. Então a câmera se desloca e se fixa no rosto do Major Quive-Smith, o verdadeiro executor de tal barbárie. A cena onde o Assassino nazista tomba eletrocutado sobre os trilhos após uma luta é mostrada de forma curta e grossa. A sua execução, o seu desfecho, o resto ocorreu nas sombras, mas ao mostrar só o resultado, temos a dimensão da curta batalha. 



Sobre o elenco e as interpretações nada a reparar. Serviram com maestria ao trabalho do mestre. George Sanders compõe um personagem diabolicamente sedutor. A Joan Bennet coube um papel complexo, devido a necessidade de ter de driblar a Censura da época. E o fato de seu personagem sucumbir inocente no altar do sacrifício é pouco comentado. Um tiro de fuzil no coração da hipocrisia da falsa moralidade de sempre. Carradine compõe um taciturno assassino com um ar espectral que enche a tela a cada aparição. Pidgeon talvez tenha aqui o melhor papel de sua carreira. Consegue passar toda a gama de ambiguidade desse personagem difícil. A fotografia de Arthur C. Miller com uma Londres envolta em névoa perene, cheio de lugares com visões distintas (o túnel de metrô mais parecendo uma ratoeira) e de seres que se escondiam na escuridão (a sociedade corrompida por simpatizantes do Nazismo?).

Outro lance de maestria do roteiro. Mesmo em Londres, o britânico seria entregue de bandeja para ser julgado pelos nazistas. Crítica a maleável e inepta diplomacia britânica da época. E ela é propositadamente realçada por uma dúvida. Tivesse assinado a confissão, teria a Inglaterra aceitado a invasão da Polônia sem pestanejar. Só para se dizer inocente perante a atitude de seu cidadão.

O filme é rico de detalhes e sutilezas em todos os aspectos. A forma como Lang trabalhou o roteiro faz com que não tenha envelhecido nada.

Vale a pena conhecer.

Escrito por Conde Fouá Anderaos 

Do Mundo Nada Se Leva (1938)




Existiu um tempo em que filmes como “Do mundo nada se leva” podiam ser conhecidos do grande público através de sessões vesperais na rede aberta da tv. Antes que me critiquem por dizer que a pequena tela pode substituir a grande, quero já dizer que acho a tela grande insubstituível. Mas é necessário se lembrar que em uma entrevista no início da década de 80;  Capra dizia que a televisão tornara o cinema desnecessário. Creio que o que ele quis dizer é que seus filmes não sofriam tanto com a passagem para a tela pequena, ao contrário de obras de outros diretores. 

Bem falar de qualquer filme de Capra é tarefa das mais agradáveis. A primeira vez que assisti a esse filme foi em 1982 quando a Globo ainda possibilitava o conhecer essas obras antigas (ainda que na madrugada). Posteriormente assisti na tela grande, quando houve um festival dos filmes da Columbia que ganharam o oscar. 



Quando via a obra de Capra, dava-me uma sensação de que o mundo antigamente era melhor. Como se a idade do ouro da civilização tivesse existido. Acreditar que o passado foi melhor é algo característico do ser humano. Eu sabia que aquilo que assistia na tela fazia parte do imaginário de seu criador, mas era agradável imaginar que isso ultrapassava essas fronteiras. No que tange a obra de Capra creio que apesar de ser um diretor de estúdio, o que ele levou as telas nas maiorias das vezes, era algo em que acreditava. Época em que se pensava ser possível reformar o mundo através da arte. Não é de se estranhar que após a 2ª Guerra ele tenha realizado apenas uma grande obra (A felicidade não se compra). É como se ele deixasse de acreditar na bondade inata do seu herói, o homem simples americano. Afinal pode ele ver de perto, que em situações extremas esse homem também retornava a barbárie. E salta aos olhos que o vilão que se tornava em suas películas simpático com o desenrolar da trama (Anthony P. Kirby em “Do mundo nada se leva”) fosse tratado como um doente incurável posteriormente (o Sr. Potter de “A felicidade não se compra”). Note-se que para Capra quem é mal é “doente”. Nada mais cristã que essa idéia.

S

Em “Do mundo nada se leva” somos convidados a conhecer a família Vanderhof e o seu cotidiano. Não só nós, como também os Kirby, ainda que Anthony  (e sua esposa) , tenham uma opinião  dispare da do seu filho sobre os Vanderhof.



Esse filme talvez seja o que contenha em seu bojo todos os elementos tão caros a obra Capresca: O poder do dinheiro (criticado de forma amena nessa obra – notem que Tony boceja quando seu pai fala de sua grande jogada financeira); uma vida natural e simples em oposição aquela superior e sofisticada( materialmente falando); a família numerosa e unida (a placa de Lar, doce lar toda vez vai ao chão com a explosão das bombas no porão); o patriotismo (o diálogo sobre os “ismos” com o agente da Receita); os amores puros e a beleza feminina que exerce seu poder sobre o homem não corrompido; o espírito de quem descobriu a “fonte da juventude” e a carrega dentro de si, mesmo idoso (Vanderhof mesmo com a perna quebrada, transmite a energia de um menino a quem assiste o filme); a possibilidade de recomeço, não importa qual sua idade ( Poppins um homem já maduro, deixa sua rotina sem significado e mergulha na filosofia de vida dos Vanderhof, isso posto no início da película, já nos coloca a par do que a obra trará); a fé na assistência de Deus (Martin sempre agradece a Deus pela saúde que possui, quanto ao resto, fica pela “vontade divina”); a profissão de fé na solidariedade (a seqüência da mobilização dos “ vizinhos”  para pagarem a fiança da família, quando a mesma é presa por obra de Anthony P. Kirby – ainda que ele desconhecesse) e a necessidade de amar  e compreender seu próximo ainda que ele pense diferente de você (Vanderhof se desculpa por ter se exasperado e doa sua gaita a Kirby). 


