segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Cine Holliúdy (2013)

                                                 cartaz de Cine Holliúdy

“O olho é um troglodita!”

Francisgleydisson(Edmilson Filho) é um grande sonhador acima de tudo. Suas histórias são nutridas da criatividade tal qual Hollywood(o objeto tão desejado do filme) inventa e cria, mas principalmente ele é um retrato pobre novelístico e dramático do nordeste brasileiro, portanto sempre foi e sempre será um grande contador de história e está fadado a isso pelo resto de sua vida, foi assim que lhe foi encaminhado e é assim que a missão do kung-fu o leva dentro de um mundo o qual só ele pode comandar, onde ele é o mestre seu filho é o ninja aprendiz e seu sagui é o seu filhote de King Kong. Por mais estranho que possa parecer seu sonho é realidade em outra dimensão. Criar um filme deve ser algo que todo cinéfilo já parou para pensar em um momento – ou até mesmo já arriscou alguns testes ou curtas com algumas histórias – e Francis é também um showman, que aprendendo com o cinema e o seu mundo passa para uma fase essencial que o cinema deve ensinar para cada cineasta que nasce vendo filmes – independentes de quais sejam -, o dom da mentira.

Ao mesmo tempo Cine Holliúdy(idem, 2013) assume sua posição quanto homenagem ao cinema, é também um filme essencialmente crítico e também dramático – retratar o sertão brasileiro sempre vai ser uma tarefa de tristeza e drama, por mais engraçada/irônica que seja – representa a pobreza, a mesquinharia, a ignorância e o difícil ou impossível acesso ao cinema com sua respectiva inimiga, a televisão o matando, no interior do Ceará(e o interior nordestino como um todo se encaixa perfeitamente). Políticos e agentes do governo salafrários e bandidos de primeira marca ultrapassam os limites que a democracia lhe impõe e avançam vorazmente nessa dificuldade que outrora representa tão somente o atraso de um avanço mais que essencial e básico que já se conquistou no mundo em décadas atrás, mas ainda mantém a mesma situação.




Cine Holliúdy(idem, 2013) protesta contra a falta de incentivo cultural e principalmente larga a culpa da falta de educação que principalmente forma um município pouco ou nada democrático alegando uma criatividade da autoridade maior para inventar mentiras tão grandes como a de nossa cineasta, Francisgleydisson. Por mais que se esconda ou pelo menos não explicita, é um desejo absoluto delicioso, uma indignação de Gomes com o que julgou tão forte para o seu desenvolvimento como cinéfilo – e consequentemente como criança, pedaço da infância – traga para esse espaço popular algo antigo, absurdo como a ausência do cinema, de uma falta de avanço que Sganzerla protestava e Glauber Rocha observava pelo caos nordestino, portanto mais do que tudo somos miseráveis como todos os que estão lá, que serve de parte principal e peça chave para usar no que Fellini tanto presou em seus filmes, aqui na saga de Francisgleydisson.


Para Francis e os moradores da pequena cidadezinha, tudo é muito novo, recente. Como cachorros loucos por um osso, as crianças imaginam as lutas e mesmo que dependam de um garoto com a preciosa e rara televisão 12 faixas coloridas para ver o seriado Kung-Fu, não deixam se abater, por mais que o esporte, o futebol faça parte de suas vidas, para Halder, estamos sempre redescobrindo o cinema, uma fonte inesgotável de conhecimento pronto para ser revivida a qualquer instante. Apesar de toda a ignorância dos moradores seja também muitas vezes enorme em relação ao cinema, são tão espectadores quanto qualquer um ou muito mais; são pequenos cidadãos que vão se apaixonando pela arte que a tela demonstra e principalmente pelo o que ela proporciona, no seu sentido mais simples, são olhares de recém nascidos do cinema.




