terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Lobo de Wall Street (2013)


O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, 2013) é mais do que um filme porra loca, talvez o contexto em que tenha sido inserido tenha favorecido esse status, é um filme sobre mentiras e mentirosos, que larga a mão de outros projetos como A Invenção de Hugo Cabret (Hugo Cabret, 2011) e parte para o seu próprio cinema, ainda eclético e inovador, onde a figura não só corresponde com a do cineasta (o mentiroso), porém também com o seu meio, o seu mundo atual. Seja em 1973, 1990 ou 2013, Martin Scorsese acabou dando passos certos cronometrados que muitas vezes não o conduziram para o seu próprio universo e levou em Wolf of Wall Street a busca de desaprender, desandar, com seu próprio cinema.

A narrativa que acompanha o sonhador da vez – o cinema de Scorsese vem provando desde Taxi Driver (idem, 1976), esse personagem que antes de tudo é um ambicioso e sonhador – mantém bem como os aspectos que já formaram seu cinema uma relação linear onde jamais existe alguma falta ou pulo sobre sua verdadeira alma, relação do cinema, mas em Wall Street, mesmo que voltemos às raízes profundas de seus filmes, Scorsese segue a risca, bota tudo a perder como seu próprio protagonista – um alguém querendo algo -, arriscam na tentação e no poder da sedução, onde em tom irônico (aproveitando do mundo atual que proporciona com mais liberdade ao cineasta, fazendo daquele plano-sequência um vômito, uma cena de sexo ou mesmo delírios, overdoses em slow-motion) o viaja em aventuras e desventuras no escritório (o mundo do nosso protagonista) com sexo, luxúria, drogas, mas nunca está perdido, recupera em si mesmo a alma segura de toda a obra de Scorsese.


(O Lobo de Wall Street)

(Os Bons Companheiros)

Se antes em Os Bons Companheiros (The Goodfellas, 1990) partiam para o humor mais escrachado – onde um Joe Pesci se aborrecia com tudo – temos aqui uma liberdade no humor(negro, pastelão, escrachado, valendo até piadas xenófobas[americano de merda] e pensamentos “poluídos” etc.) que não se restringe a apenas um caso, como o seu protagonista, Scorsese mesmo ao som de alguma possível falha ou censura(o que ocorreu, infelizmente em alguns países) jamais larga o taco, por que não resta nada mais a ele do que arriscar no que gosta, desaprender e aprender consigo mesmo a sua própria persona e seu próprio cinema. Por isso The Wolf revela a sua verdade sobre a mentira do cinema, como um enganador, as palavras de Jordan Belfort(Leonardo Di Caprio em uma atuação perfeita) voam pela cabeça de quem escuta, seus clientes que creem nele, em seu poder, por isso Scorsese exige tanto da atuação de todo o elenco para formar verdadeiros pilantras, canalhas e principalmente mentirosos, capazes de alterarem seu estado de humor em uma variação tão grande quanto o de cada ação na bolsa de valores.


                                                                     (Taxi Driver)

Encontramos em The Wolf, um Scorsese independente, pronto para seguir arrisca o que realmente deseja, cria então a sua linguagem oficial, por isso não a tempo para ficar medindo palavras em um cinema autoral livre para voar – Se John Cassavetes estivesse vivo, adoraria este filme – Scorsese bota a foder e satiriza todos os seus personagens, joga palavrões e detona qualquer um que estiver em seu caminho (“os preguiçosos trabalham no McDonald’s”, “Eu me masturbo no mínimo duas vezes ao dia”). Não há medidas para serem utilizadas, por isso mesmo depois de tudo em sua carreira, Scorsese demonstra um domínio narrativo e muito atual (atemporal), mesmo que The Wolf of Wall Street não seja exatamente uma crítica ao capitalismo ou qualquer outro aspecto, seu motivo está encrostado na obra como uma sátira de toda essa loucura de cachorros loucos engravatados que puxam o telefone e sufocam o cliente, por isso antes de mais nada é um filme sobre o dom, a arte da mentira e da criação(onde seu criador não é invencível, mas seus feitos são).


