segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Django Livre (2012)




Tinha começado a escrever esse texto em fevereiro. Tinha uma linha de pensamento bastante definida. E se eu dissesse que ela foi abalada não estaria mentindo. Afinal lera um comentário bastante elaborado (vide: http://ornitorrincocinefilo.wordpress.com/2013/03/06/o-leao-de-juda-nao-mente-jamais/). Como seu autor também não gosto do trabalho do Tarantino. Isso, no entanto não me impede de sempre ter de manter um distanciamento crítico e analisar cada obra separadamente (sem me esquecer do conjunto) do que já foi produzido por ele.  Algo é notório, a geração de hoje se afiniza com o tipo de Cinema que é produzido por ele. Eu também adorava o trabalho de Allen, mas isso não me impedia na época (final da década de 70 e começo dos anos 80) de enxergar ali algumas limitações e problemas. A função de quem se propõe a analisar qualquer obra é essa: Imparcialidade. Não me interessa aqui que Tarantino ao apresentar sua obra tenha se valido de sofismas e maculado o nome de John Ford insinuando que este seria fascista (ou racista) por ter participado como extra nas filmagens de “O Nascimento de uma Nação”. Que alguns de seus fãs não tenham raciocinado sobre o dito é algo normal. Mas daí o todo se calar e não verificar que tal é absurdo: como um figurante pode ter poder de decisão sobre uma obra do então maior cineasta a época dentro dos EUA: D. W. Griffith. E também como não creditar a essa obra (O Nascimento de uma nação) algo que minimize a negatividade do que vemos hoje: A mentalidade da época em que foi concebida. Ou seja, o racismo era algo moralmente aceito pela grande maioria no início do século passado. Isso exime seu autor de culpa? Não, mas a atenua e faz com que olhemos a obra como um documento de época. O que a valoriza enquanto Cinema.

Um dos maiores problemas de Tarantino quando se propõe a recriar a história é que os personagens que ele coloca no cenário parecem ter pacto com H.G. Wells: Saem de uma máquina do tempo e se postam em um cenário já passado. Tarantino não se importa em se valer de uma linguagem atual, de personagens coevos, para viver em uma época passada. Em Bastardos Inglórios tal já se sentia. Em Django Livre um boticão, alemão, solitário, educado, irônico, anti-escravocrata e caçador de recompensar surge (não sei, mas algo tal ter existido é mais improvável que acertar sozinho a Mega da Virada com um palpite simples). Mas façamos como em Bastardos e aceitemos essa probabilidade (por mais mínima que ela seja).  E esqueçamos-nos do legado Fordiano (talvez um dos motivos de seu ataque a Ford?). 

A linguagem é outro problema na obra. Mas exigir que se fale como se falava no século XIX também seria inviável. Trata-se de se recriar uma similaridade com a realidade, não a recriar como tal. É ficção, não realidade. Verossimilhança é importante, no entanto. Tarantino abusa de uma linguagem chula não existente na época.

Às vezes tenho a impressão que seu público está tão anestesiado, que se Tarantino subir num palco e ao invés de discursar, arrotar será ovacionado. Impressão só... Espero que ele não faça isso. Temo estar certo.
 
Não aprecio também a exagerada violência expressa na obra. Acaba por banalizar completamente e tornar aceitável algo que deve ser encarado como inaceitável. Não critico a violência em si, mas a visão dessa dada pelo seu diretor.

Por outro lado credito a ele, apesar dos exageros, bons diálogos e algumas passagens interessantes. Sobretudo aquela (Gérmen da KKK) do Grupo de escravocratas que saem no encalço dos protagonistas.

Django Livre apesar do desenrolar de meu escrito até aqui, me surpreendeu positivamente. E talvez no fundo tenha até desgostado (talvez explique o truncar da narrativa na segunda parte, certo incômodo da direção?) seu diretor. Ele não conseguiu manipular a história, nem a realidade. Acabou fisgado por ela. E se foi pensado ou não, temos de dar o mérito a obra (e a ele). E aqui meu escrito acaba por chegar a uma visão distinta daquilo que o Victor Bruno enxergou. O final está entre as melhores coisas já realizadas por Tarantino. O fato de Django se travestir, se tornar o próprio Calvin Candie é real. Era o sonho imposto aos escravos. Imposto e que por final acabava o escravo incorporando. Ser livre significaria ser idêntico ao Senhor. Era ser Senhor. Estar por cima da carne seca. Tarantino aqui não subverte a história. Ele a endossa. É a conclusão a que chegara Machado de Assis (mulato, o maior escritor em prosa da língua Portuguesa) em Memórias Póstumas de Brás Cubas – Nesse romance seu protagonista encontra Prudêncio seu antigo escravo de infância alforriado. Prudêncio possui um escravo e o chibata na presença pública. Compreendera que para ser livre era necessário ter escravos.

E também é em Django Livre que novamente nos deparamos com um dos maiores personagens criado pelo cinema no tocante a escravidão: Stephen. É de Samuel L. Jackson a maior e melhor interpretação do filme: Stephen. Stephen não seria só um escravo. Tornara-se como que um agregado escravizado. A imagem negra de seus donos brancos. Quando Django o mata, ele não está se matando apenas mais um. Não podem existir dois Stephen. Django tornara-se o próprio Stephen em o superando.

Django Livre permanecerá como um dos melhores filmes de seu diretor. Ainda que eu ache que ele em breve não o considerará como tal. Ele não gosta de ser manipulado pela verdade.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

4 comentários:

Ricardo Nascimento disse...

O texto na verdade foi escrito pelo Victor Bruno, só uma correção. Gostei da crítica, bastante, aliás esse sentido dele ter sido fisgado pela história é realmente verdadeiro em Django Livre. Talvez um dos motivos que para mim mostra a superioridade deste em relação a Bastardos Inglórios, um filme um pouco mais limitado e "cego" pela matança de nazistas.

Marcelo Castro Moraes disse...

Desde fevereiro? se pensou bastante em

Ricardo Nascimento disse...

É claro que o Conde não ficou fazendo só isso o tempo todo, depois foi formulando para fazer a crítica, que aliás, como já falei, está ótima.

CONDE disse...

Em realidade Ricardo eu tinha essa linha de pensamento e ela não mudou. Mas o texto do Victor Bruno realmente me balançou e eu fiquei tentado a mudar meu pensar. Até perceber que o que ele dizia em nada entrava em conflito com o que eu disse, discordamos justamente sobre o seu final. Típico filme em que a obra suplanta seu criador. Curiosamente senti mais prazer em ver Bastardos Inglórios (apesar de lá os absurdos serem maiores) mas a luz da razão Django é muito mais filme, apesar de certos maneirismos do diretor que o fazem não superar Pulp Fiction (ainda seu melhor filme). Só para matar a curiosidade de alguns minha nota seria 7.