Ainda que em relação as outras obras de Capra ela pareça denunciar suas origens teatrais, devemos notar todo o talento de Capra para mascara-la : O encontro de Poppins e Vanderhof é filmado de cinco ângulos diferentes; na cena da prisão quando Martin repreende Kirby,  Capra transgride os 180° em voga na época; durante todo o filme ele permite de planos longos, deixando assim os atores soltos para dispor de seus talentos naturais. Existe uma cena que é demonstrado  todo o talento de Capra. Para ele os atores não precisavam mostrar seu rosto permanentemente. Quando Warner lança na cara de Kirby todo o seu desprezo pelo golpe que o arruinou, o ator é visto praticamente pelas costas. Toda a força dramática esta no gestual desse e na reação facial do estático Anthony P. Kirby.  Quando em seguida ele recebe o telefonema e sobe o elevador, nós todos ainda estamos como que presos no que foi dito por Warner, o que torna crível a decisão de Kirby (Capra já se utilizara de tal expediente em “Aconteceu naquela noite”, quando ousa uma tomada com Gable sentado de costas falando ao telefone, ainda que o efeito ali fosse cômico).



Convém também comentar aqui o cenário. Capra teve aqui a felicidade de criar de maneira magistral o ambiente em que circulam os Vanderhof. Esse parece se expandir diante do lúdico que ali vive. Música, pássaro, fogos, ruídos mil (máquinas datilográficas, marteladas, campainhas. quadros que caem, assovios, etc) compõem de maneira natural a casa. Apesar de toda a confusão, tudo se harmoniza. Tudo cessa, somente quando eles rezam para agradecer o alimento. Esse mundo fica mais agradável quando notamos que ele apenas exterioriza, aquilo que vai no imo de Martin Vanderhof. Mundo esse que é o oposto do de Kirby. Ali somente sua voz é ouvida, tudo se cala e fica sem vida ao seu redor. O que choca é que nos lembramos que Vanderhof está limitado pelas pernas quebradas, e Kirby que é aparentemente livre, nos soa como algo estático. Vanderhof é sentimental e alegre, Kirby grave e mal resolvido. Esses dois personagens vivem um embate. Representam dois mundos que se contrapõe um ao outro.



Capra conseguiu realizar um filme fantástico e mais dos que nos demais filmes, fez dos cenários algo que contribuiu para o desempenho maravilhoso de todo o elenco (inclusive os figurantes – aliás, quantos rostos deles não nos ficam na lembrança). Uma verdadeira aula de cinema. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 18 de março de 2014

Elefante Branco (2012)




“Numa favela nos arredores de Buenos Aiers dois padres (Nicolas e Julian) trabalham ajudando a população. Julian se vale das relações políticas para supervisionar a construção de um hospital que serviria a população local. Detalhe, tal hospital tinha sido planejado nos tempos de Peron e até agora só se vê seu esqueleto, uma obra jamais concluída e que a época seria o maior hospital da América latina. Nicolas voltara a se aproximar de Julian após o fracasso de um trabalho que realizava na selva, até o momento que paramilitares dizimam todos os habitantes. Profundamente abalado e chocado ele busca se reencontrar, mas acaba também pondo em dúvida o caminho trilhado em sua existência e encontra reconforto junto a Luciana, uma jovem assistente social, sedutora e ateia. Na medida em que a fé de Nicolas se esvai, a tensão e a violência entre os grupos de traficantes aumentam. Quando o ministério informa que os trabalhos para a construção do hospital ficarão suspensos, tem inicio a revolta que jazia adormecida no local.”

Logicamente que serei ousado em dizer que o desejo de tocar num tema levado a maestria em “Cidade de Deus” motivou a feitura desse filme. Afinal as favelas tornam-se cada dia mais universal, prova talvez do fracasso do modelo econômico levado a efeito em todo o mundo. Trapero aqui se mostra um diretor em pleno domínio de seu métier. Sobre um tema difícil, Trapero brilha formalmente, mas naufraga ao não conseguir compartilhar satisfatoriamente as angustias e esperanças de seus personagens. E ao também não conseguir inserir nenhum personagem ou ideia que questione o caminho trilhado pelos que buscam as melhorias. Um dos erros é se perder nas várias subtramas, que visam dotar de respostas (vagas e não convincentes) a quem assiste. É o que ocorre naquela que mostra o passado recente de Nicolas e também no relacionamento que terá com a jovem assistente. Tudo parece distanciado, superficial. O tratamento estético parece nos afastar daquele mundo. Era necessário um aproximar mais universal, um mergulho corajoso naquela miséria, a identificação do que veremos a condição humana inerente a todos (algo que Cidade de Deus alcançou e cineastas como Satyajit Ray e Rosselini saberiam realizar com facilidade). O mergulho na existência dessas pessoas ocorre de uma maneira muito trabalhada, cerebral e pouco emotiva. Um documentário precisa se aproximar da realidade humana, no caso ele parece dar voltas e nunca mostrar o que ocorre. A mise em scène é inventiva, alicerçada em planos acadêmicos (múltiplas ações simultâneas com mudanças de cenários e eixos num só plano a maneira de De Palma). Fascina pela estética, mas paulatinamente nos afasta pelo distanciar ao tema proposto. O diretor mostra que sabe filmar, só que precisa se engajar no mundo  que pretende filmar.  