 


Encontra-se aqui a alma de todo filme revolucionário, de espírito independente e autoral – Scorsese criou um sentido ao seu cinema e uma linguagem única que já conseguiu se tornar universal – mesmo jogando a papelada toda nos céus de Wall Street, domina tudo, desde os lances e olhares entre um e outros, não se constrói um drama exatamente de bandidos e policiais, nem algum thriller, mas sim uma reflexão de todo o personagem que Scorsese carrega desde o berço, desde Robert De Niro e que se faz presente e mais ainda, comprova sua atemporalidade agora com um Leonardo Di Caprio, que faz de Jonah Hill um Joe Pesci, que por mais que tenham suas diferenças (entre atores e tramas) são uns dos aspectos, personagens herdeiros dessa consolidação que Wolf comprova vendendo mais do que nunca e excepcionalmente a sua marca ao cinema comercial. Afinal, entre os altos e baixos (traições, fracassos, mortes), sempre poderemos contar com os nossos “goodfellas”.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Homenagem ao querido diretor: Woody Allen



Sejam jasmins azuis
e púrpuras rosas
sem plumas algumas
seja em Manhattan ou Roma 
quer seja em Cairo ou Paris 
por de trás dos velhos óculos
Que loucura!
Whatever sempre Works.
...
Casado com a psicanálise,
filosofando tudo em neuroses
com suas lentes e cenas
stardust mise-en-scene
Woody é um Allien 
do bom e velho cinema.


domingo, 12 de janeiro de 2014

Globo de Ouro 2014 - Apostas



Amanhã ocorre a 71ª edição do Globo de Ouro. Embora a premiação não tome tanta "importância" em relação ao Oscar, é claro que sua história é de fato conservadora e seus "caprichos" não devem ser seguidos por ninguém, mas é uma chance de aumentar a mídia dos filmes e o que anda em alta para Hollywood e principalmente se divertir(não irei julgar ou criticar, apenas apostar tendo em mente a repercussão dos filmes na mídia). Bom este ano com certeza não tem o mesmo charme de 2013, não sei se alguns irão se lembrar mas no ano passado a disputa, principalmente na categoria "Melhor Filme" ocasionou um dos maiores barracos da década, marcado por um lado conservador de um Lincoln de Steven Spielberg e outro inovador que representava Argo de Ben Affleck, que marcou história ao ganhar todas as premiações na categoria principal(inclusive, Globo de Ouro) e não ter sido nem indicado ao Oscar em melhor direção(isso só havia acontecido em 1990, com Conduzindo Miss Daisy).

Mas é inegável que o ano de 2013 esteja bem mais rico para o cinema do que seu antecessor. Vemos então:

MELHOR FILME(DRAMA): V

Acho bom lembrar que no passado, Lincoln representou o tema de escravidão, esse ano temos ele duplicado. Em Mordomo da Casa Branca e 12 Anos de Escravidão, mas o fato é que Mordomo da Casa Branca não foi nem sequer indicado e foi mal repercurtido se comparado com 12 Anos de Escravidão do diretor Steve McQueen. Enfim, vamos ao que interessa, dentre os indicados da categoria temos:

Capitão Phillips
2 - Gravidade
Philomena
Rush - No Limite da Emoção
VENCEDOR: 1 - 12 Anos de Escravidão

De fato, a situação não é a mesma de 2013. Por mais que o filme de McQueen logo de início cumpra com as exigências, anda sendo bem recebido em quase todos os lugares que vai por toda a parte, tanto que o filme de Lee Daniels vem sendo cada vez mais esquecido, o que prova uma potência grande e faz dele minha aposta para levar o globo para casa. Gravidade foi sucesso de bilheteria e até citaram 2001 como referência, mas não irei entrar na discussão sobre ele, é de fato a minha segunda aposta. Em questão dos outros indicados, acho uma surpresa Rush aparecer mas é o que menos tem chance aí. Philomena até se destacou, mas não consegue chegar nem aos pés do sucesso que fez Gravidade, muito menos 12 Anos de Escravidão, deixando ele e Capitão Phillips em uma situação no mínimo semelhante.


MELHOR FILME(MUSICAL OU COMÉDIA): V

Apesar de ser um ano melhor para o cinema o favoritismo gigante deixa as categorias quase sem nenhum suspense. A presença de David O. Russel(O Lado Bom da Vida e O Vencedor) embarcando em mais um novo filme, Trapaça, tira a esperança da maioria que concorre com ele. É de conhecimento que Inside Llewyn Davis tenha tido uma grande especulação, porém não acredito que os filmes dos irmãos Coen chegue próximo ao Trapaça, como a situação de Ela de Spike Jonze, Nebraska é de longe o menos favorito. Esta é a parte que o Globo de Ouro tem chance de mostrar o seu lado mais pop, que se diferencia das outras premiações. Mas existe O Lobo de Wall Street de Scorsese, que pode até dar alguma zebra, ainda que ache muito difícil que ocorra:

Ela
Inside Llewyn Davis
Nebraska
VENCEDOR: 1 - Trapaça
2 - O Lobo de Wall Street


MELHOR ATOR(DRAMA): /

Como disse, o Globo de Ouro também tem a sua parcela "pop". Nessa categoria temos de diferente o ator Chiwetel Ejiofor por 12 Anos de Escravidão que vem se destacando na mídia e como essas premiações valorizam as novidades do momento e revelações, creio que ele leve este prêmio. Tom Hanks é provavelmente o nome mais forte da premiação, mas não deve levar nada, ele já é da casa então não fara tanta falta, fora que temos Matthew McConaughey em Dallas Buyers Club que está em destaque em Hollywood. Idris Elba e Robert Redford para mim, não devem ter chance alguma.

Idris Elba por Mandela: Long Walk to Freedom
Tom Hanks por Capitão Phillips
VENCEDOR: 2 - Mathew McConaughey por Dallas Buyers Club
Robert Redford por All is Lost
1 - Chiwetel Ejiofor por 12 Anos de Escravidão



MELHOR ATRIZ(DRAMA): V

Por mais que não seja muito a cara do Golden Globe dar a Cate Blanchett o prêmio de Melhor Atriz na categoria drama, vejo uma incapacidade de darem o prêmio a Sandra Bullock que mesmo entrando muito mais na temática do Globo de Ouro, não supera Blanchett que vem conquistando o aplauso de todos que viram Blue Jasmine. Para mim é uma das categorias mais fáceis desse ano.

VENCEDOR: 1 - Cate Blanchett por Blue Jasmine
2 - Sandra Bullock por Gravidade
Judy Dench por Philomena
Emma Thompson por Walt nos Bastidores de Mary Poppins
Kate Winslet por Refém da Paixão


MELHOR ATOR(MUSICAL OU COMÉDIA): V

Christian Bale é a grande novidade. Fora da máscara de Batman, agora é um homem falante e que conquistou o público e a crítica com Trapaça, mas temos Bruce Dern por Nebraska e Leonardo DiCaprio. Como aposto em uma novidade nessa categoria, aposto em Bruce Dern mas se Leonardo DiCaprio ganhar não será novidade alguma, por isso que Leonardo é minha aposta. Oscar Isaac para mim não deve ter chance alguma, Joaquin Phoenix até anda se saindo bem segundo a crítica, mas Leonardo e Bruce estão a frente.

2 - Bruce Dern por Nebraska
1 - Leonardo DiCaprio por O Lobo de Wall Street
Joaquin Phoenix por Ela
Oscar Isaac por Inside Llewyn Davis
Christian Bale por Trapaça


MELHOR ATRIZ(MUSICAL OU COMÉDIA): V

Frances Ha tem sido um grande filme comentado por toda a comunidade cinematográfica, porém, Amy Adams anda trazendo um certo frescor que todos andam gostando, tornando ela a favorita e deixando a grandiosa Meryl Streep como segunda opção. Greta e Julie assim como Julia Louis-Dreyfus devem apenas assistir a cerimônia:

Greta Gerwing por Frances Ha
Julie Delphy por Antes da Meia Noite
Julia Louis-Dreyfus por À Procura de Amor
2 - Meryl Streep por Álbum de Família
VENCEDOR: 1 - Amy Adams por Trapaça


MELHOR ATOR COADJUVANTE: V

Ainda aposto muito em 12 Anos de Escravidão, porém pouco tem se falado da atuação de Michael Fassbender no mesmo, por isso me leva a crer que Jared Leto tenha uma chance bem grande de levar, pois sua tão falada grandiosidade em Dallas Buyers Club vem se repercutindo e ganhando outros status. Daniel Bruhl e Barkhad até teriam chance, se os filmes em que participaram não fosse tão ofuscados perto dos outros e Bradley Cooper que já tentou ano passado ganhar até seria uma carta na manga, mas acho que não é dessa vez, embora não seria muita surpresa:

VENCEDOR: 1 - Jared Leto por Dallas Buyers Club
Bradley Cooper por Trapaça
Daniel Bruhl por Rush - No Limite da Emoção
Barkhad Abdi por Capitão Phillips
2 - Michael Fassbender por 12 Anos de Escravidão


