segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Se... (1968)

                                                     

Liberdade é uma das palavras sínteses de vários idealistas, revolucionários e movimentos. Ao mesmo tempo que ela é tão dita por várias pessoas, e tão desejada por outras ou as mesmas ela nunca é alcançada. Parece simples ter ela, mas não em tempos como estes que Se...(1968) representa. A guerra já acabou, mas a violência é incentivada por muitos e autoridades. Quem disse que até mesmo um padre não pode ser um tenente? Quem disse que temos liberdades? É um conceito utópico por muitos, a anarquia, mas independente da política e o idealismo que cada um tem, no fim o que todos querem é liberdade.

Lindsay Anderson, diretor de outros sucessos, como Baleias de Agosto(1987), que estrela a famosa Bette Davis, traz esse conceito de maneira com que o conceito não caia em estereótipos ou clichês, inspirado no hino à anarquia escolar de Jean Vigo, Anderson nos mostra a mente de um jovem rebelde louco por guerra, ensinado por ela, em época de puberdade é com certeza um dos seus pontos fortes, mesmo ainda com a alteração de cor de preto-e-branco e colorido, por questões orçamentárias, o filme traz não só apenas uma revolução espetacular em uma escola como retrato de liberdade jovens que se sentiam acabados, mas também um retrato da sociedade hipócrita, cheia de autoridade e ditadura, em que vivemos, onde a palavra liberdade deveria ser arrancada do dicionário.




Mick Travis(famoso, Malcom McDowell de Laranja Mecânica), é um garoto como os outros que é reprimido e vive uma vida monótona junto com outros 3 amigos. A diferença é que os 3 são os mais antissociais e vivem em quarto cheio de representações e fotos de mulheres, cenas de autoridades e líderes revolucionários como Che Guevara, claro. Nisso, os castigos que vão tendo tornam-se mais constantes cada vez mais que tentam sair daquela academia, repreendidos até mesmo por vários outros alunos que receberam cargos de “autoridade”. Ao conhecerem uma jovem ela se junta à rebelião e a causa deles, ajudando como uma presença feminina e não menos liberal em busca da liberdade.

Apesar da questão orçamentária atingir o filme, cada cena que entre no preto-e-branco é alguma cena interessante, especial ou bonita fotograficamente, como a cena em que Mick entra na cafeteria e em uma fala faz, por exemplo, uma gozação, assim pode ser considerada, com o pedido do café preto ou branco. As cenas do sexo explícito por exemplo, são outros fatos interessantes que não mostra o estrupo, mas sim duas pessoas querendo aproveitar e apreciando o amor físico, mesmo que talvez este fato seja imaginário, assim como o amor que Mick vai criando sobre a menina.




O destaque claro, além de McDowell é a atmosfera escolar quer por vezes até mesmo no próprio filme é lembrada e com certeza justamente comparada com época da ditadura, ou no caso mesmo, de guerra. O ensinamento da violência vai se tornando cada vez mais constante e a atmosfera que lembra a Nouvelle Vague como o clássico de Godard, O Demônio das Onze Horas(1965), com algumas cenas de estrada e talvez um, no caso quadrado amoroso, que lembra também o triângulo amoroso de Godard em Bande à Part(1964). Mesmo a película sendo de outro movimento, estas influências são claramente percebidas, assim como também Os Incompreendidos(1959), que também retrata a “bruta” vida escolar da época, é um outro filme que foi atingido/influenciado por Se...(1968).

E querendo ou não estas influências deixaram este filme, não só deixando a atmosfera maravilhosa e deixando o filme mais complexo e lindo, já que suas influências são ótimas e retratos da mesma temática da liberdade como também deixando o filme mesmo não fazendo parte do movimento da Nouvelle Vague, e com vários outros diretores como Godard e Truffaut, fique à beira da perfeição em retratar sua liberdade, até mesmo superando até algumas qualidades em algumas partes em relação à esses diretores.

A liberdade no fim não interessa se ela é conquistada com ideias utópicas ou não, ela só quer ser conquistada. Ainda, a mensagem que fica, não é somente à vida escolar, mas sim à vida em geral. Se... ensinam com violência, ensinam a violência, se ela é ensinada e aprendida, só pode ser devolvida com a mesma. Mas, quem tem liberdade? E se...tivéssemos?

Adeus, Lênin! (2003)





Entre a captação da mensagem política e a personagem Alex(Daniel Brühl), dentre todos os aparatos e artifícios clichês e moralistas de que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) se mostra capaz de mostrar, apenas um tem a relação fantasiosa mais sólida de todas, a paixão pelo capitalismo. As imagens que se espalham vorazmente por toda a frágil Alemanha pós-guerra, servem para o único e talvez o mais importante discurso capaz de realmente engrenar na relação já revista, agora no plano contemporâneo, entre a política e o amor. Pois Alex é o fruto de uma relação da rebeldia e da ambição, e como tal, é uma figura do retrato mentiroso, mesmo que ainda de fato verdadeiramente manipulado. Alex não é mentiroso, é também ambicioso, humano, civil e criança.

É do trabalho de levantar a cabeça fixar os olhos, erguer os braços, abrir a mão, balança, manejar de um lado ou do outro e finalmente concluir o ato de acenar a uma figura que irá se extinguir previsivelmente de uma maneira ou de outra, que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) projeta. Pois não se bate apenas na cabeça da parcialidade de um assunto tão cru a qual acabe se esgueirando na perda de um propósito, nem na rebeldia, mas na cabeça, no ideal cujo mesmo que não interaja de maneira tão manipulada e parcial no discurso político. E daí Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) provém dos olhos da juventude revirada e solta, mesmo que meramente, das asas da inutilidade moralista da mensagem político-social e prefere seguir o caminho da leitura cinematográfica dos pensamentos, ideias e ações.




Quando as cenas se decompõem com as marcas da nascença política social tanto dos dois meios, é também, que Becker institui a psicologia da análise amorosa, a qual tanto se prende em Adeus Lênin. Por que, aqui, a família da mãe conservadora de Alex, fiel, é devota da oposição do amor, dos meios que colidem em Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003), o socialismo. Dentre o amor, Becker, revira e retoma a amargura de Nicholas Ray, em novo plano, mais fraco e menos objetivo, mas ainda assim do toque da mente juvenil, bem, bem no fundo, mas com um brilho fraco, porém visível.

Do quebra-cabeça político amoroso(um dos mais, bons ou ruins, intensivos ou não, humanos já retratados nos últimos anos) que beira a podridão e dark angustiante da juventude estético-narrativa oitentista e setentista da cultura pop cinematográfica à lá Walter Hill e companhia. A qual de modo ou outro seguiram direta e indiretamente toda a evolução da alma pura de um filme de Nicholas Ray, Becker usa para quebrar e habituar uma nova geração cinematográfica pela quebra do drama e entrada do humor,(ainda que pouco usual, se considerado às fortes doses da influência do pastelão). Assim em diante, Becker não consegue situar de boa forma o espaço e tempo e cai não somente nesse elemento, como também tropeça do monte que todos os diretores se penduram ao se reduzir ao tratamento de um assunto como este a qual tropeça e não consegue tão rápido se curar.