Do elenco apenas algumas constatações: Darin realmente é um ator fora de série, Martina Gusman encanta pela sobriedade com que encara o seu papel.  Jérémie Renier, um belga com domínio do espanhol (não vivência), parecia uma escolha certa. Afinal muitos padres vagam pelo mundo, sem dominar a fundo a linguagem com que estabelecerão contato com a população e que pregarão sua fé. O resultado porém ficou a desejar, mas pode ser uma impressão errônea minha, fruto talvez da direção distanciada de Pablo Trapero. 


Em suma: Não é um filme chato, mas faltou espontaneidade para lidar com o tema. Um formalismo de nos fazer cair de joelhos, mas um resultado artificial demais. Nem o papa (que é argentino) absolveria Trapero do erro em que incorreu.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 17 de março de 2014

A Vida dos Outros (2006)




Ao assistir o filme tive a impressão que o seu tema central já havia sido tratado em outras obras. Ao rememorá-lo, encontrei ecos do que na tela vi em duas obras de meu conhecimento. Uma é em Star Wars, afinal o Capitão Wiesler não deixa de ser um Darth Vader , apesar de não trazer em seu corpo marcas visíveis de sua robotização - Um indivíduo que se desumanizou. Outro, esse retratado tanto na literatura quanto no cinema: Winston de “1984” de Orwell . Só que um Winston com uma nova oportunidade: O ser que ressurgiria da lavagem cerebral que lhe foi imposta. Que deixaria o estado de coma para viver novamente. A Alemanha que sairia das mãos da Stasi para a incerteza capitalista, deve ter tido muitos Wiesler que com atitudes camufladas ajudaram a minar a podridão de um sistema em que imperava o não deixar que a liberdade de pensar e viver diferentemente ali surgisse...

O filme tem início com vários alunos assistindo a um filme onde se vê que a manipulação das informações e a violência de cunho psicológico são as armas utilizadas pela STASI(O grande irmão da Alemanha Oriental). Um indivíduo é interrogado até a exaustão por Wiesler. Ele o mantém preso e em interrogatório. O ensinamento a ser passado: Em situações de extrema fadiga a verdade vem a tona. Um inocente grita e se revolta, ao passo que um suspeito continua a repetir a mesma ladainha. E percebemos também que a verdade transmitida por um homem da STASI não deve ser questionada, nem seus métodos: Um aluno que faz um questionamento inconveniente tem seu nome grifado por Wiesler em uma lista. Tomamos assim conhecimento logo de início tanto do homem, quanto do sistema que ele representa. Wiesler é um espião competente, que domina plenamente as funções que desempenha. 

Devido a seu talento é convocado pelo Capitão Anton Grubitz a espionar dois artistas (ele um escritor, ela uma atriz) ligados ao teatro. O que motiva essa espionagem, não é uma ameaça ao Estado. Apenas o desejo de posse que o ministro Bruno Hempf (ciente de seu poder) tem em relação à companheira de Georg Dreyman. Ele precisa possuir todos que estão ao seu redor.

Quando Wiesler mergulha na vida dos outros, ele lentamente começa a enxergar uma outra realidade. A realidade trazida pela arte e pela não troca de interesses sociais (quando o casal se entrega um ao outro, emana um sentimento de preocupação de uma para com o outro). Wiesler passa a conviver com uma realidade que não é a sua. Começa paulatinamente a conhecer um homem que através da arte não enxerga e não sente os liames que fazem parte do cotidiano do mundo que o cerca. E ele passa a querer viver a vida dele. E passa por isso a se transformar. Se esse homem conseguiu não se deixar contaminar pela sociedade que o cerca, não poderia ele também seguir o mesmo caminho?

E Wiesler passa a se policiar para deixar para trás o homem velho. E ele paga o preço pela insubordinação. Ele contudo não se queixa, pois pagar tal preço, significa não mais usar os potenciais que o tornaram o monstro que era.

A primeira vez que vi o filme achei que o final era seu calcanhar de Aquiles. Percebo porém que me enganei. Quando Dreyman procura compreender o que se deu, como não fora pego pela armadilha armada por ordem de Hempf e passa a compreender que foi auxiliado por alguém que não conhecia e que devia ter sido o seu carrasco, quer mostrar seu reconhecimento. E ele é feito da mesma maneira com que este o ajudou. De forma fechada, afinal Wiesler fora para ele uma benção, mas e antes de seu despertar?

Um dos filmes mais marcantes da década. Por sua coragem em tocar de forma aguda um passado que ainda está presente. E o fato da história ter se dado em 1984 não me soa como uma mera coincidência. É uma releitura digna e realista de George Orwell.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

segunda-feira, 10 de março de 2014

Afinal, Ed Wood estava certo


 

Não é incomum o nome de Edward D. Wood Jr., mas sim como o tornou famoso na história. Pior diretor de todos os tempos, maluco, idiota, travesti, um Orson Welles (seu grande mestre) ao contrário.

Mas é quando durante o filme de Tim Burton, que Ed Wood na pele de Johnny Depp, diz para os religiosos – que estavam reclamando da precariedade do cenário, já que o mesmo estava se desmontando – uma frase:

“- Cinema não é uma questão de detalhes, mas sim de contexto.”

Esses religiosos, tomam então o lugar dos verdadeiros espectadores ingênuos do tamanho da realidade (ou irrealidade) do cinema. Não são poucas vezes, que deparamos com argumentos primitivos e preconceituosos, que barram o limite da arte, o limite do cinema.