Por mais que o bang-bang seja de um índio e um cowboy e sua continuação seja puramente a inversão do título ou uma papagaiada a mais na roupa de um dos dois(de subtítulos com; revanches, torneios, “ultima batalha”, “o verdadeiro conflito” e até mesmo “o retorno”), sempre estaremos vendo algo de novo na telona, por mais minucioso ou pouco criativo, a continuação da saga do galã do western(que vai desde John Wayne até Clint Eastwood) ou do cinema de ação de Hong Kong(Bruce Lee, acima de tudo) é algo que os olhos pedem mais, e a curiosidade incessante que uma boa história pode causar, fazendo mais e mais filmes, transforma uma história simpática(como a da própria trama do filme) com envolvimento do público, é normal que tudo se origine em centenas de continuações, origens e confrontos especiais – mesmo golpes, aqueles que quebram o “macho” ao meio em um toque, a “voadora na pleura central da peridural” e, em um exemplo que se aproxime do cinema recente de ação de Hong Kong, “the five point palm exploding heart technique”(Kill Bill – Volume 2[idem, 2004] manda um abraço) - e vamos nos apaixonando cada vez mais(ou as vezes nem tanto, afinal qual seria a graça se tudo fosse perfeito? Mas, uma coisa está certa, dentre outras coisas eternas na sétima arte, sempre estaremos com aquela busca, desejo de que tudo vai dar certo, no final das contas, todo mundo “torce” para o bonzinho ganhar, por mais óbvio que seja ou não, sempre iremos ter a emoção de torcer).




Para Halder Gomes, dentre tantas falácias do nosso herói cearense, uma é a mais verdadeira e mais sólida em todo o seu filme. O cinema de ação de Hong Kong, o maior homenageado aqui, é com certeza um filho do cinema mudo. Cine Holliúdy(idem, 2013) assume uma posição linda quanto em relação a ele, sétima arte(que ainda serve de critica para os intelectuais, que acham que para apreciar um filme é preciso conhecer o cinema todo), onde Francis diz: “[...]E nosso dever de exibidor é levar essas histórias dos cineastas que são contadores de histórias para pessoas que querem se emocionar com essas histórias”. É o ponto onde Halder afirma que o grande cineasta é um grande contador de histórias e dentre outros diálogos traz a linguagem universal que só o cinema é capaz de dizer, o olhar que corrompe barreiras. Daí está há explicação desse falso profeta, desse mentiroso, ator e enfim cineasta Francisgleydisson. De todo grande mentiroso há um dom para a atuação, improviso, aquele que faz seu mundo e começa a então a criar a sua vida, o seu cinema.

domingo, 22 de dezembro de 2013

Os Imperdoáveis (1992)


                                                       

Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) é o testemunho de Eastwood sobre tudo o que fez em sua carreira. Sobre apreciar o pôr-do-sol, sobre ser um pai, sobre ser um matador mas principalmente sobre ser um homem. Talvez este seja o western mais humano de todos os tempos (e isso não desmerece os outros), e com certeza a prova genuína que Clint Eastwood é com certeza o homem que mais sabe transpor em linguagem simples, as memórias e a morte.

Logo no começo, vemos uma maravilha de paisagem da mesma forma como vemos mais tarde. Mas é sobre o discurso de vida, vingança e memória que Eastwood trabalha, sobretudo, por que é um homem que não se satisfaz com o “happy ending” principalmente por que este não existe. Nem tão pouco um homem otimista ou pessimista, Clint é realista, põem as cartas sobre a mesa, porém não fica contente com créditos, se aprofunda em mostrar as raízes de suas cicatrizes.




Em Três Homens em Conflito(Il Buono, Il Brutto, Il Cattivo, 1966), tudo o que acontece é rápido, as mortes são rápidas, o gatilho é rápido e quase não à dor(esse portal entre a vida e a morte, que é o que Clint, essencialmente trabalha aqui), mas existe para ele algo que não pode se negar ou esconder, sempre enfrentaremos ele, e em um inferno onde a humanidade não era civilizadamente hipócrita como depois foi virando, a justiça essa sim, era feita a base de sangue, e não existia ninguém que não sentia algum pingo de revolta – e isso, até hoje -, por que este é um sentimento selvagem mas totalmente pertencente a raça humana. Engraçado que as duas maneiras que terminam O Estranho sem Nome(High Plains Drifter, 1973) e Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) são completamente iguais, mas há uma diferença, essa foi tocando aos poucos mais o coração do velho Clint, mais do que à critica a sociedade, foi trabalhando muito mais em suas marcas, independente da forma que são feitas, as cicatrizes de uma herança infernal não são esquecidas, por isso que não é atoa que o discurso religioso nada adianta para ajudar na resolução final, pois a mágoa guardada é inesquecível e principalmente irreparável.