As dores da juventude. Suas ideias e ações sempre tão prolixas e diferenciadas, tratam-se de uma obra em fase de transposição, de uma estrutura dividida, e ainda mais disso que Becker se traduz aqui, mostrando a sua verdadeira identidade, mas como sempre cai na verdadeira mesmice e apaga o brilho num piscar de olhos a qualquer hora e momento. Pois mais do que qualquer outra temática, que parece tanto atrair Becker, todas as retratadas partem da política e conceito subjetivo, e requerem apenas a exposição sem analogia a algum idealismo e parte disso, o discurso de Becker cai bastante na variação e mesmice que parece transpor unicamente ao cinema.


É muito do que se permiti nesse variável que é o cinema afetado de Becker, é somente mesmo a criação artística sobreposta em camadas diferentes. Retraz o conceito nu, ainda que escasso, mas talvez o mais lúdico e próximo há uma breve explicação do cinema, que nada mais é do que a ilusão e mentira(inclusive camada essa, que cobre o roteiro de Becker parcialmente, mas significativamente para construir o elementar assunto da política, amor e juventude em Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003)). Becker reconstrói então, finalmente alguma aproxima maior com os verdadeiros entendidos no assunto a qual trabalharam e expuseram tanto em tela. E é dessa lúdica criação, ainda que quase oculta, que precisava tanto se formar de forma não tanto variável quanto não só anda a linguagem cinematográfica de Becker, mas de muitos diretores com potenciais já provados ou não em tela. É desse impulso que Adeus Lênin(Good Bye, Lenin!, 2003) precisava mais do que nunca, e mesmo nos seus defeitos em ritmos e objetividades, se vestem e começam a servir como uma identidade, reformação de ideias e conceito, mesmo que ainda em última instância, da verdadeira capacidade da arte. Transferidos em tantas partes minuciosamente na tela, não só na mentira, mas no ato de fazer, na transformação de telejornais capitalistas, e até mesmo na empresa símbolo do capitalismo em socialista.

domingo, 24 de novembro de 2013

O Menino do Pijama Listrado (2008)




Vi esse tal de “O Menino de Pijama Listrado”. Já vi vários outros filmes sobre o holocausto ou o nazismo em minha existência. Uns a favor e muito bem realizados (Como Bastardos Inglórios), outros apenas bem intencionados e que não dizem a que veio como esse... Mas dizer que não disseram a que veio é algo por demais cruel em se tratando de intenções boas. A ideia da obra em si é excelente. Sua execução, no entanto nos dá a certeza de que se perdeu uma grande oportunidade de contribuir para o sepultamento definitivo das ideias Nazistas.

Dizer que foram os judeus a maior vítima do que se deu na Europa naquela época é um pecado que não cometerei. A maior vítima foi à humanidade que aceitou regredir aos tempos de barbárie. E os judeus, homossexuais, ciganos, os limitados física e mentalmente, etc  serviram de repasto a insanidade humana. A lição, no entanto é clara, antes ser vítima que algoz em um crime desses. Infelizmente não se enxerga essa verdade. E é necessário sempre referendar que tal realmente é verdadeiro, não algo distante no tempo, mas presente e que se não for vigiado pode retornar a superfície.



O filme em si tem vários acertos e alguns erros que o diminuem. Interessante à ideia de se mostrar o garoto como alheio ao que se passava ao redor. Lembro que vi algumas fotos sobre a Guerra Civil Espanhola onde se retratava crianças brincando nos escombros de outrora casas, alheias a realidade que as cercavam. Triste saber que a infância está ficando cada vez mais encurtada. E notemos que isso já era uma das propostas educacionais do III Reich e que foi perpetuada por vários governos. E é esse mote que permite o desfecho plausível da obra. Outro acerto que muitos viram como falha foi o fato de Shmuel ter aquela liberdade de poder ficar tão próximo a uma cerca sem vigilância nenhuma. Improvável é verdade. Mas sabemos que a violência psicológica em vários momentos foi maior que a física. Os vigias eram ínfimos, já que uma fuga não levava a lugar nenhum. Toda a Sociedade comprara a ideia Nazista.

O erro está principalmente na falta de elaboração de alguns personagens. O pai do garoto não consegue (roteiro e intérprete) nos passar aquela sensação de dubiedade tão necessária ao filme. O empregado judeu (Pavel) soa-nos caricato demais e seria improvável que estivesse trajado daquela forma diante deles na vida comum que levavam. Era necessário que tudo soasse dentro da mais perfeita normalidade para a Sociedade. A polidez hipócrita é que marcava o Regime dominante naquela época. O pai amoroso escondia dentro de si o algoz frio e irascível.

A mãe e a sua ingenuidade também está mal resolvida. Mas ao menos a atriz (Vera Farmiga) acreditou no papel e o torna crível. O mesmo se dá com Amber Beattie no papel de Gretel e seu relacionamento com o Tenente Kotler. Rupert Friend faz um papel já conhecido de todos, o do jovem cooptado que se fanatiza com o que lhe é pedido, a ponto de querer provar a todo o instante que é mais nazista que todos.Infelizmente explora-se pouco personagens como Pavel, que serviriam para dimensionar bem o horror que se escondia atrás da cerca. Ao final da projeção temos a sensação que tudo se deu de maneira mecânica e abrupta. O que não se perdoa é a forma mecânica demais. Um final abrupto e inusitado até vai. Fiquei com a impressão de que não souberam construir o desfecho. Caberia ali uns 10 minutos a mais, estivesse a frente da produção um diretor mais feliz e um roteiro mais elaborado. O material era bom (por qual Diabos não rasparam a cabeça de Gretel e Bruno devido a piolhos como no Livro? ) O material era bom. A execução do que vimos nem tanto. De toda a forma um filme a se ver. Qualquer obra que venha a manter tocando um alerta sobre o que se deu é bem vinda. Mesmo essa que tinha potencial para se tornar algo bem maior do que o que foi projetado. 