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE: V

E denovo a sorte vira para Jennifer Lawrence que como no ano passado vem chamando muita atenção e até mesmo o Oscar vem dando importância a mesma, por isso não tem como ser ignorada. Julia Roberts, creio eu, assim como Tom Hanks serão apenas nomes fortes participando, mas que no fim não irão levar nada para casa. Lupita Nyong'o e June Squibb parecem estar meio fora da competição, tapando buraco então Sally terá uma chance um pouco maior, embora que ainda creio que tem poucas chances, deve ser a segunda opção:

Lupita Nyong'o por 12 Anos de Escravidão
June Squibb por Nebraska
2 - Sally Hawks por Blue Jasmine
VENCEDOR:1 - Jennifer Lawrence por Trapaça
Julia Roberts por Álbum de Família


MELHOR DIRETOR: /

Steve McQueen deverá levar esse prêmio para casa, não só por causa do favoritismo de 12 Anos de Escravidão, mas sim pela concorrência que só se mostra forte ao lado de Alfonso Cuaron que vem conquistando bastante importância, mas como acho que o prêmio será de 12 Anos de Escravidão, acho pouco provável McQueen não levar. Alexander Payne e Paul Grengrass só devem ficar assistindo a premiação enquanto David O. Russell rói as unhas:

1 - Steve McQueen por 12 Anos de Escravidão
Alexander Payne por Nebraska
Paul Grengrass por Capitão Phillips
VENCEDOR:2 - Alfonso Cuaron por Gravidade
David O. Russell por Trapaça


MELHOR ROTEIRO: X

Fico novamente com 12 Anos de Escravidão que deve ser apenas ameaçado por David O. Russell, situação parecida com a de melhor diretor. Bob Nelson e Jeff Pope Steve devem fechar a noite sem nenhum globo. Spike Jonze até apresentaria muito risco, se ele tivesse estourado mais cedo ou se encaixasse melhor nos padrões do Golden Globe.

1 - John Ridley por 12 Anos de Escravidão
Jeff Pop Steve por Philomena
2 - David O. Russell por Trapaça
Bob Nelson por Nebraska
VENCEDOR: Spike Jonze por Ela


MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: X

Como no ano passado, o vencedor do Fesstival de Cannes(Amor), levou as premiações estrangeiras, fico com Azul é a Cor mais Quente que repercurtiu 10 vezes mais ainda, deixando apenas A Caça que é outro filme que repercurtiu bem mas em menor escala. Os outros para mim não tem chance alguma.

2 - A Caça
1 - Azul é a Cor mais Quente
O Passado
Vidas ao Vento
VENCEDOR: A Grande Beleza


MELHOR LONGA ANIMADO: V

Bom, tem algo para falar? Poucos indicados e um ano fraco para animação. Frozen vem sendo bastante elogiado por todos e é uma animação da Disney(o que para a mídia, já é algo para se notar), enquanto Os Croods devem apenas tapar mais um buraco, Meu Malvado Favorito 2 e Frozen devem disputar mais intensamente, mas como Despicable Me já não é mais novidade e Frozen vem conquistando o público, dúvido que o prêmio não fique com ele.

VENCEDOR: 1 - Frozen - Uma Aventura Congelante
2 - Meu Malvado Favorito 2
Os Croods


MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL: X

Vejo como uma categoria que deve premiar o filme de Alfonso Cuaron, para não sair sem nada, sendo assim ou é ele ou é 12 Anos de Escravidão.

2 - 12 Anos de Escravidão
1 - Gravidade
A Menina que Roubava Livros
VENCEDOR: All is Lost
Mandela: Long Walk to Freedom


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL: X

Para mim, Jogos Vorazes não ganhou ano passado devido ao 007, mas como dessa vez temos Please Mr. Kennedy em um filme sobre música e com canções que vem sendo elogiada, devera ser o único prêmio para Inside Llewyn Davis. Frozen até arriscaria, mas não acho que irão dar para a animação.

2 - Atlas em Jogos Vorazes: Em Chamas
1 - Please Mr. Kennedy em Inside Llewyn Davis
VENCEDOR: Ordinary Love em Mandela: Long Walk to Freedom
Sweeter Than Fiction em One Chance
Let it Go em Frozen - Uma Aventura Congelante

sábado, 11 de janeiro de 2014

Crazy Horse (2011)





Quando a noite cai em Paris o Crazy Horse – nosso ponto de encontro – se ilumina. Crazy Horse é o refugio das noites parisienses, um encontro entre as artes e a belezas, um espetáculo não só do puro nudismo. Da forma como somos apresentados ao Crazy, é senão igual, semelhante á multidão que senta em seus confortáveis cômodos todas as noites e espera para ver o espetáculo, porém para Wiseman não basta, mergulhamos logo após o espetáculo a uma rotina diária de garotas, jovens dançarinas que para nós é totalmente estranho e desconhecido (uma rotina de quem faz arte rotineiramente). Por que Crazy é um show, um espetáculo, uma sessão de cinema.