Se em Gran Torino(idem, 2008), Eastwood volta para falar com o espectador sobre esse ressentimento(que para ele são transformados em extremos como em mal humor crônico ou em caretice calcada em alguma crença), em Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) viajamos sobre o western para dissecar William Munny e um tempo que não é mais seu, aqui encaramos de frente a onda do tempo no peso de um homem do passado. Onde os tiros não são mais os mesmos, os cavalos não são mais os mesmo? Não. O Western não mudou, continua o mesmo, tem ainda aquele sol batendo sobre o chão desértico e seco para refletir nas grandes esculturas naturais, grandes pedras alaranjadas. É, tudo continua igual, mas o que não continua igual é o pensamento, que tanto Clint quer explorar, afundamos no tempo, mergulhamos no passado(sentimos o peso da bala como William e Ned) e vamos em frente para matar, ato bem compreensível para eles, mas que não é mais o que era antes, isso sim, mudou para eles.

Se Eastwood sempre pegava suas armas e apontava na cara de seus inimigos, vemos um dilema difícil, por que mais do que um Western, Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992) é um filme que filosofa sobre a vida, sobre a existência de uma humanidade complexa, que come, bebe, dorme e possui todo um outro pensamento, é uma parte da linha chamada de destino, que quando “interferida” é estranho por que em questão de segundos, em uma puxada de gatilho, a arma então faz a força dando impulso para uma simples bala perfurar o corpo deste humano e pronto. Tudo se acabou, uma fórmula simples e por vezes devastadora (fisicamente, pois “espiritualmente”, ela sempre é) que ocasiona na morte e o pior, esta pessoa nunca mais vai respirar, por mais que isso seja óbvio, é difícil por exemplo que o novato de Schofield(Jaimz Woolvett) aceite isso quando mata pela primeira vez um homem(Clint, gosta de analisar a juventude independente da época que for, pois o calejamento de um velho experiente é bem semelhante a experiência de um iniciante). É dessa violência que Eastwood questiona, não ela em si, mas suas consequências, para quem mata e para quem sofre.




Unforgiven vai além do que a bala atingiu – para o tio Clint, a bala perfura a alma -, não se satisfaz quando vê enfim um corpo de um homem(meu deus, nem sabemos o que é um direito), um ser inexplicável, em todos os lados como nós, que não sabe por que está ao mundo, mata, esfaqueia e principalmente se vinga, por que o último e final discurso de Eastwood não fica apenas para o sofrimento dessa toda tragédia que o sangue faz, mas sim do “troco”, a vingança que a mágoa fez perfurando o coração e aí sim, Clint volta para ser como era nos filmes de Sergio Leone, um homem maldito e sanguinário impiedoso. É um caminho sem volta, não é Clint que põe isso, ele apenas demonstra, isso é instinto selvagem, somos bichos, e como um dominó um cai atrás do outro, não existe moral nem regras, mas sim selvageria, por que somos uns com os outros assim, contudo, por que somos desse jeito? Clint Eastwood, embora um cineasta genial, não é um deus, não cabe a ele nem a nós respondermos, mas se dos últimos tiros, cavalgadas e até do som das esporas sabemos é que tudo termina em que Samuel Fuller diz sobre o significado de cinema; emoção.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Django Livre (2012)