Escrito por Conde Fouá Anderaos

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

A Caça (2012)



“Lucas tem mais de 40 anos. Ele é um professor deslocado de sua função, recém saído de um divórcio, vive sozinho e busca reconstruir sua vida. Trabalha como assistente em uma escola infantil. Começa um novo relacionamento e tenta trazer seu filho adolescente para perto de si. Tudo parece se encaminhar bem, até que uma pequena mentira surge. E ela se espalha com tamanha virulência que outras são criadas para fortalecê-la. O estupor e a desconfiança se propagam na pequena comunidade desencadeando na histeria, obrigando  Lucas a se bater para sauvar não somente sua dignidade, mas também a sua própria vida.”
Um filme que certamente deve ter causado muito barulho. A causa? O fato de seu diretor ter optado por uma narrativa onde não vigora a incerteza sobre o fato que desencadeia a trama. E assim uma leva razoável de pseudo puritanos devem ter se incomodado com o fato de suas certezas terem sido abaladas. É possível que uma criança minta? É possível que induzamos uma criança a mentir? Sem nos preocuparmos com as respostas (que devem ser respondidas diferentemente e não de forma categórica por cada um de nós) o filme ousa ao pretensamente nos manipular. Ao sabermos da inocência de seu protagonista desde o início, passamos a sentir na pele as possíveis incertezas sobre o futuro. Lucas é inocente, mas uma vez lançada à bola de gude sobre a montanha encapada de neve, a bola formada foge do controle. É o que o filme nos mostra. E o pior, a tomada final nos dá a clara dimensão que não existe remédio para corrigir o mal feito.


Outros filmes já se debateram sobre os rumores que desencadeiam em histeria coletiva. A Caça, no entanto, ousa ao se alicerçar sobre um tema tabu: Pedofilia. Tabu absoluto do mundo contemporâneo ele acaba por sacralizar o discurso infantil. E ao optar por nos desvendar o protagonista quando do início, dá-nos a falsa impressão de sermos reféns de sua narrativa. Ou seja, ao menos na Sessão onde vi o filme, a manifestação da platéia quando da reação do protagonista a agressão sofrida no Supermercado foi de apoio. Ou seja, de tão bem realizada, o espectador sem se dar conta incorporou-se a uma matilha, tal qual aquela que persegue o protagonista. Passada a projeção, quantos se deram conta de tal verdade? Poucos. O final sem solução é que deve nortear nossa mente sobre o que vimos na tela. A Caça não visa dar argumentos de defesa a pedófilos e nem desmuniciar os que os perseguem. Ao contrário, faz-nos refletir sobre as ameaças que pairam sobre a Civilização. Todas nascidas dos desequilíbrios humanos. E a necessidade que todos têm de verem materializados seus maiores pesadelos nos outros. E como reflexão: Não foi a criança violada quando seu irmão mais velho (e idiota) a perturbou com algo que foge de sua compreensão? E os meios de comunicação não realizam isso todos os dias, diante das barbas das famílias incapacitadas de maior compreensão. Temos capacidade de lidar com isso?

O filme além de uma primorosa fotografia de Charlote Bruus Christensen, um roteiro bem costurado de seu diretor e Tobias Lindholm, traz-nos interpretações precisas de todo o elenco com destaque a um Mads Mikkelsen em estado de graça (a melhor interpretação do ano) que sepultou de vez o velho ditado de W. C. Fields de que crianças sempre roubam a cena (Annika Wedderkopp funciona a mil maravilhas, mas não o ofusca). Para mim a grande surpresa de 2012.

Escrito por Conde Fouá Anderaos

terça-feira, 12 de novembro de 2013

O Samurai (1967)





“Não há maior solidão do que a do samurai, exceto talvez a solidão do tigre na selva”
Bushido, O Livro do Samurai


O samurai é uma criatura que habita um mundo diferente. O samurai é um ser que busca erudição, perfeição, honra e moral. É uma criatura leal, disciplinada e muito rigorosa, ao mesmo tempo também é habilidosa. É, apesar de um “soldado”, um guerreiro, também é mais do que uma criatura violenta, é uma criatura diferente, que precisa ser observada. É uma pessoa que convive com o certo e o errado desde o princípio, desde que o mesmo nasceu. Da infância até a fase adulta. São seres solitários, que apesar de “extintos” do mundo, ainda vivem por aí rondando grandes capitais, ali e aqui.

É disso que Jean-Pierre Melville se apropria para criar O Samurai(Le Samouraï,1967). Melville busca através do estilo noir que muitos filmes se apropriaram na década de 40 como Relíquia Macabra(The Maltese Falcon,1941), para dar identidade à um personagem rodado na sua história, com uma verdadeira carapuça samurai em todos os sentidos, mas vestido e escondido. Através disso, cria uma película tão perfeita e única que marcaria para sempre a história do cinema, burlando as regras do noir, criando um dos personagens mais famosos(e bem atuados) e principalmente marcantes, com um jogo de cenas e cenas, filosofando ao mesmo tempo que conta a história, para nós, o espectador.






A história, nos trás Jef Costello(Alain Delon), um assassino perfeccionista e totalmente rigoroso. Não é apenas um assassino perfeccionista, ele é um gênio e sempre consegue escapar com facilidade de suspeitas e principalmente manipular com toda a sua inteligência. Mas quando o mesmo, é subestimado a matar um homem, em um bar acaba errando o plano e deixando pistas para pessoas que estavam presente no bar e desconfiaram, como Valérie(Cathy Rosier). E a cada vez que a investigação policial vai aumentando de proporção, Costello vai cada vez mais se complicando, não só com a polícia, mas também com os criminosos que encomendaram o homicídio.

Desde já, Melville encabeça ao espectador, proporções muito diferentes. Jef Costello está desta vez em perigo muito grave, mas é com as jogadas de câmera, rápidas cenas e a expressão que Melville dá a entender ao espectador quem é a personalidade do filme. Todos os ângulos são filmados com uma perfeição muito peculiar, onde se focam as faces. Usa da ausência do diálogo para usar a linguagem corporal como objeto mais utilizado no filme. Nada escapa da câmera de Melville, tudo é tão bem retratado que fica difícil enxergar algum erro. Os encantos da personagem, são transmitidos também através da linguagem de Melville sempre trabalhada durante todo o filme para que o seu estilo criativo seja criado a partir de um outro já muito consagrado, o noir.


A cidade é um retrato triste e feio. As câmeras de Melville captam isso a todo momento, é impossível não reparar, como também é impossível não reparar como a personalidade de Jef Costello é bem trabalhada e usada. É uma figura simples, típica de filmes noir, usando um belo sobretudo e um chapéu muito bonito, mas através disso tudo é um gênio do crime e mais do que isso é uma inspiração e uma criatura que vive filosofando, e uma criatura que procura um lugar para habitar e se sente distante da realidade, toda hora e todo momento os elementos de Melville são totalmente simbólicos, como a moradia de Costello, aquela figura tão pop e “perfeita” aos moldes de um assassino, como também seu pássaro, que é o seu único companheiro que apesar de estar sempre com Costello, assim como ele, está preso em uma gaiola e incapacitado de voar e se sentir livre. Costello, não é bem uma personalidade que busca uma liberdade em si, mas sim, viver em uma realidade melhor para ele mesmo e sem tanta podridão. Claro que o mesmo faz trabalhos sujos, mas perto dele, Costello os torna como obra de arte e não apenas o trabalho maçante de toda hora matar pessoas.