Quando vemos um filme thrash, com certeza não esperamos algo convencional. O que mais exigir do que sangue, ácidos, tiroteio, zumbis, aflições(fobias) e coisas grotescas, absurdas de um filme como Terror nas Trevas? Todos lá, já estão no fundo do poço, não tem esperança. Existe, é claro, a possibilidade de manter algum contato externo, já que uma vez, um filme pode explorar o sensacionalismo do terror baseado em fatos históricos (tem aí, primeira e segunda guerras mundiais de exemplo, algo parecido com o que acontece em Vá e Veja de Elim Klimov), mas nossa relação é sempre mais profunda com o interior da obra. Não estaríamos equivocados ao julgar filmes pelo mesmo critério básico de todos?


Tarantino, o diretor do momento – que com seus erros e acertos, ainda sim, se destaca da grande maioria – falou sobre John Ford, nome comum na sociedade cinéfila, no faroeste. Rastros de Ódio, um de seus filmes, é com certeza um épico acima da média embora tenhamos aí, uma relação de divisão entre o bem (os americanos brancos) e o mal (os índios), Ford com certeza não era o único que tinha esse pensamento. Em 1915 (onde participou do filme de Griffith), ainda havia na ideologia de muitos o pensamento racista e conservador, era normal. Não seria injustiça nossa trazer um contexto (como disse o nosso amigo Ed Wood) do passado para o presente?



Claro, também, que detalhes fazem sim a diferença, mas o contexto muda (ou deveria) mudar o nosso modo de pensar sobre cada filme, não é uma questão de aceitação, mas de humildade. Ed Wood, que pode ter sido o maior cinéfilo de todos os tempos, também foi julgado por muitas dessas pessoas que defendem um único pensamento - que no final é a maioria do público leigo – criando fórmulas de como um filme se torna bom. Temos aí um caso em que o “pior diretor de todos os tempos” se vê como vítima da mais injusta acusação cinematográfica e criativa, de autor para com espectador.

O Império Dos Sentidos (1976)



Esse filme ganhou as telas brasileiras no início dos anos 80 (A produção é de 1976). A época não tive curiosidade de o ver. Todos comentavam e digo sinceramente que achava o tema assustador, apesar de muitos conhecidos que o viram o achar pornográfico.Vi-o somente agora e através do DVD. Ao findar a projeção uma certeza: Apesar do explícito, não se trata de um filme pornográfico. É um filme que se vale da pornografia para falar de questões muito mais profundas. Também não o julgo erótico, já que em mim despertou pouco a libido. O diretor sinceramente não estava interessado em desperta-la. Ao contrário queria chocar aqueles que buscavam um pornô comum e também aqueles que iriam ver o filme o rotulando de arte. E de onde nasce esse chocar? Com certeza não do tema a ser tratado. Aqui se fala do hedonismo (visto sobre um ponto de vista muito particular) levado as últimas consequências. Fosse só isso, já bastaria para ser temido. Mas ele o contrapõe ao Nacionalismo Militarizado extremado que dominava o país (O Japão) a época em que a história se dá. É um filme de excessos onde a busca de sentido para a existência ganha contornos dramáticos (Sabemos como terminou o desejo de expansão militar japonês). E cada vez mais vai se apercebendo para onde caminha a busca desenfreada de prazer do casal de amantes. A Cena chave que exprime tal verdade é quando vemos as tropas imperiais marchando perfiladas pelas ruas sendo ovacionadas pela população (um ano depois tem início a Segunda Guerra Sino-Japonesa) e Ishida caminha em sentido contrário, na demanda da amante para mais uma maratona de sexo sem limites. Dois caminhos supostamente distintos, mas iguais por serem extremos.

Leve-se em conta também que o que choca no filme é que tudo se encaminha para ser conduzido pela mulher. É dela que nasce os desejos mais exaltados e o desejo de domínio sobre o outro. Num certo sentido Ishida até aprecia deixar as rédeas nas mãos de outro. Afinal  ao menos para ele tudo teria um findar, um término.  Essa espiral em busca de um prazer cada vez maior é que torna tudo mórbido. Não se tem limites e esquece-se que tal existe. É impossível ultrapassar certas barreiras. Sada crê que suplantou. Mas se o suplantar não a levou a algo mais, onde a suplantação? Aqueles que pretendem ver o filme, crendo ser algo aprazível, desde já fujam. Trata-se de um drama que se vale do pornográfico. E o que reforça mais a sensação de mal estar ao fim da projeção é o saber que tal história é alicerçada em um caso verídico. O filme para aqueles que ousariam supor que houve exageros no que foi narrado pelo seu autor causa mais calafrios ainda. Aquele que procurar a verdade sobre Sada Abe, após a projeção, encontrará mais pontos de ligação do que exageros de um cineasta ensandecido. Prova de que o que vemos na tela foi cerebralmente elaborado. Não com o intuito de nos dar prazer. O objetivo do filme, ainda que venha a se valer de uma linguagem erótica e pornográfica é o de chocar e nos fazer pensar. E para tal o cineasta se coloca na posição de alguém neutro, imparcial. Ele parece dizer: A história foi contada. Não me peça para julgá-la.

Para mim o que fica da projeção é a certeza de que todo o excesso pode ser pernicioso. Ele anula o racional.