Tinha começado a escrever esse texto em fevereiro. Tinha uma linha de pensamento bastante definida. E se eu dissesse que ela foi abalada não estaria mentindo. Afinal lera um comentário bastante elaborado (vide: http://ornitorrincocinefilo.wordpress.com/2013/03/06/o-leao-de-juda-nao-mente-jamais/). Como seu autor também não gosto do trabalho do Tarantino. Isso, no entanto não me impede de sempre ter de manter um distanciamento crítico e analisar cada obra separadamente (sem me esquecer do conjunto) do que já foi produzido por ele.  Algo é notório, a geração de hoje se afiniza com o tipo de Cinema que é produzido por ele. Eu também adorava o trabalho de Allen, mas isso não me impedia na época (final da década de 70 e começo dos anos 80) de enxergar ali algumas limitações e problemas. A função de quem se propõe a analisar qualquer obra é essa: Imparcialidade. Não me interessa aqui que Tarantino ao apresentar sua obra tenha se valido de sofismas e maculado o nome de John Ford insinuando que este seria fascista (ou racista) por ter participado como extra nas filmagens de “O Nascimento de uma Nação”. Que alguns de seus fãs não tenham raciocinado sobre o dito é algo normal. Mas daí o todo se calar e não verificar que tal é absurdo: como um figurante pode ter poder de decisão sobre uma obra do então maior cineasta a época dentro dos EUA: D. W. Griffith. E também como não creditar a essa obra (O Nascimento de uma nação) algo que minimize a negatividade do que vemos hoje: A mentalidade da época em que foi concebida. Ou seja, o racismo era algo moralmente aceito pela grande maioria no início do século passado. Isso exime seu autor de culpa? Não, mas a atenua e faz com que olhemos a obra como um documento de época. O que a valoriza enquanto Cinema.

Um dos maiores problemas de Tarantino quando se propõe a recriar a história é que os personagens que ele coloca no cenário parecem ter pacto com H.G. Wells: Saem de uma máquina do tempo e se postam em um cenário já passado. Tarantino não se importa em se valer de uma linguagem atual, de personagens coevos, para viver em uma época passada. Em Bastardos Inglórios tal já se sentia. Em Django Livre um boticão, alemão, solitário, educado, irônico, anti-escravocrata e caçador de recompensar surge (não sei, mas algo tal ter existido é mais improvável que acertar sozinho a Mega da Virada com um palpite simples). Mas façamos como em Bastardos e aceitemos essa probabilidade (por mais mínima que ela seja).  E esqueçamos-nos do legado Fordiano (talvez um dos motivos de seu ataque a Ford?). 

A linguagem é outro problema na obra. Mas exigir que se fale como se falava no século XIX também seria inviável. Trata-se de se recriar uma similaridade com a realidade, não a recriar como tal. É ficção, não realidade. Verossimilhança é importante, no entanto. Tarantino abusa de uma linguagem chula não existente na época.

Às vezes tenho a impressão que seu público está tão anestesiado, que se Tarantino subir num palco e ao invés de discursar, arrotar será ovacionado. Impressão só... Espero que ele não faça isso. Temo estar certo.
 
Não aprecio também a exagerada violência expressa na obra. Acaba por banalizar completamente e tornar aceitável algo que deve ser encarado como inaceitável. Não critico a violência em si, mas a visão dessa dada pelo seu diretor.

Por outro lado credito a ele, apesar dos exageros, bons diálogos e algumas passagens interessantes. Sobretudo aquela (Gérmen da KKK) do Grupo de escravocratas que saem no encalço dos protagonistas.

Django Livre apesar do desenrolar de meu escrito até aqui, me surpreendeu positivamente. E talvez no fundo tenha até desgostado (talvez explique o truncar da narrativa na segunda parte, certo incômodo da direção?) seu diretor. Ele não conseguiu manipular a história, nem a realidade. Acabou fisgado por ela. E se foi pensado ou não, temos de dar o mérito a obra (e a ele). E aqui meu escrito acaba por chegar a uma visão distinta daquilo que o Victor Bruno enxergou. O final está entre as melhores coisas já realizadas por Tarantino. O fato de Django se travestir, se tornar o próprio Calvin Candie é real. Era o sonho imposto aos escravos. Imposto e que por final acabava o escravo incorporando. Ser livre significaria ser idêntico ao Senhor. Era ser Senhor. Estar por cima da carne seca. Tarantino aqui não subverte a história. Ele a endossa. É a conclusão a que chegara Machado de Assis (mulato, o maior escritor em prosa da língua Portuguesa) em Memórias Póstumas de Brás Cubas – Nesse romance seu protagonista encontra Prudêncio seu antigo escravo de infância alforriado. Prudêncio possui um escravo e o chibata na presença pública. Compreendera que para ser livre era necessário ter escravos.