Apesar do silêncio de Costello, toda hora ele nos diz algo muito relevante e totalmente dentro de sua moral. Costello é uma personalidade tão forte e especial que precisaria ser analisada a parte se quisesse ser compreendida. Já Melville, deixando todo esse trabalho para Alain Delon retorna também na cidade, pois aqui, sua homenagem ao noir não se trata bem de um roteiro ou super produção que tende a mudar definitivamente o gênero com sensacionalismo ou algo, mas sim que através da mesma torna possível ao espectador enxergar a visão de um assassino típico de filmes noir na sua arte de matar e filosofar. É com esses e outros ângulos de visão que Melville nos encaixa que também podemos ter a visão de uma sociedade frágil e pobre apesar de pop e descolada, bem como os moldes do bar onde Jef Costello assassina a vítima que o daria mais prejuízo na sua carreira até então, lembra o bar de Casablanca(idem,1942) tanto pela presença de algumas personagens como Robert Favart com um traje bem típico, a super lotação e principalmente a peça que envolve Jef Costello, Valérie.




Claro que com tudo isso, Melville não poderia deixar de usar a ironia para criar o seu estilo dentro do noir. Sendo assim, Melville, usa praticamente todas as contradições ou pelo menos as “regras” que fariam um filme noir e só deixam ela mesmo no roteiro, e usa praticamente tudo de forma diferenciada, bem como, o uso do branco-e-preto nos filmes noir eram um dos elementos típicos e exatos para criar um filme do gênero, já aqui o mesmo não utiliza, muito pelo contrário, apesar de usar o cinza e o tom mais escuro como representação da fragmentação e decadência da sociedade atual na cidade e nas próprias roupas de Costello, Melville se utiliza das cores para mostrar de forma contemporânea e pop brincando com esse tom cinza tão forte. Obviamente, Melville não poderia deixar de usar algo, além das paisagens que brincam com o existencialismo e a arte atual com tantas tonalidades e cores como a decadência moral da sociedade, sem algo de fundo para ajudar a dar o toque. Melville, apesar de usar muito do silêncio e dos diálogos rápidos e geniais, também se utiliza dos sons da cidade, da inquietação de Costello e sua manipulação falhada com a pianista Valérie, na qual o mesmo acaba se sentindo atraído(ou não), do seu prazer e seriedade, rigor em matar por dinheiro. Tudo isso são elementos muito importantes, claramente, mas o uso da trilha-sonora clássica com alguns toques estranhos de suspense ou de ação, pouca vezes usados, mas quando usados, são perfeitos, assim como acontece muito semelhantemente à uma obra posterior, Laranja Mecânica(A Clockwork Orange,1971)

Os traços da perfeição de Melville, não param por aqui. O uso desta filosofia de um jeito tão especial e natural, nos faz lembrar do clássico Bande à Part(Bande à Part/Band of Outsiders,1964) na qual também se trata de uma homenagem aos clássicos americanos, só que nesse outro caso, dos filmes de crime estadunidenses, que mesmo assim, também ainda pega algumas pontas e ritmos dos filmes noir, mesmo que não especificamente. Os dois, tanto a homenagem de Godard e Melville conseguem captar com precisão o intenso amor juvenil, um cenário metropolitano decaído seja por crítica seja por estilo. Mesmo a obra de Melville, ser totalmente rica na sua personalidade, na sua ampla criatividade e impulso de tudo o que é bom do noir em uma única película e entre outras coisas, e quase impossível não notar semelhanças entre obras-primas tão ricas e cheias de inspiração.

Melville é completo em sua obra, consegue captar tudo e usar da filosofia que parece tão distinta da realidade que vivemos hoje em dia(sim, é um filme que consegue ainda ser atemporal), com o ritmo delicioso e divertido do noir americano. O samurai, não é apenas um filme noir, ou um filme homenagem aos filmes noir, é mais do que isso é um entorno sobre essas identidades é uma história que se apropria da crítica e da arte cinematográfica para se criar e convocar o que a de melhor no gênero e em uma junção explicar essa arte, tanto da de Jef Costello, como a de quem ama o cinema, ama o noir em um enredo simples e genial, cheio de símbolos, criações e um novo modo de cinema criado a partir de um cinema, a poesia se encontrando perfeitamente, palavras são quase impossíveis de descrever a grandiosidade(que se compara à da cultura japonesa, que inclusive tem total influencia na conjugação de Melville sobre obra-prima, tão magnífico quanto é o Bushido para os samurais), mas apesar de tudo a tela é capaz de descrever impecavelmente e mais um pouco e fez isto em um dos melhores filmes que o cinema já pode ver.


quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Gran Torino(2008)



Gran Torino(idem, 2008) é com certeza um dos filmes que mais chamaram atenção na útilma década. Que Clint Eastwood retrate uma história que de maneira ou de outra simbolize um panorama de sua própria carreira é apenas o primeiro passo. Quando o famoso carro da Ford, tão conservado e defendido pelo seu dono(um americano que diga-se de passagem, bem sofrido) é quase roubado por um menino Thao Vang Lor(Bee Vang) é ponto inicial da partida, que Eastwood vire as câmeras para diversos assuntos e temas desenrolando principalmente na relação entre o velho Kowalski e o jovem oriental.


O cinema que Clint Eastwood vem fazendo, não de seus clássicos como Os Imperdoáveis(Unforgiven, 1992), mas sim dos últimos 10 anos, Sobre Meninos e Lobos(Mystic River, 2003) da um gás possível para entender melhor sua situação, um cinema humanamente simplório porém fundado em feridas que voltam a sangrar e perturbar, um cinema que trata de memórias que mais parecem cicatrizes. Não menos, o velho americano interpretado por Clint, sentado em sua casa(bandeira americana içada, cores brancas...), patriota da nação é cutucado por especificamente um inimigo a que já estava próxima durante a segunda guerra mundial, o povo oriental.

A arrogância da personagem de Clint é algo único, principalmente por que nem mesmo o passado explica tal revolta, e começa assim o primeiro diálogo dele com o espectador, o sofrimento da guerra. O monstro, que talvez não tenha tantos ataques emocionais expostos(isso por que o conservadorismo bata tanto ou mais alto em sua cabeça). É dessa ignorância aguda que o personagem “pré-histórico” vive com seus medos e se aproxima deles, um povo que entende mais dele que a própria família, que tenta devorar sobre tudo pegar sua herança, e não aquela que os três rapazes(algo que Eastwood gosta de explorar) veem, documentos de guerra e registros sobre, mas sim dentre outros bens, o velho Gran Torino, título do filme e outro assunto.



Gran Torino, que carrega todo esse peso e cobiça, é principalmente um dos objetos-chave ou o principal retorno ao passado, tanto na época em que trabalhava na Ford quanto a guerra, um símbolo do conservadorismo dos bons costumes. Mas com certeza, não podemos negar que é a riqueza que mais presa porque os registros e a arma guardada em sua velha e armazenada, pulam ao salto de oposição e desarmonia, do soldado ensinando um jovem oriental ao mundo.