Não posso dizer que se trata de um filme que me agrada. Sem querer parecer reacionário ou puritano acho que se pode tocar em temas como esse sem se valer de excessos. Mesmo se falando de hedonismo (e me vem a mente Zorba – que tinha um quê de epicurista e estoico) e na busca desenfreada pela satisfação dos instintos a visão do diretor não me agrada. . Oshima optou por se valer do escancarado, sem soar apelativo. Acredito que possa haver outros caminhos. Ainda que o que nos foi legado não possa ser desprezado.

Acho que toda obra não deve ser proibida. Nada é ilícito, porém nem tudo convém. Oshima tinha talento para dar seu recado sem se valer do explícito. Acredito que os envolvidos no projeto, falo dos atores, tiveram seu nome atrelado de tal modo ao projeto, que prejudicaram suas carreiras. Tem certas coisas que devem ser só insinuadas. Não escancaradas. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Minha Vida Dava Um Filme (2012)



“Imogene é uma escritora de peças na idade de trinta anos que ainda não encontrou seu sucesso, por falta de inspiração. Desprezada por um círulo de nova iorquinos que ela julga amigos, ela se depara com um dia negro, onde tudo desmorona e ela vê realmente a falsidade do que a cerca. Simula um suicídio e severamente deprimida é recolhida pela mãe e forçada a retornar as suas origens, retornando ao lar excêntrico de onde saira e que desprezEm suma: Gags frequentemente previsíveis e nem sempre hilariantes. A evolução do relacionamento entre Imogene e sua mãe se dá de forma abrupta e sem sutileza. O filme se perde em algumas intrigas secundárias desnecessárias (A busca pelo pai, a invenção de Ralph, o amor platônico de Ralph, etc) e nem sempre bem conduzidas. Por outro lado ainda que batido Dillon nos entrega um personagem que convence, bem como Darren Criss como o jovem inquilino. De resto um desperdício de um elenco interessante num filme menor, com potencial para ser grande. Frustra pelo que poderia ter sido.ava.”

Um desses filmes que comecei a assistir sem saber nem do que se tratava. Sem expectativas, portanto, tal qual o assistido. O filme tem lá seus momentos cativantes, mas é deveras mal costurado, que temos a impressão de que nos encontramos em um barco a matroca.  Uma pena, pois existem vários personagens interessantes que não são explorados de maneira convincente. O elenco é confiável, o que falta é um roteiro mais caprichado e uma direção mais equilibrada. Apesar de tudo isso o filme prende. Aguardamos a todo o momento que se explore o potencial, mas isso não ocorre. O resultado frustra, mas ao menos se deixa ver até o final.


Em suma: Gags frequentemente previsíveis e nem sempre hilariantes. A evolução do relacionamento entre Imogene e sua mãe se dá de forma abrupta e sem sutileza. O filme se perde em algumas intrigas secundárias desnecessárias (A busca pelo pai, a invenção de Ralph, o amor platônico de Ralph, etc) e nem sempre bem conduzidas. Por outro lado ainda que batido Dillon nos entrega um personagem que convence, bem como Darren Criss como o jovem inquilino. De resto um desperdício de um elenco interessante num filme menor, com potencial para ser grande. Frustra pelo que poderia ter sido.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Cão Danado (1949)


Quem assistir “Cão danado” terá a primeira impressão que se trata de um mero filme policial, daqueles que os EUA produziam as centenas na década de 30 ou 40. E não é condenável essa visão. Kurosawa com certeza bebeu dessa fonte ao dirigir a película. A história a primeira vista pode ser resumida da seguinte maneira: Policial novato, por descuido tem sua arma furtada e ela cai nas mãos de um ladrão que passa a roubar e matar. Com o passar do tempo esse policial condena-se pelo seu erro, enquanto procura desesperadamente recuperar a arma e capturar o meliante. Nada mais simples e ao mesmo tempo enganador tal resumo. Kurosawa ao transpor um gênero norte-americano para a realidade do Japão pós-guerra, utiliza-se da realidade local e nos brinda com uma visão tipicamente pessoal e realista do que era Tóquio naqueles tempos. O filme torna-se então um precioso documento de uma época. 

Mais do que a típica história com perfil psicológico de um policial que quer se redimir perante si e seus pares, o olhar do diretor aprofunda o tema, pois tanto o criminoso, quanto o agente da lei, nada mais são do que ex-combatentes que buscam se reerguer. É uma história que retrata dois seres que retornam da Guerra e procuram encontrar seu espaço em meio a uma sociedade destruída. Se um deles encontra esse espaço junto à lei, o outro permanece uma arma de morte destituída de individualidade, que acaba por se amalgamar na arma que obtém. O duelo final em que um policial ferido subjuga o criminoso mostra bem o grau de destruição em que chegou tal criatura. Policial e criminoso são as duas faces de uma mesma moeda, apesar da preocupação demonstrada pelo sorte do bandido, existe a preocupação de anulá-lo a fim de que não destrua outras vidas.

Kurosawa sempre foi acusado de ocidentalizar-se. Crítica típica de quem sabe que não pode equiparar-se. Kurosawa é universal e foi o primeiro a perceber que ninguém deve ser uma ilha, visto que a verdadeira arte tem de ganhar ares universais. Filme em que se pode vislumbrar o germinar das obras-primas que ele realizaria nos anos subseqüentes. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

quarta-feira, 5 de março de 2014

Do Jeito Que Ela É (2003)



Filme independente americano, primeiro trabalho atrás das câmeras de seu diretor e a coragem de realizar um filme simples e ao mesmo tempo indigesto, apesar de trazer em seu bojo um conteúdo que passeia pela gastronomia.