E também é em Django Livre que novamente nos deparamos com um dos maiores personagens criado pelo cinema no tocante a escravidão: Stephen. É de Samuel L. Jackson a maior e melhor interpretação do filme: Stephen. Stephen não seria só um escravo. Tornara-se como que um agregado escravizado. A imagem negra de seus donos brancos. Quando Django o mata, ele não está se matando apenas mais um. Não podem existir dois Stephen. Django tornara-se o próprio Stephen em o superando.

Django Livre permanecerá como um dos melhores filmes de seu diretor. Ainda que eu ache que ele em breve não o considerará como tal. Ele não gosta de ser manipulado pela verdade.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sábado, 14 de dezembro de 2013

Senhora Sangue de Neve(1973)

                            

Nos primeiros minutos de Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973), somos intruso da câmera exploradora de Fujita em uma prisão japonesa na Era Meiji, onde um parto ocorre e através da quadrada janela uma neve avermelhada cai. Não sabemos de nada, somos entregue como Yuki, o bebe recém-nascido, sem nenhuma informação, apenas o desejo de vingança .Em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) a uma narrativa que persegue não só a personagem em seu contexto, mas também todo o cenário japonês histórico, que além de tornar a trama mais rica e interessante, também nos conta do passado de Sayo Kashima(Myioko Akaza), mãe da “criança do submundo”, que deu a missão cruel a pobre criança de se vingar.

Tudo em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) é potencialmente original, desde a música “Flowers of Carnage” introduzida no fim e no começo da trama da própria atriz que interpreta a nossa protagonista até jogos de câmeras. Afinal, Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) não se trata apenas de uma vingança melodramática, mas também de uma poesia escrita de sangue, que ambienta todo o cenário do terror sem fim de uma guerra e principalmente, suas consequências. Bem utilizado, as cores, se alternam entre vermelhos e brancos principalmente, não apenas pelo sangue pouco modesto usado na película, mas também em dentre diversas mensagens filosóficas a tal sol nascente japonês.


                             

Bem contornado, o desenho de Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) viaja sobre o tempo sem misturar ou confundi-los, mas sim para em retoques de memorias não só Yuki se lembre de sua cruel missão dada na terra, mas também o espectador a qual tudo isso é novo. Inovador, Fujita responde a essa trama e o desejo de Yuki na tragédia, o clássico espetáculo a qual o público esta acostumado, para enfim traçar desde o começo do treinamento juvenil da protagonista até o seu acerto de contas. Como um dominó, as peças que se caiem levam diretamente a surpreendentes reviravoltas e descobertas fascinantes, ao olhar pálido e cruel da criança do submundo.

Em lutas desafiadoras, Fujita utiliza diferente posições que podem chegar até ao close-up que rapidamente dentro da memória despertem cenas ou em flash rápidos e velozes da imaginação e do sofrimento de Yuki, que nunca foi realmente um ser humano qualquer, mas sim um monstro fruto da guerra e de uma desesperada busca por aquilo que tanto cega e interessa o cinema oriental em mostrar, a vingança. Em 4 capítulos, a saga japonesa chega a esbarrar no amor, e é pelo cinema moderno de Fujita traduz uma obra muito conservadora e desde expressões ou propriamente gestos adentra em um mar sangrento sem fim.

É claro que é impossível ver Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973)mesmo com suas contradições na trama em si e diferenças, se assemelhe tanto a Kill Bill - Volume 1(idem, 2003), de Quentin Tarantino que voltou-se em 3 décadas passadas para reanimar essa essência tão rara que o cinema original precisa, por que sobretudo, não apenas homenageá-lo, a missão de Tarantino foi reservar em seu filme as aulas aprendidas através dessa e tantas outras pérolas do cinema oriental que conheceu pela “tela grande”.