Que Thao seja “educado” pelas regras de uma nova sociedade a qual ainda não aprendeu a viver, é no mínimo incomum vindo principalmente de parte de um homem ressentido, mas talvez as sequências mais deliciosas, poéticas e filosóficas do filme, viajando para um eu interior e uma lição pura e bem filmada, peça-chave da carreira do diretor.

Do bang bang até as aventuras, encostando diversas vezes na religião, Kowalski é Eastwood e Eastwood é Kowalski principalmente em um dos maiores fatores discutidos e abordados delicadamente em Gran Torino, a maior lição que o tio Clint tem para ensinar nesse testemunho maravilhoso, é além dessa questão de vida ou morte sempre tratadas como extremos, e verdadeiramente algo que o cinema precisava, algo rico e limpo. É padre de 20 e tantos anos querendo discutir vida, menino de 18 ou 19 anos roubando, gangues se aproveitando e mesmo assim ainda não aprenderam algo valioso sobre a vida, que se baseava principalmente no meio dessa equação a qual Clint vem mostrando, do horror a comédia e da aventura ao drama, algo que por muitos, se passa pouco nítido, assim cabe a experiência falar mais alto para que esse patamar seja descoberto, passando mais dessa espontaneidade tão presente e ignorante, assim demonstrado do velho ao jovem, da velhice a juventude o fruto da vida, que dentre várias experiências, pode ser dirigir um Gran Torino na rua sob o sol.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Artesãos da Fotografia X

Jack Cardiff (1914 - 2009)



Jack Cardiff conviveu com a Indústria Cinematográfica desde a sua infância, pois nela entrou como estrela infantil. Ficasse só nisso sua contribuição para a Sétima Arte teria sido quase que nula. Em realidade trabalhando junto aos Korda, acabou se aproximando de Harold Rosson que fora lá trabalhar e foi escolhido como Operador. Posteriormente em 1937 acabou tornando-se um Consultor da Technicolor e Fotografo. A verdade é que em se tratando de Fotografia Colorida ela talvez tenha sido o melhor. O grande problema foi que tentou a Direção por muito tempo, deixando então a composição fotográfica nas mãos de outros menos talentosos. "Sapatinhos Vermelhos" e "Narciso Negro" são tão bem compostos fotograficamente falando, que causaria inveja a pintores como Degas e Delacroix. Foi indicado 3 vezes ao Oscar: Guerra e Paz (1956), Fanny (1961) e Narciso Negro (1947). Somente com o último levantou a cobiçada estatueta. Merecidamente. Injusto foi nem ter sido indicado por Sapatinhos Vermelhos. Um pecado.


Principais Trabalhos:


                                                            Neste mundo e no outro (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1946) 



                                                        Narciso Negro (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1947)



                                                       Sapatinhos Vermelhos (Michael Powell & Emeric Pressburger - 1948)



                                             Sob o signo de Capricórnio (Alfred Hitchcock - 1949)



                                            Uma Aventura na África (John Huston - 1951)



                                            A Condessa Descalça (Joseph L. Mankiewicz - 1954)



                                                  O Príncipe Encantado (Laurence Olivier - 1957)



                                            Guerra e Paz  (King Vidor - 1956)



                                            A Lenda dos Desaparecidos (Henry Hathaway -1957)



                                            Vikings - Os Conquistadores (Richard Fleischer - 1958)



                                            Fanny (Joshua Logan - 1961)



                                            O Príncipe e o Mendigo (Richard Fleischer - 1977)



                                            Conan - O Destruidor (Richard Fleischer - 1984)




                                            Rambo II - A Missão (George Pan Cosmatos - 1985)



                                            O Mistério de 4 Milhões de Dólares (Richard Fleischer - 1987)


Escrito por Conde Fouá Anderaos

domingo, 3 de novembro de 2013

A Estrada Perdida (1997)



[ AVISO IMPORTANTE: O TEXTO A SEGUIR POSSUI COMENTÁRIOS REVELADORES SOBRE A TRAMA DO FILME(SPOILERS), RECOMENDADO APENAS PARA QUEM JÁ VIU O FILME ]

David Lynch é com certeza um dos maiores cineastas que o mundo já viu, que infelizmente a crítica nem a bilheteria escutam falar muito mas que com certeza faz parte de um revolução cinematográfica onde seu cinema mais pessoal impossível, não só usa características distintas de típicos filmes hollywoodianos, mas que também usam a favor de si um quebra-cabeça único onde nada pode ser tudo e tudo pode ser nada, um mundo de ilusões, de fantasia e de realidade e se tem um filme que pode provar essa grandiosidade é com certeza é o seu décimo filme, A Estrada Perdida(Lost Highway,1997).

Com todos os seus defeitos e qualidades, à uma coisa que sempre gosto de ver nos filmes de Lynch, é que tratam bem a fundo a mentalidade de seus personagens bizarros e neles criam um portal para que lá o espectador possa viajar dentro da câmera surrealista(sim, com certos toques de Buñuel) e até mesmo tridimensional. Desta porta que Lynch abre para o espectador, qualquer atenção é pouca, os olhos devem estar atentos e principalmente a lógica para decifrar um enigma não menos que genial, onde Lynch não se contenta e deixa sérias cenas fortes na qual podem afetar até mesmo o espectador mais forte. Mas o fato que estamos tratando aqui, é, por que A Estrada Perdida(Lost Highway,1997) é uma obra-prima?

A OBRA-PRIMA

Fred Madison(Bill Pullman) é um saxofonista, não muito conhecido mas que vive muito bem em uma casa muito boa com a sua única parceira, Reene Madison(Patricia Arquette). Mas quando misteriosas gravações são enviadas para a sua casa o casal fica intrigado e assustado. Chamando a polícia e nada resolvendo, ainda assim preocupados, vão à uma festa, onde lá encontram com um Homem(Robert Loggia) na qual fala com Fred e deixa o intrigado. Quando de volta para casa, as gravações começam a ficar mais próximas(agora não só gravando externamente sua casa, mas como internamente) e Fred começa a ter pesadelos sob a morte da sua mulher. Com isso, acaba sendo preso, sem motivo explicado, pela morte de sua mulher. Na prisão, Fred tem fortes dores de cabeça e quando um certo dia, percebem que Fred não está com a mesma aparência, mas sim com a de Pete Dayton(Balthazar Getty) e também com a mentalidade do mesmo.

Deste ponto de partida é que Lynch começa realmente a sua história. Sua trilha-sonora pesada(sim, com a aparição até de Marilyn Manson), é que Lynch cria o inferno em cima de Fred Madison, com certas ligações fortíssimas, aos personagens e com tudo e todos os elementos que o mesmo aparece durante a película com ainda o belo uso da energia, na qual Lynch é aficionado. As dimensões e ângulos de câmera são os verdadeiros responsáveis pelo verdadeiro terror que não só existe mesmo na mente do personagem mas como também na mente do espectador. Tudo é sombrio, sádico e nada parece fazer sentido, quando na verdade, a última peça se encaixa e tudo e todas os elementos e artefatos postos no filme formam um quebra-cabeça genial.