Durante aproximadamente uma hora e meia iremos seguir duas narrativas distintas que se entrelaçarão de maneira definitiva ao término da película. Em uma seguiremos as agruras de April (que não possui dons culinários) buscando preparar a ceia de Ação de Graças para os parentes que não vê faz tempo. Inteligentemente o roteiro não interioriza a ação dentro da própria cozinha do apartamento onde ela vive, mas mostra os arredores e, sobretudo a vizinhança que habita no próprio prédio. Ai se nota que a miscigenação que sempre foi um tema delicado (com a divisão em guetos nos grandes centros americanos) já não mais existe como antes. No mesmo prédio afrodescentes, asiáticos e outros nichos vivem e carecem como April de se tornarem aceitos e ao mesmo tempo aceitar o outro. E ficamos sabendo que April seria como a filha indigesta de quem os familiares nada esperam de positivo. Na busca, sobretudo de um forno em pleno estado de funcionamento para assar o peru, os eventos que se sucedem mergulham na fusão racial que irá mostrar como o choque entre as várias culturas permite o surgimento de novas possibilidades em todas as áreas. A contribuição de todos na construção da nação americana, ao invés de um discurso de pureza racial. O namorado afrodescendente que saiu do apartamento após ajuda-la um pouco, busca trajes que o façam cair no agrado da família que se aproxima e nesse ínterim se depara com o ex de April inconformado com o término do relacionamento.



A outra narrativa se alicerça em um road movie reticente. Os familiares (exceto o pai) parecem estar rumo a um patíbulo. Todos já fazem as mais negras previsões sobre o fim da viagem. É, de April só pode-se esperar o pior. Não sabemos se ela foi expulsa, ou se abandonou o lar. Não sabemos também se ela é o que dizem, ou se só servia de desculpa para o fracasso de todos: A avó com Alzheimer, o filho fotográfo amador, a filha centrada só em si, a mãe em estado terminal e que demonstra uma mágoa que pode ser o que ocasionou o estado que se encontra (não sabemos de que mal sofre). Somente o pai guarda alguma esperança, de ao menos uma vez ver todos reunidos como deveria ser. Um sonho pequeno demais, mas com um significado profundo. Que com o passar do tempo nos soa inatingível, já que no caminho todos desfiam os prognósticos mais pessimistas, inclusive querendo se alimentar no caminho para não ter de sofrer a tortura do repasto que acreditam intragável.

Patricia Clarkson arrebatou indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro como a mãe. Mas ninguém no elenco destoa. Todos os personagens são críveis e não soam caricatos. Méritos para a direção e um roteiro eficaz.


Não pensem que o filme opta por um final cômodo. O percalço até o desfecho (em aberto, não se engane pelas imagens) nos mostra que o que o diretor quis mostrar são as suas dificuldades. Não somente de se aproximar novamente mãe e filha. É mais abrangente. Ele deseja o jungir de todos, respeitando as suas peculiaridades, e se enxergando como pertencentes a uma única família. A família esfacelada é a própria América que necessita de uma vez por todas resolver suas diferenças. Não é uma tarefa fácil, mas o simples fato de escancará-la nas telas é um avanço. Não se combate uma doença, negando-a...

Escrito por Conde Fouá Anderaos

Chico Xavier (2010)




Assisti ao filme dirigido por Daniel Filho e apesar do receio que carregava, surpreendi-me: é um cinema voltado para as massas e dentro dessa proposta a sua qualidade é enorme.

Um dos primeiros questionamentos que levei ao cinema é de como um ateu convicto poderia retratar um personagem que fez de sua existência uma caminhada díspar daquele? Diz ele que dirigiu mais para homenagear um antigo companheiro já desencarnado (usemos aqui da terminologia própria à obra) que lhe foi muito próximo profissionalmente: Augusto César Vannucci. Ora, nunca morri de amores por Daniel Filho, e nunca assisti a nenhum filme dirigido por ele que me entusiasmasse de verdade. Tampouco acho que essa obrigação para com um antigo colega de profissão seria motivo bastante forte para que todas as objeções fossem derrubadas. Isso ele resolveu de maneira artística, colocando-se na história como o personagem Orlando (um ateu como ele). Também o fez ao ressaltar e retratar o lado bem humorado do personagem em detrimento do lado, digamos, missionário de Chico (somos avisados das obras criadas e mantidas por seu trabalho somente nos créditos finais).
Excetuando-se a cena do avião (seria mais curial em um programa como “Zorra Total”) o filme beira o sublime. Os atores conseguiram dar conta do recado e criaram interpretações maravilhosas. Giovanna Antonelli cria uma madrasta que consegue só com o olhar, os silêncios e os gestos, cativar não somente o Chico Xavier menino, mas também os que assistem a obra. Pedro Paulo Rangel demonstra a competência de sempre e cria um sacerdote fiel aos seus deveres, mas que se engrandece devido a tolerância e respeito para com os irmãos de outros credos. Luís Melo que sempre se valeu de sua formação teatral, dessa vez não comete de excessos e cria um pai bondoso e aturdido com o comportamento do filho. Mas cabe a Tony Ramos e Cristiane Torloni o ponto alto das interpretações destinadas aos coadjuvantes: Soam verdadeiros e a cena do tribunal que “praticamente” encerra a história cala fundo. Quantas vezes procuramos culpados para jogar sobre os ombros desses as mazelas que nos acontecem.
E não percebemos que muito disso faz parte do próprio jogo da existência.