                          


A uma melancolia única em Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973)para ambientar todo o cenário da Era Meiji, que impressiona em cores e na utilidade nostálgica e corajosa de seguir uma narrativa por vezes muito esquecida que fundou uma época de um Japão solitário, cruel que a neve tanto mostrava, que a guerra tanto pintava. Desde o nascimento da ira, fica provado então para o espectador esse símbolo da ira progenitora e irônica que faz nascer um fruto apodrecido e cego capaz de ignorar ou pensar em algo. Mesmo que Yuki, não tenha sofrido a guerra, em planos e mais planos, a cada corte na garganta, em cada momento que degola cada um de seus considerados inimigos, prova essa saga infernal segundo Fujita que o destino da a um ser e assim por diante para terminar no alvoroço sangrento que todos desejam um para o outro, não haverá branco que proteja a marca vermelha, provando o sangue como a barreira para o paraíso e da vingança oca, uma morte dentro do próprio mar sangrento afogado. A tragédia grega passa para o Japão, vira cinema oriental, cria o moderno sob o melodrama conservador e é relembrando e reanimado muito tempo depois. Senhora Sangue de Neve(Shurayukihime, 1973) é mais uma prova e vestígio de um cinema muitas vezes esquecido, mas sempre vivo, uma pérola oriental em forma de memória na prateleira de uma antiga locadora pronto para ser reanimado.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Blue Jasmine (2013)

                                                         


Woody Allen é um dos diretores mais conservadores e sinceros do cinema, principalmente quando iremos falar sobre relacionamento(porque, Woody não trata apenas de um tema). Já faz tempo que o discurso de Allen vem subindo escalas que discutam a psicologia humana, pois é evidente que todos os personagens de Allen(pelo menos todos que pude observar até agora) são extremamente problemáticos, demonstrando ou não claramente ao público, é um fato que dentre as belas paisagens de Paris, Nova York, Roma e agora São Francisco não pode esconder, pois mais do que um apaixonado por cinema, Woody Allen é um romântico incorrigível.

Blue Jasmine(idem, 2013) é um filme que termina da mesma maneira que começa, e puxa muito mais daquilo que a de denso, profundo e sólido em seu cinema do que a beleza interminável de romances. Mesmo em Manhattan(idem, 1979) existe um certo drama que não resulta em um Allen tão pessimista quanto em seu mais novo filme, pois este resulta em um caminho que dentre tantos filmes apesar daquele amor shakespeariano, ou classicista como em Casablanca(idem, 1942) não dá algum resultado satisfatório para que o espectador bem confortável em sua poltrona assista, compreenda e saia como aquele sentimento que já estamos acostumados a ver, pois se a algo que Blue Jasmine(idem, 2013) tem é angústia e loucura(uma verdadeira homenagem ao caos que o fim de um relacionamento pode propor).


A partir do momento em que Jasmine(Cate Blanchett, excepcional) vai a São Francisco, seu mundo desaba, e é engraçado ver que talvez, este seja o personagem a qual, dentre alguns outros, exponha tanto do que a em cada um de nós. Jasmine não passa de uma dondoca que saiu da vida de luxo e agora vive em um mundo subalterno desconhecido e totalmente diferente para ela. Woody Allen provavelmente nunca judiou tanto de uma personagem(isso no bom sentido, óbvio), quanto o fez aqui, a nossa protagonista tem choques emocionais, toma calmantes regularmente, chora e é realmente estressada, é o perfeito contexto que o nosso romântico nova-iorquino se dispõe para explorar seus temas. Woody Allen não perdeu o fator lúdico, nem mesmo o tom da comédia romântica(esse daqui pode ser até mesmo considerado mais engraçado que seus dois últimos filmes), mas o que encontramos aqui é uma peça mais rara que extrai dentre algumas obras de seu autor, como Memórias(Stardust Memories, 1980) - o provável filme mais “Woody Allenístico”  que existe nessa terra -  complexidades da vida amorosa, nem sempre marcantes em seu filmes, ou mais diretamente em suas tramas, talvez por que de uma forma ou de outra Jasmine é Woody Allen.