A câmera de Lynch é sempre insatisfeita e procura no escuro de tudo, mostrar um suspense ao espectador, que mesmo que o filme não traga bichos, lendas ou qualquer coisa amaldiçoada do tipo, mas sim a sua trilha-sonora pesada ou a ausência dela, da um toque maravilhoso, bem como as fitas, em que Fred põem chuviscam de forma estranha, que se não são estranhas, pelo menos dão essa sensação horrorosa para o espectador



O monstro de Lynch, existe, o monstro é o protagonista, mas de fato ele se sente vítima e até mesmo o espectador pode sentir isso, vivendo essas emoções vindas da mente de um psicopata e transmitidas para a grande tela do cinema, mostrando toda a sua força e poder. É o pensamento que um psicopata poderia ter, a criação cômica, que não só ele mas todos criam pelo menos uma vez na vida e que aqui são provadas que podem se tornar até mesmo filme. Os símbolos estranhos e elementos bizarros que representam o horror, amor e terror. Mas o fato é que apesar das emoções não refletirem muitas vezes a realidade, são totalmente verdadeiras, tal qual a emoção que o espectador sente ao viajar por essa Estrada Perdida(Lost Highway,1997)que é o símbolo do que é o cinema, do que é o pensamento, a psicologia, lógica, surrealismo e principalmente realidade, é uma vida. É o fim eterno.


O MISTÉRIO

A verdade, é que Fred Madison é na verdade a verdadeira pessoa que matou a esposa, mesmo que isso pareça uma manipulação que aquele Homem Misterioso, tenha feito, essa é a verdade. Todos os personagens que Fred cria dentro de sua mente são mudados da forma como Fred bem deseja. As verdadeiras dores de cabeça que o nosso protagonista tem é a força da realidade tentando puxa-lo e acabar com suas emoções fortes dentro de sua alucinação. A partir do ponto em que Fred entra na vida de Peter, que na verdade é uma personalidade toda criada aos moldes do mesmo que tem um certa visão muito, muito cinematográfica, bem como, os personagens que vivem junto com ele nesse universo parelelo, lembram personagens de filmes de gângsteres da década de 80 e 90, e isto é apenas uma das jogadas geniais que Lynch põem na cabeça do espectador e serve para o mesmo desvendar uma vez que tudo aquilo se distancia muito da realidade, tanto como sua perfeição como o seu molde cinematográfico.

Mr.Eddy/Dick Laurent é nada mais nada menos que a representação cômica do medo e o medo da tentação, que era matar a sua esposa, transformados em um personagem de filme gângsteres. Mais do que isso, Dick Laurent/Mr.Eddy é também a representação masculina forte de homem na qual Fred pensa que estava tendo um caso com a sua esposa, Reene Madison. Mais ainda, a paixão que Peter(Fred em sua tentativa de mudar de vida, de identidade) tem com Alice Wakefield, representa também a tentação de matar a esposa, sendo assim, Mr.Eddy/Dick Laurent é nada mais nada menos que a barreira que cuida para que Fred não caia nessa tentação, e Alice Wakefield é a isca que está junta com o mesmo e tenta fazer com que Peter caia nela.

Ao cair na tentação, o que podemos ter em mente, feito por isso, é que Lynch na cena onde Peter acaba por cair na tentação, no pecado, na sedução do amor de Alice Wakefield, cai também, na tentação e mata a sua esposa, é provado então de que Reene foi sim uma vítima assassinada brutalmente por Fred e ao passar do tempo, como vemos Alice de “santinha” para “demoníaca”, é o inferno em que Fred Madison sentenciou para si próprio. E onde vai piorando que prova mais ainda a sua insatisfação depois de matar sua esposa(que realmente o traíra), onde o mesmo delira. Assim quando Peter vê as imagens sensuais e de sexo que a mesma fazia, uma vez que ela revela sua participação pornô nos filmes de Mr.Eddy/Dick Laurent, é também a prova da raiva e do ódio que o saxofonista, Fred, está tendo, bem como o inferno que o mesmo sente, colocados de forma simbolizada em Lynch como o sexo sem amor, o fogo e falta de confiança que Fred tem em Alice Wakefield.





Já o homem misterioso, que persegue e tende a só dificultar a vida de Fred, é a representação também cômica e ainda mais viável para a plateia do medo, já que todos temos uma concepção dele como uma pessoa bizarra e ainda mais do que isso, representa não só o medo, mas sim na concepção de Fred, pois ele na verdade é a realidade, que para Fred não é nem um pouco bonita e nada agradável. Ela é a peça que mexe em tudo, tanto que ela ajuda somente uma vez a Fred 
 matar Laurent(o que explica também a cena do fim e do começo onde avisa-se que, Dick Laurent morreu, logo a o medo de matar morreu e assim está avisado de que Reene Madison morreu), mas não tinha realmente algo para fazer no caso, uma vez que Mr.Eddy/Dick Laurent é o medo de cair na tentação que já foi quebrado antes quando Fred, no corpo de Peter teve um caso com Alice Wakefield. Os diálogos sensacionais, são um deles que fazem a parte seu show de mostrar a realidade junto com o homem misterioso pois sem alguns diálogos intrigantes e verdadeiros, como de Alice Wakefield falando que Peter(Fred) nunca vai o possuir e principalmente os milhares de diálogos e insinuações de o homem misterioso, que é a realidade fundida com emoções que Fred não consegue controlar(convicção, raiva, ódio), e com elementos que Lynch põem ajudam ao vilão misterioso(com certeza um dos mais intrigantes do cinema), como a eletricidade e a estrada(a cadeira elétrica se aproximando e a estrada perdida, que é o fim de tudo e um caminho onde Fred se perderá para sempre e sofrerá pela eternidade). Onde tudo isso não caberia em uma palavra menos que genial? Um mundo único onde as emoções viram moldes físicos com perfeição e genialidade, onde somente vivendo essa experiência que somente o cinema poderia proporciona daria para explicar.

CONCLUSÃO

Tudo isso fica claro, e os símbolos, não menos que geniais representam uma lembrança que o psicopata, Fred Madinson está tendo, mas de forma na qual ele gostaria que ocorresse. Mas o fato é que as emoções se tornam tão fortes, que apesar virarem personagens, esboçam de fato verdadeiros sentimentos tanto do psicopata, quanto do espectador, e são transmitidas de fato tão incomun, pessoal e de forma tão magnificamente movida pela câmera experiente de Lynch que viajamos em mundo de possibilidades, em uma mente que só poderia ser transmitida por Lynch. Afinal, ele é que é o verdadeiro louco da história.





