sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

O Psicólogo (2009)




Eis aqui um filme que passou quase que despercebido quando de seu lançamento e não teve a repercussão que merecia. Longe de se tratar de uma obra que marcará quem a assiste, não deixa de ser, contudo um filme bem realizado, ainda que algumas pequenas escolhas do diretor enfraqueçam o resultado final.

“Nenry Carter é um psiquiatra que auxilia várias figuras importantes de Hollywood, mas que se interessa cada vez menos por isso, bem como pelos seus problemas pessoais, atirando-se ao uso indiscriminado de bebidas e marijuana para fugir da realidade. Não consegue consolar Kate, uma atriz cuja carreira está em queda livre, tampouco ajudar o roteirista Jeremy dominado por várias angústias. E o mesmo vale para todos seus demais clientes. A reviravolta se dará quando seu pai lhe envia uma adolescente sensível que passa por um problema idêntico ao seu. É a hora de parar de fugir e encarar os problemas para superá-los.”

Um filme que faz-nos lembrar do saudoso Robert Altman e seus filmes de várias histórias que se entrecruzam (ou Magnólia de P.T.A., Retratos da Vida de Lelouch, etc), já que seu roteiro não se centraliza sobre o ponto de vista de um personagem;  ao mesmo tempo conta a história de vários personagens que se entrelaçará no fim de uma maneira plausível.  Existencialista sem ser tão profundo quanto um Bergman, mescla de comicidade e drama em outros momentos, e edificante ao seu final. O Casting atua de maneira sóbria e compõe um mosaico de seres que prendem a atenção. Destaque se faça para um Spacey pleno de seu potencial artístico.


Uma das grandes virtudes do roteiro é não colocar o psiquiatra como o personagem através dos qual todos os demais evoluirão. Não, aqui especificamente o Doutor está no mesmo nível que os outros. Afogado naquilo que seria uma muleta temporária (a marijuana) vemos o descaso que esse Doutor passa a ter em relação a si próprio e aos demais que o cercam. É nítida a situação de desleixo e ela é acentuada na forma em que a câmera apreende esse estado. Os diálogos vagos de sentido entre Henry e seu fornecedor (que age em relação a erva como um enófilo em relação aos vinhos) é um achado. Também (ainda que soe clichê) a ideia do pai enviar para Henry alguém com um problema semelhante, mostra que o que move a história é a dor é como lidar com ela. Algo inerente a todos desde que o mundo é mundo, e que nos alerta que a fuga não seria nunca uma escolha sensata. 

O que acaba enfraquecendo o filme primeiramente é o uso excessivo do recurso do zapping, o qual pouco são dotados da capacidade de se valerem deles sem que o resultado na tela soe artificializado. Infelizmente Pate não se conscientizou disso. Outra fraqueza no filme é seu final. Em nenhum momento soa-nos plausível um possível relacionamento futuro de Kate e Henry.  Essas fraquezas, ainda que graves, não causaram o naufrágio da película, o que por si só demonstra a força desse filme independente. 

Cara, cadê meu carro? (2000)




Talvez seja a terceira vez que eu assisto a esse filme. Faz parte daqueles que conheci na tela pequena. E ao tentar tecer um comentário lógico que explique a razão pela qual eu me deleite ao vê-lo sei que caio em um terreno perigoso. Gosto do resultado e esconder tal seria desonesto.

Fosse eu classificar o gênero a que pertence tal obra, isso não geraria dificuldades: É um simples besteirol que é produzido as pencas nas últimas décadas. Talvez os três maiores expoentes desse gênero (enquanto intérpretes) seriam: Myke Myers, Adam Sandler e Xuxa. Um trio nada lisonjeiro para quem diz apreciar a sétima arte ressalte-se.

E sei que alguns estão atônitos com a minha decisão. Qual a razão que faz com que eu, com tantos filmes para comentar, me dedique a gastar meu tempo com esse supra-sumo da cretinice em o elogiando. Uma é óbvia: Revi-o ontem e ainda estou sobre o efeito de sua projeção. E como já disse é a terceira vez que o vejo. E cumpre tentar compreender o que me agrada.

“Ontem a noite Jessee e Chester foram convidados a uma festa absolutamente fantástica onde havia muita bebida e gatinhas. Lamentavelmente ao acordarem, não se recordam de nada, tampouco sabem onde enfiaram o carro deles onde teriam deixado os presentes de suas namoradas(gêmeas). No entanto eles possuem alguns indícios do que teria ocorrido: Há na geladeira bolo inglês para se alimentarem durante meses, suas namoradas o acusam de terem desmontado a casa delas e de ter esquecido o aniversário delas.
A partir daí embarcam em uma aventura: Recuperar a memória e reconstituir os passos da noite anterior..."

Realizar um filme estúpido não é uma tarefa fácil. È uma arte. Rimos não só das situações, mas também do conjunto que é criado. No caso dessa obra, que data do ano 2000, toda vez que a assistimos, ficamos estupefatos com o caminho percorrido pelos protagonistas. Não conseguimos traçar mentalmente tal viagem.

Partindo das premissas clássicas dos filmes para adolescentes, o roteiro (que é impossível descrever) é subvertido para trilhar um caminho único. Uma situação inicial nada original: Dois virgens querem traçar suas namoradas, mesmas loiras de seios vantajosos que eles adorariam desfrutar, mesma cretinice e estreiteza de espírito dos dois protagonistas, sempre prontos a se voluntariarem em busca de um ideal, mas se lançando sistematicamente na merda. Mas depois de cerca de trinta minutos o filme começa a tomar um caminho dispare daquele que conhecemos, como por exemplo, quando ficam prisioneiros de um instrutor de avestruzes.