Aqueles que interpretaram Chico Xavier impressionam, mas Ângelo Antonio se destacou: criou um Chico crível, dos quais restam apenas algumas fotografias esparsas e as lembranças dos que o conheceram quando jovem. 

O aviso dado no início do filme serve para esse e para qualquer biografia: A vida de um homem não cabe em um filme. O filme é construído sobre excertos, aquilo que de mais vivo permaneceu. E mesmo assim sabemos que o homem retratado poderia gerar ao menos 8 horas de um bom cinema. Mas isso não seria comercialmente viável.
A direção de arte merece elogios, conseguiu a recriação da pequena cidade de Pedro Leopoldo, com suas casas coladas a rua, fábrica de tecelagem, mostrando-nos com perfeição uma época em que os automóveis eram artigos de exceção e as ferrovias exerciam um importante papel de ligação entre os municípios. 

A simplicidade de uma existência no seio do Brasil e o fato do retratado ter permanecido fora dos grandes centros, já demonstra a seriedade com que ele via o que deveria fazer de sua existência. 

Como ressalva fica a sonoplastia que falha muito. A dublagem carece de sincronia em vários momentos. 

Chico Xavier ficará marcado na historiografia do cinema, como um dos primeiros filmes (houve “O Homem da Capa Preta” e “Villa Lobos – Uma vida de paixão”; mas apesar de aceitáveis, não atingiram o patamar dessa obra) a retratar de maneira feliz um personagem histórico brasileiro, algo que os americanos fizeram as dezenas e nós aplaudimos muitas vezes a sua competência. Que venham outros retratados: Vargas, Dumont, Monteiro Lobato, Catulo da Paixão Cearense, etc. Só servirá para que deitemos novamente nossos olhos sobre a nossa terra. Esperemos somente que o que vier ao menos se iguale a esse filme. 

Parabéns a equipe pela imparcialidade demonstrada na feitura do filme. E aquele que ainda não o assistiu minha recomendação: Assista, talvez não fique tão entusiasmado como eu, mas não irá se decepcionar. É isso.


domingo, 2 de março de 2014

Amor Por Contrato (2009)




“Quando Os Jones se mudam para um bairro chique de uma cidade americana, eles encarnam para aquela comunidade a família ideal. Não somente por causa de seu charme e simpatia, mas também devido ao aparato chique que os cerca: Uma linda casa, carros espetaculares, imóveis modernos e funcionais, equipamentos de última geração que facilitam sua vida, e a certeza de venderem a imagem que sempre possuem aquilo de mais moderno e útil em para todos os momentos de nossa existência. O único problema é que apesar de tudo isso essa família não existe.  Eles são empregados de uma empresa de marketing que visam impor ao redor deles uma série de necessidades para que se consumam os produtos que os patrocinam.”

Vocês já se depararam alguma vez com certeza com uma grande ideia mal aproveitada? Quando Steve Jones abre as portas para os vizinhos não são somente eles que são convidados a adentrar em um mundo feérico e crer que é possível uma convivência familiar plena de alegrias e se postar em uma fortaleza onde os problemas mundanos permanecem distantes. A questão é que em poucos minutos nos daremos conta de que tudo o que vemos é falso. Nada em si é real. E isso causa-nos uma frustração: Acreditamos no que nos transmitia Steve e seus familiares e talvez por isso passemos a nos comprazer mais com a armadilha montada pela sociedade consumista. Estremecemos diante das imagens suaves e ao mesmo tempo brutal do luxo e maquinário perfeito que cerca os Jones. É como se Barbie e sua turma estivessem encarnadas diante de nós.   Ao aproximar de maneira tão cruel o poder de marketing da Sociedade Americana (que o impõe ao mundo de maneira insistente e eficiente) inconscientemente sabemos que tal ameaça nos rodeia. Uma loucura posta de forma tão natural que somos seduzidos por aquela família, apesar de já nos ter sido informado que tudo é ficção. Mas passamos a torcer por eles, ou ao menos pelas estratégias que usarão para impor seu poder e assim ver também tombar na armadilha os demais que os cercam, assim como nós também caímos. Afinal é agradável crer no sofisma de que o dinheiro pode comprar a felicidade.

O que vai enfraquecer o filme é justamente a mudança de foco. Ou pelo menos como o roteiro a conduz. Ao tentar mostrar que o homem não pode ser condicionado ao que lhe é imposto o filme desmorona. Onde? Dentro dos conflitos existentes dentro da própria família. A pseudo mãe não possui existência própria, a filha não suporta o vazio dos jovens e se interessa por homens mais velhos, o filho está deslocado: é um homossexual enrustido que para garantir o emprego não pode se revelar e pior, vive o conflito de ter de ser sedutor (com o sexo oposto). O chefe da família é um ex-vendedor e um tenista fracassado. É desse personagem que surgirão as melhores cenas. Afinal ele já estava dotado de certas virtudes para enganar os demais: Pode demonstrar seus conhecimentos no golfe, já foi um vendedor e possui para isso todo o aparato que lhe dá a condição para ser o que sempre quis ser: Respeitado e admirado. Não deixa de ser o eterno adolescente que quer se firmar, mas ainda não encontrou seu lugar.
Que as questões existenciais deveriam adentrar na tela é claro. O problema é que ocorreram de forma abrupta ou superficial. Essa mudança de tom, da ironia para um drama familiar, foi desinteressante. No entanto a ideia mestra ainda segura o interesse.  O espectador se sente atraído por essa comédia de costumes lamentável, um conto de moralidade dúbia, que desperta em nós uma familiaridade sobre o mundo que nos cerca.  E ainda que o diretor tenha se enveredado por um roteiro equivocado (escrito por ele mesmo) o filme ainda prende. Pena que exista essa barriga no meio. Tivesse ele se prendido ao seu início e pincelado apenas essa parte existencial (ou a refletido em suas vítimas) estaríamos diante de uma obra prima. Ele não deveria se envergonhar do legado adquirido no mundo que ousou retratar (trabalhou com marketing) e deveria ter continuado a desferir o olhar arguto que tão bem mostrou ter sobre o retrato do mundo que o cerca.