Lou Reed - Alguém a ser descoberto

Hoje, dia 3 de novembro de 2013, completa uma semana da morte do músico Lou Reed. O mais engraçado dessa história é que a uns 3 meses atrás, lá estava eu sentado no meu computador colocando o albúm revolucionário “Transformer” pelo youtube para tocar. É claro que é impossível falar de Reed sem citar a revolução artística de Velvet Underground é como falar de Picasso sem falar do cubismo. E exatamente essa comparação é essencial por que voltando ao passado, é possível ver até hoje a polêmica que o nosso poeta e sua banda causaram com um dos mais revolucionários álbuns de todos os tempos, “Velvet Underground and Nico”, onde tudo começou.
                                                                    
Nico(Christa Päffgen), anagrama de ICON também produzida por Andy Warhol, foi uma das introdutoras da banda no começo, “o albúm da banana” é com certeza algo que alavancou a banda por que se Heroin, que creio ser a música do albúm mais controversa, fez sucesso na voz de Reed, Femme-Fatale já não combinaria tanto com o senso e o teor da música, mas é importante dizer que mesmo assim sua voz serviu para músicas bem sensoriais mesmo no cinema com David Lynch. O que se sente com Sunday Morning é uma calmaria enquanto o que se sente com The Black Angel’s Death é essa poesia mortal em um violino cortante e adequado para acompanhar a voz de Lou, mas a única conclusão possível e tirar disso é esse modernismo experimental e inédito fiel das obras de Warhol.

É essencial também discutir que o fracasso do último albúm a qual Reed participou, “Lulu” com a banda “Metallica” foi de certo modo coerente,  aquilo que Reed tinha feito com sua banda em anos atrás era totalmente experimental e praticamente cantava poesias de, dentre vários poetas e escritos, nada mais nada menos que Allen Ginsberg. Por isso “Lulu” é de Reed não do Metallica, simplesmente por que a um avanço maior em Reed que permite que a maioria dos fãs como disse a Metal Hammer:  “ignoraram Lulu – e irão ouvir Master of Puppets”.

Lou Reed no Velvet Underground e fora do Velvet continua a mesma pessoa, porém é importante acentuar, maldição ou não de seu talento é preciso ter algum contato coerente com músicos que cantem/toquem, Heroin como Heroin e não uma Femme-Fatale  como “One”, outro fator importante que para mim tenha sido o fracasso de “Lulu”. É em “Transformer” que a característica própria poética, roqueira e underground que Reed consegue  provar essa beleza rara que é sua música, tanto que seu trabalho foi “dividido” com uma das poucas pessoas que considero a altura, não diminuindo outros músicos mas sim em questão de estilo, a trabalhar com Lou, o nosso Bowie.

Falando em David Bowie, a sonoridade de “Heroes” tem um toque tão especial quanto “Venus in Furs”. Lou Reed fez alguns trabalhos que com certeza são os mais desafiadores que já vi, dizem que ele fez algumas músicas drogado, e não duvido, mas esse poder sensorial dos “filhos” de Andy Warhol estará com certeza sempre no coração de qualquer um que queira descobrir sons e experimentar poesia e artes plásticas, por que costumo dizer que mais do que completo Lou Reed é praticamente um ser de outra terra, associar poesia no cinema é um meio mais fácil de se atingir e o público ainda que não o maior, já é estabelecido, Reed, já associou música a todos os tipos de arte e fez a sua vida toda diversas músicas poéticas.


Se Reed foi-se, sua música ficou, e desse plano saiu para um melhor guardado para pessoas com ele. De Femme-Fatale a Vicious  o mundo pode sentir com ele um experimentalismo único na música por alguns anos. E hoje eu posso dizer que quando descobri Lou Reed, foi aquilo né, "This Magic Moment".

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Terror nas Trevas (1981)




É vulgo e natural que a profecia imprimida por Fulci e especialmente puxe as emendas, hoje não tão influenciadas, mas sempre presentes, se torne um espetáculo sobrenatural ao espectador de Terror Nas Trevas (E tu vivrai nel terrore – L’ aldilà) principalmente por que este toma, o que sempre foi retomado em filmes e de onde nunca se soube a origem. A origem dessa profecia mal assombrada, não da específica, mas a do mesmo mal, se vire para Fulci. É na mesma casa típica americana, que foi criada, certamente, em termos de tema, sem nenhuma diferença ao mal imprimido nas histórias de todas as artes mais tarde, porém é a Fulci que devemos temer.

Terror Nas Trevas(E tu vivrai nel terrore – L’ aldilà) memoriza que o som e a imagem dentro do cinema são os mais fortes e capazes de potencializar a força de um enigma monstruoso, principalmente, diabólico, por que este já não é mais parte de alguma dúvida a qual não podemos confiar certamente, mas sim de um fato concreto que estamos prestes a cair e só podemos andar correr gritar, reclamar e temer mas jamais fugir. É claro que o gore de Lucio é com certeza a marca que, principalmente nos dias de hoje, seja a ponta essencial de sua força, mas é de não confiar na certeza de um plano físico real ou não e procurar por respostas (cuja busca, é a mais determinantemente maior).


Lucio Fulci prefere acreditar que o tal fenômeno produzido pelo tal enigma, que provavelmente seja a 
procura mais objetiva, e não da força que o produz ou o modo como se faz, mas apenas saber e finalmente domá-la, algo a qual o ser humano esta sempre trabalhando para fazer com os seres e efeitos com que convive, seja o próprio cinema que em sua cena final de Terror Nas Trevas(E tu vivrai nel terrore – L’ aldilà) define tão bem a busca final e intensiva à um resultado a qual estamos destinados e apenas a este podemos confiar a certeza de que ocorrerá de maneira ou de outra.


Afim da loucura que apossa a mente, Fulci acredita provocar a loucura emitida pelo mais belo mindfuck, em cortes de momentos para outros, faça com que o mundo se torne a alegoria das mais estranhas e bizarras já vistas e ao mesmo tempo seja insignificante quanto ao seu mal. Na fé e na estrutura que cria-se um corpo, um ser humano, capaz de raciocinar, amar e temer(elemento a qual explica o sentimento de tudo diante do ser humano e dele mesmo diante do que é incapaz, papel que contradiz e que sempre irá contradizer). Por isso a fé em algo seja a “explicação” que Fulci de a essa assombração ocorrente, mais forte do que o choque da morte de Arthur(Gianpolo Saccarola) ou de tantos outros empregados da maldição hereditária que se segue.

Do poder da imagem, é capaz de demonstrar a matéria guiadora, a ambição e o desejo, principalmente em forma de sonho, só teremos nós para quebrar corretamente o ciclo da dúvida que percorre os sangues desde os antepassados, ainda que essa alma punidora sem forma absoluta, apenas a que nos pertence, nos tema.