As dançarinas são postas para o ensaio e assim Frederick não só desmistifica o olhar além da dança que somos apresentados, mas também coloca para nós uma dúvida sobre realidade e ficção. Os espetáculos performáticos do Crazy são cada um algo único, mas é da magia dessa arte da mentira que somos vinculados, por que para nós há sempre uma perfeição em todos os passes, todas as danças, pernas, corpos e sincronias e uma naturalidade potente. Mas quando Wiseman nós mostra finalmente os bastidores das performances, somos enviados finalmente ao seu mundo, o perfeccionismo de quem dirige essas peças, a paixão de equilibrar na balança a perfeição e a qualidade.



Crazy Horse(2011, idem) é um filme de cinema, sobre a paixão dele, não é atoa que as performances feitas pelas garotas(os instrumentos principais usados) sejam sempre lançadas a um jogo de luz e sombras(que se inicia e termina o filme) para mais do que sensualizar, além do erotismo, emocionar, apreciar as imagens. Por isso que um dos maiores amantes desse lugar, assume que cada espetáculo produzido tenta pelo menos resgatar ao que seria uma emoção presente em filmes como de Fassbinder, Michael Powell. Luzes, sons, o Crazy é uma tremenda experiência audiovisual que atrai nossos olhos não só para a técnica posta em prática, mas a um perfeccionismo de toda a equipe que faz nascer desse cinema rotineiro (falado com o corpo) um espetáculo em um pequeno cabaré, e é isso que motiva Frederick, desse deslumbramento, fascínio de imagens que se fundem em uma peça só, algo verdadeiramente presente, por que ele trabalha com a mentira, a verdade escondida por trás da ilusão.

O documentário no mundo de Wiseman é um lugar onde se propicia muito mais do que o convencional que é de pessoas falando na câmera, dando suas opiniões, mas principalmente da observação da arte – contudo, a dança – como ela convoca a todos nesse lugar precioso. A noite vai chegando e ele vai se preparando em um plano geral(somos curiosos infiltrados) vemos toda a beleza do Crazy se fundir com uma muito próxima do cinema até mesmo em seu espaço físico cadeiras vermelhas, degraus acesos na escuridão, champanhes(por todas as mesas como se fossem pipocas) e enfim os clientes estão prontos para ver rodar as belezas da casa. Fotos pra lá e pra cá, mulheres e homens, tornaram este lugar já em um point tão comum que descartaram muito o preconceito de várias pessoas em relação a essa arte que desde o começo da sua história vem sendo marginalizada. Frederick une o espectador, o realizador e as garotas tão próximos que não vemos barreiras algumas, somos iguais em sua narrativa, aprendendo a ver o fascínio que o Crazy vem acumulando em anos, transferindo emoções para todos.




A dança para Wiseman se compreende em um espaço tão importante quanto qualquer arte, e é daquela mesma visão, compreensão, paixão de quem fala sinceramente para sua câmera, sobre a beleza dos corpos que vemos como foi sugerido em seu início, que as danças não se limitam apenas a mostrar belas nádegas ou peitos, mas sim um espetáculo sensual em que nossas dançarinas mostram através de seus passos, de suas poses, metamorfoses, feras, algo tão mágico e fascinante que enlouquece quem vê (voltando a forma de uma criança vendo tudo aquilo), pois não está dentro de uma gigante tela de cinema, está ali ao vivo fazendo uma apresentação real, onde se sente os suspiros de cada dançarina, as suas dificuldades e seus enlaçamentos umas com as outras. Por isso que assim, tanto o cinema, a música quanto a dança se transformam em algo conjunto, tão performático quanto as meninas dançando no palco, desse modo Crazy Horse(idem, 2011) adota uma carga narrativa tão semelhante a F For Fake, quebra tudo e fala conosco acerca dessa arte e através dela, discute e revela seus bastidores e a verdade de Wiseman, entre esses laços da arte, da dança, do cinema, da música se revelam até mesmo no mais simplório jogo de luz e sombra.