O elenco em si funciona bem, mas notamos que Demi Moore destoa um pouco, talvez por se preocupar muito com sua aparência (que poderia ser explorada de forma a enriquecer o que se retrata) ao invés de se encarnar no personagem. Temos também uma Amber Heard que não mostrou somente a sua beleza em cena e um Ben hollingsworth  que destoa. A cereja do bolo é David Duchovny. Preciso e a vontade no papel, ele sobra na tela. Uma ideia genial e um ator inspirado não bastam, no entanto para se conceber um filme ótimo. Falta fluidez no roteiro e ousadia. Ousadia que seu autor mostrou ter, mas que travou de motivo inexplicável. Uma pena.

As Pontes de Madison (1995)





É um daqueles filmes que marcam. Alicerçado em um texto enxuto e preciso, encontra no par central a necessária competência interpretativa, além de uma direção que prima pela sensibilidade. Impossível falar de tal filme sem citar outros que remetem em maior ou menor grau ao tema central da obra. 

Caroline e Michael são dois irmãos que chegam a uma pequena herdade rural no estado de Iowa, Condado de Madison, para se darem conta do inventário de sua mãe Francesca que acaba de falecer. Desejosos de enterrar os despojos na tumba do pai já falecido se indignam ao saberem que ela solicitou a cremação, bem como um destino para as cinzas. Crentes que tal pedido foi realizado fora do seu juízo encontram um diário que tudo explica e que relata o encontro que a mãe tivera décadas antes com um fotografo. Vivera com ele quatro dias de sonho e relata com detalhes, desnudando-se para os filhos que atônitos refletem na da mãe a sua própria existência. Essa idéia de tirar a aura exemplar que os filhos possuem da mãe, tornando-a tão humanas quanto eles, não é privilégio dessa obra (vide como exemplo De volta ao futuro), mas com certeza não me recordo de obra que tenha a tratado com tamanha sensibilidade e maturidade.

Se pensarmos bem a história em si é simples. E poderíamos até dizer banal. Podia resvalar na futilidade, já que se trata de um encontro entre um homem livre e uma fazendeira entediada. Ainda mais se acentua essa sensação de algo fútil ao tomarmos ciência que tal encontro durou apenas quatro dias. E se levarmos em conta que a própria envolvida ficou restrita aos arredores de onde habitava essa impressão permanece. Não existe algo grandiloqüente, cenários deslumbrantes que atordoe ao menos um dos envolvidos da trama. Pode-se considerar que as paisagens agradem, no entanto a ele ou a nós (espectadores). Grande parte da trama, contudo é restrita a ambiente fechados e a locais repetitivos. Evita-se com sabedoria o escândalo e os excessos lamuriosos tão próprios ao gênero. 

O que nos cativa é justamente a escolha pelo equilíbrio, pela delicadeza, pela sensibilidade, pelo pudor, pela inteligência dos sentimentos que tornam a obra para quem assiste um doce prêmio depurado ao extremo. Feita de silêncios, olhares, pequenos gestos, olhares vagos e palavras ditas dotadas de verdade. Francesca (Meryl Streep ) exprime paulatinamente todo a confusão causada em seu ser, bem como a melancolia que o habita. A construção de tal personagem é maravilhosa. É o comedimento, a sutileza, a sensualidade abafada, a ternura que não cessa. Nessas duas horas de cinema vemos a condensação de toda uma existência. As coisas do coração possuem uma lógica incompreensível. Robert não é aparentemente um ser que viria a despertar tudo o que a vida havia renegado a essa mulher: sonhos de viagem, de descobertas maravilhosas, de potencialidades adormecidas. É ele, no entanto que a liberta da limitada (porém confortável) redoma de vidro de uma vida familiar correta, digna e aparentemente irrepreensível. E o filme que poderia descambar para um happy end correto, coloca-nos em pauta a questão do senso moral. E em nome desse sabemos ao final do filme que o sentimento não foi destruído e era real. E para que esse sentimento se mantivesse aceso era necessário que eles se afastassem. Inseridos dentro de uma sociedade, somos, querendo ou não, responsáveis pelos que nos rodeiam. O amor que descobrimos subitamente, e que, como diz no filme, é único, carece de decisões sábias para não ser destruído, ou para que não venha a destruir o ser. Francesca amava Robert, mas transformar-se-ia em um espectro se deixasse de lado os filhos e o homem reto que a tomou como companheira.

Já vimos essa história no próprio cinema. Só que as escolhas da produção e da época a conduziram a outro nível de abordagem. Trata-se de “Desencanto” de Lean. “As Pontes de Madison” não é uma refilmagem moderna dessa história. Nem tampouco cópia descarada. Trata-se apenas de se abordar temas caros a complexidade da alma humana. Ambos dignos de serem creditados como obras maiores. Que optam pelo caminho difícil de não agradar nossos desejos imediatos. Escolhem o caminho do engrandecimento de nossa compreensão rumo a evolução de nossa condição humana. Obrigatórios.

Escrito por Conde Fouá Anderaos