Cheios de cenas curtas, que faz com que sejamos constantemente surpreendidos. E constatamos ser impossível adivinhar para onde caminharemos, qual será o próximo passo. É isso que tanto me agrada. Ser surpreendido por essa costura improvável e ao mesmo tempo agradável de cenas deliciosamente incoerentes individualmente falando, mas que jungidas até possuem sua lógica. É um filme direcionado para jovens. Sobretudo do sexo masculino, mas que não impede que agrade outros nichos. Desde que se agrade de um humor absurdo ao extremo.

Apesar de sua idade, surge atemporal, já que tecnicamente se mantém com um frescor facilmente explicável. É um filme esteticamente feio e ridículo que não se envergonha de rir de si próprio. E nós rimos da improvável patetice que ganha às telas. Ao melhor estilo “Os Três Patetas” (no caso, os dois protagonistas, mais aquele que assiste). Ao findar o filme talvez passemos a compreender por que certas pessoas se saúdam ao estilo Spok ou gritando “Zoltan” fazendo um Z cruzando as mãos.
  


Como bem resumiu Daniel Dalpizzolo: “Deliciosamente zoado”.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Cão Vermelho (2011)


                                               

Há uma frase clássica ou pelo menos implícita em praticamente todo filme de cachorro ou sobre cachorros, que mais uma vez Cão Vermelho (Red Dog, 2011) faz questão de repetir: “Ele é um cachorro especial”. De fato, desde Beethoven, o Magnifíco (Beethoven, 1992) até os mais recentes Marley e Eu (Marley & Me, 2008) e Sempre ao seu Lado (Hachiko, A Dog Story, 2009), todos e quaisquer personagens que tenham um mínimo de relação com o animal farão questão de repetir essa frase. Mas em Cão Vermelho há finalmente um suspiro ou afirmação de seu ato.

 
Como uma história lendária, Kriv Stenders, coloca na alma de seu filme um espírito que assume sua posição. Embora essa posição, talvez cruel e limitada, possui uma liberdade de criação e construção narrativa que permitem que não fiquemos aguardando o destino final perto do último ato que tanto ocorre em filmes do tipo, como Marley e Eu, ofuscando a tragédia pela aventura. Claro que são filmes de corpo e alma no mínimo diferentes, mas não há muita saída para um filme que guarda uma previsibilidade tamanha em sua obra.

Partindo assim, Red Dog usa tudo o que seu gênero possui, não escapando do óbvio, mas sim enfrentando o mais duradouro, por assim dizer. Stenders então coloca sua câmera não apenas aberta para o chororó ou para o moralismo, mas também pelo que o gênero possui de melhor, nostalgia. É disso que o filme se alimenta e dura, dessas peculiares relações entre cachorro e sua família, que no caso se concentra em um todo vilarejo.

Porém que ninguém se engane, Cão Vermelho não é um filme sobre “passado”, no sentido  ~temporal~ da palavra. Se existe um chama que se sobressai aqui, seria essa perspicácia de tempo e espectador. À medida que o filme se desenvolve e evolui, apesar de como já dito antes, termos aqui um filme com todos os defeitos e belezas de seu gênero, não usa dessa atmosfera como apenas uma terra acolhedora e trágica, mas principalmente como viva. Em Sempre ao seu Lado (Hachiko: A Dog Story, 2009) a estátua que vemos de seu cachorro não é a mesma vista aqui e por x motivos, essa espécie de filme sempre derrapa de maneira inconsequente e muito escassa quando vamos para o sentimentalismo do ato final que você bem sabe diminuindo o filme e o limitando há apenas uma função.

Os momentos intensos, porém aqui são praticamente todos superficiais por esse mesmo motivo cruel de abranger tudo que pode mesmo a moral que tende a ser onde todos os espectadores se colem em suas cadeiras ou chorem de rir (ou chorar), a linha de red dog não foi feita para seguir esses conceitos básicos e trata os de forma pouco corajosa e profunda, por isso que aí se concentra a explicação de cão vermelho não habitar tão bem esse espaço ao qual ele sempre foi vira-lata.

 
Se tratando da inversão de posições (onde o cachorro adota o vilarejo), pouco a película de Stenders tem para mostrar (o que talvez explique os seus curtos e rápidos 92 minutos), passa uniformemente e cumpre sua missão, a que veio, de película de todo esse espírito que os filmes de cachorros possuem mesmo no fundo,  tirando no caso o que traria uma canseira rítmica que seus filmes “parentes” tem da ambição e pretensão de manter mais longa a duração da emoção, omitindo o que já deveria ter acabado a meia-hora atrás.


Enxuto, consegue aliar todos os espaços do filme com uma regularidade pouco vista nos dias de hoje e se não foi o suficiente para tomar firmemente decisões mais sábias e à risca, Cão Vermelho (Red Dog, 2011) assume todos os defeitos e acertos de cara limpa, começando e acabando em uma regularidade eficaz, tornando assim a estátua de seu cachorro em uma posição mais panorâmica e nostálgica de todo bom filme do gênero que cumpre seu papel. Pelo menos até o final da tarde.