Para servir de maior intensidade dessa complexa mente de Allen, temos o claro exemplo em Blue Jasmine(idem, 2013) o fator tempo. Viajamos com ele, para aprofundar nas ressacas que Jasmine tem atualmente, graças ao passado, algo que Allen gosta tanto de tratar como uma máquina devastadora e marcante não apenas prejudicial à vida amorosa atual, mas também em crises, por assim dizer, existenciais. Hal(Alec Baldwin), o canastrão, rico e traidor, é uma das peças-chaves(por mais irritantes que sejam) que funcionam para Allen tomar a iniciativa de despedaçar em uma trágica e sempre humorística aventura. Por que tanto o destino final deles no passado quanto dos filhos que teve com Jasmine(embora tudo isso pareça muito rapidamente e cause uma coerente confusão) servem para explicar em um tom mais novelístico(que de qualquer maneira é maravilhoso) toda essa história, que tanto necessita dessa diferença, fator especial, pelo menos na carreira/filmografia de Allen. Até onde a inveja e busca por aquisição se resulta? Allen responde com clichê e personagens nem sempre criativos e com uma trama por vezes novelisticamente caricata, mas ele acredita no poder da realidade conservadora, por que o amor é no fim, nada mais do que um sentimento tolo e que de intensidade para intensidade, continua no final, o mesmo, por isso esses fatores não são prejudiciais à trama, mas sim essenciais, pois este é um filme potencialmente mais pessimista e “sem futuro” mas com direito de deixar o espectador se sentar junto ao banco e chorar as pitangas, mas principalmente refletir em uma praça, a praça dos que foram agredidos pelo amor e tudo que reserva.


Jasmine não é louca, Ginger(Sally Hawkins) – sua irmã - não é burra e toda essa trama montada de Woody Allen, pode ser uma história moralista e até mesmo de arrependimentos, mas estes os mais sinceros. Se Allen, com toda a sua técnica, excelência e qualidade, continua por vezes com seu romantismo conservado, é dele que vem o classicismo de uma época e a sinceridade de outra, Allen é dos diretores mais geniais em atividade e que só aprende e faz aprender mais com o passar dos anos, como o vinho, Allen vai se tornando mais delicioso de se desfrutar e aventurar-se. Se a comédia romântica e as histórias românticas, já não possuem coragem para despertar a realidade de uma vida sem perder o fio da meada e/ou ainda acham antiquado a certa moral, clichê ou até mesmo o “melodrama” classicista, Woody Allen vai continuar renovando e provando que estilos não envelhecem e nem saem do circuito jamais, mas sim proliferam e criam raízes maduras observando e estudando os outros(pois é isto que Allen, trabalhou desde sempre). É maravilhoso ver como conseguiu construir uma história romântica, basicamente sobre uma música de Jazz(Blue Moon, uma obra-prima musical), relembrando o melodrama e a melancolia em um amor verdadeiro, ou inveja, ou sofrimento, seja lá todos esses sentimentos que forem, em um clássico do passado(que poderia ser perfeitamente um marcante filme da década de 50 ou 60) e do presente(e é extremamente atual, ou atemporal), enfim, um clássico perdido no tempo. Em Manhattan, em Paris, em Roma ou em qualquer cidade do mundo, estaremos sofrendo por amor.