O som de Lucio Fulci soa como música, porém é da mixagem dessa arte monstruosa, arte da realidade, violência, gore, cinema de terror, que cresce a alma de Liza(Katherine), e na pulsação da salvação esperada, de uma violência sem rumos inabitável no mundo real, apenas coerente dentro da arte das artes, o cinema. Pois Liza é apenas uma habitante de um mundo utópico e inviável em um vilarejo, como nas velhas histórias, mas mais do que nunca, é um pessoa que transpira o suar de quem transpirou nos horríveis mitos de terror as quais remetem principalmente a aquele outro ser que vivenciou os horrores antigos, e vivenciara novamente.

Na beleza do plano-sequência, nasce novamente o mal que atormenta a frequência do que seria capaz para o impulso de um ato de violência, ou mesmo da podridão. Apenas o mal só interfere quando está predestinado a matar a alma em que habita e não apenas ao que lhe é alheia. Por isso que a morte de uma mãe, literalmente, para dissecar os males da crueldade, precisa morrer para Fulci diante de sua obra-prima e à filha lhe restar à cegueira de quem não quer ver e de quem é cego pela loucura que antes lhe era inexistente. Por isso essa hereditariedade, essa obra maligna profunda dos antepassados, da tormenta, do mais primitivo ser atrás das sombras. Perde-se o espírito. Todos são cegos, apenas foram transformados literalmente.


Terror Nas Trevas(E tu vivrai nel terrore – L’ aldilà) é sobrenatural, o normal cinquenta vezes mais cru exposto em tela, mas em sua explicação tão sanguinolenta e crua, representa a forma mais bonita de se ver o que vivemos ou que passáramos pela vida, reduz a forma da frágil criança inocente, porém totalmente raivosa, em estado inabilitado e inútil, que o sangramento dos olhos de quem caiu, da pele de quem foi perfurada e do pescoço de quem foi rasgado, não irá escapar. Somos criaturas horríveis e encontramos outras que pertencem a mesma classe de monstruosidade, apenas esta não resta a sutileza, mas sim o que enfrentará quando for finalmente encontrar o que já é predestinado e certo. Na realidade, e principalmente no sonho, não teremos a mãe para nos salvar, em qualquer circunstância e desse pesadelo, o “bicho-papão” atrás de nós, debaixo da cama e a espreita aparecerá, sem cerimonia e todo mal será realizado, e o terror da falta de consolo para enganar e mentir de que não exista esse mal, essa provando também que a maldade também pertence mais ainda aos humanos, recorremos a Argento em  Prelúdio para Matar  ( Profondo Rosso, 1975 ) e para enfrentar essa falta, e finalmente encarar tudo, à Fulci em Terror Nas Trevas(E tu vivrai nel terrore – L’ aldilà) E quando não encontrarmos mais refúgio e nada, enfrentaremos o inferno, o terror.

Sobrenatural (2010)


Quando saíram os primeiros anúncios e comerciais sobre a divulgação de Sobrenatural(Insidious, 2010), confesso que fiquei ansioso. Ainda desconhecia Atividade Paranormal(Paranormal Activity, 2007)[belo exemplo de filme semelhante, mas de resultado diferente], que tinha na posição ao lado do filme que já conhecia na infância, Jogos Mortais(Saw, 2004). Depois de 3 anos de seu lançamento e prestes a lançar a sua sequência aqui no Brasil, o filme de James Wan, um cineasta interessante de se observar e que certamente precisa de certo foco no histórico atual de Hollywood, principalmente pelo seu gênero, é certamente o filme mais inovador de alguns anos para cá.




A começar, que  essa estética que apresentava que parecia se propor, foi totalmente inferida por James Wan. É impossível não lembrar ou notar de um aspecto tanto em seu enredo como em pôsteres e entrevistas que o cineasta deu, uma certa relação com algo já estudado ao longo dessa moldura de terror, e não a muito tempo, quando A Profecia(The Omen, 1976) de Richard Donner, clássico do cinema de horror(prole de uma época rica para seu gênero) lançava a 37 anos atrás nos cinemas. Bordado por cenas clássicas e por vezes uma trilha-sonora raramente lembrada, mas que merece sua atenção, ainda soa nos ouvidos de tantos espectadores e que deu a volta ainda em 2006 com a sua refilmagem.

É tão característico o uso de certos artefatos na projeção de uma película de terror que chega a ser óbvio o uso do elemento. James Wan, um cineasta da memória e do jogo de câmeras, traz à tona um tipo essencial de terror principalmente para novas gerações que nem sempre encontram com facilidade um filme de horror  de outras proporções que não a que vem injetada exaustivamente na circulação, que nada mais é um filme cru com fórmulas(possessões, sustos grátis e um final aparentemente feliz). No filme de Wan é claro ver a influência do cinema fantástico tanta na sua ambientação quanto no seu clímax bem utilizado de forma ágil, com câmeras curiosas como sempre, mas nunca atoas, procuram sempre e vão deixando fagulhas para a revelação final e pistas para achar o menino(Ty Simpkins) que deixara seu corpo no plano real e sua alma no “Further” ou “Distante”.

Algo para mostrar a capacidade de Wan, se revela ainda mais quando durante longas sequências principalmente em seu fim, as luzes vermelhas se batem, a escuridão devora, as criaturas já “conhecidas” pelo espectador aparecem com outro ar, a envolvência entra a busca por verdade e justiça, o ligamento aos sonhos e brevemente com a religião (fator quase impossível de se ignorar). Faz crer para depois desmascara-las, navegando sobre medos, traumas e infâncias em uma viagem onde a carta principal do terror da trama passa de protagonista a antagonista revendo uma cena clara onde o mau não é meramente algo por que o julgamos assim, mas é parte de um conjunto, algo maior do que um simples ser ou algo natural. Das trevas, o cinema fantástico de terror de Wan, não é certamente uma das peças chaves para alguns aspectos do cinema de Lynch, mas sim algo que o cinema em geral precisa estudar e aprender.


Ainda que o cinema como um todo não esteja pronto para o “boom” de certas coisas “ilógicas”, é de James Wan o papel em Sobrenatural(Insidious, 2010) de reabastecer a carga de sentimentos que o cinema do malásio vem dando um impulso forte, a uma mistura deliciosa do que a de melhor na fantasia para  ser transformada em um circo de horrores, o picadeiro, o berço simplista de shows curtos de figuras malignas, desde o bicho-papão até Jason e tantas outras criaturas místicas, Sobrenatural(Insidious, 2010) fazer um misto essencial daquele ar místico que pairava nas telonas mais cruéis dos anos 80, entre elas A Morte do Demônio(The Evil Dead, 1981) até Terror nas Trevas(E tu vivrai nel terrore - L'aldilà, 1981), picando elementos figurativos e narrativas típicas para dai nascer na planta criada em toda mente do ser humano, o tão falado lobo-mau, pode ser esquecido e descartado fora, mas no mais fundo baú da mente haverá sua marca e daí, a memória e o projetor deste portal sem fim do medo.