Jogos Vorazes: Em Chamas (2013)


                                                            cartaz de Jogos Vorazes: Em Chamas

Desde o lançamento que tanto provocou a febre do público, que me lembro bem, citavam nomes como Harry Potter e Crepúsculo em algumas propagandas, Jogos Vorazes(Hunger Games, 2012) parecia suprir apenas a necessidade de tapar o buraco que as duas sagas estavam deixando(Harry Potter já tinha acabado e Crepúsculo estava para acabar no mesmo ano), tinha me incomodado muito principalmente por que parecia trazer algo apenas para cobrir ou consolar o mesmo público alvo dessas outras sagas, unicamente por que estavam acabando e a demanda por algo novo era, teoricamente, grande. Nunca tive algum tipo de preconceito com esses tipos de filmes, até por que sua finalidade pouco importava para mim, preservo mesmo é a qualidade mas algo novo sempre me chamou na saga de Suzanne Collins, algo que aproxima tanto o público com questões que de uma maneira ou outra são essenciais e principalmente inéditas.

foto de Jogos Vorazes: Em Chamas


O motivo pelo qual defendo a saga Jogos Vorazes tão arduamente, é com certeza devido a essa característica única que aproxima de modo envolvente a um mundo que não está apenas ligado a um romance bobo, magias para lá e para cá, deuses e monstros mas sim a um futuro inimaginável, repressor, violento, usurpador. Se jovens já se identificavam com tantas histórias que aproximam uma aventura, em Jogos Vorazes há algo mais próximo com o seu cotidiano e sonhos. Talvez o maior erro de Jogos Vorazes(Hunger Games, 2012) tenha sido não aprofundar tanto nessa questão, e apenas se aventurar por se aventurar sem algum destino ou propósito justificáveis aparentes.

Mas em Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)), vemos um espírito de revolta que e indignação que vai mais além daqueles que seu antecessor mostrava previamente , aqui, a principalmente um prólogo em que embala adequadamente todas as reações dessa exploração que o governo de Snow(Donald Sutherland) pois no filme anterior, principalmente a de Katniss(Jennifer Lawrence) e a falsa imprensa, sorrisos e astros corrompidos pela mídia em uma direção adequada de Francis Lawrence que sobretudo explora muito mais os sabores e dessabores passados tanto de um lado da mídia, governo e do povo cada vez mais reprimido.

Talvez o que mais chame atenção na continuação da saga de Katniss, seja esse espírito mais revolucionário e unido, pois apesar de voltarmos a certas repetições desnecessárias e cansativas durante as longas horas de duração do filme(como o bobo romance mal resolvido), Lawrence implica questões mais questionadoras e repugnantes sobre o sistema com mais facilidade, seja pelo roteiro que amadureceu toda a história mais ou por a atuação cada vez mais convincente de Jennifer Lawrence, Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)) merece muito destaque principalmente no cinema atual feito para esse público alvo.

                                                    foto de Jogos Vorazes: Em Chamas

Planos mais sólidos e uma atmosfera mais fria fazem não que Jogos Vorazes: Em Chamas(The Hunger Games: Catching Fire, 2013) fique sem sentido, mas sim uma exploração daquilo que deveria ter sido feito no seu antecessor, por toda a parte que interroga a verdade e traz a tona uma camada superficial e crítica sobre tudo isso de forma surpreendente(um final muito bem eficaz), nos colocando no próprio lugar da nossa protagonista e nos fazendo crer em justiça e principalmente tendo em mente toda aquela vontade que deverá ser incorporada na próxima sequência, A Esperança. Pois A Katniss que só chorava o leite derramado, lutava pela sobrevivência mas não sabia bem o que desejava. Em Jogos Vorazes: Em Chamas((The Hunger Games: Catching Fire, 2013)) passa dessa versão inocente para uma a que todos nos chegamos na vida, a da luta pela justiça, verdade, sonhos bem formados e idealizados por um espírito indignado, jovem e voraz.

Embora essa repulsa controlada, o que é bem justificável se pensarmos no público que está direcionado, acho justificável assim como o primeiro filme toda essa adaptação, pois é preciso todos esses caminhos para que se atinja um nível de suspense considerável e uma passagem de uma adolescência injustiçada para não só aquele fase onde a luta pelo que é desejado mas também a os sonhos, utópicos ou não, se realizem. Embora talvez essa moral já seja ferida e batida, é interessante ver puramente isso em tela em um filme bem aproveitado que mostra para o que veio e deixa ainda que com todos os defeitos aquele ar novo e um espírito muito mais próximo de qualquer jovem que vá ao cinema assistir.