quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Top Gêneros I : Filmes de Ficção Científica




1 – 2001: Uma Odisséia no Espaço (1968): Inicia-se a introdução na pré-história. O primórdio dos ancestrais humanos é retratado, como espécies de macacos. Ainda por se descobrir, ignoram quase tudo. Considero-me um macaco cuja linguagem se faz insuficiente para pretender, mesmo em linhas gerais, descrever um dos mais fabulosos legados para o mundo pós-moderno de todos os tempos até então, deixado pelo genial Stanley Kubrick. Daqui um tempo, netos dos netos dos nossos netos perguntarão sobre essa antiga velharia chamada “cinema!”. A explicação não é por palavras ou sons. Coloque-o frente a uma tela e mostre a ele 2001.





 2 – Fahrenheit 451 (1966): Ler faz pensar. O conhecimento liberta. Já se foi dito acertadamente que ler nada mais é que conversar com os maiores pensadores do passado. Livros, bons livros, são sempre armas, despertam uma consciência adormecida, instigam atos, transmitem idéias. Todo tipo de entidade que guarda algum tipo de poder, sabe bem do perigo da leitura. Por livros, já se transmitiu aprovação de ideologias fascistas, nazistas. Por livros, os dogmas clericais caem constantemente por terra, daí a proibição de livros ainda hoje pela igreja católica. O filme retrata um governo totalitário consciente desse poder livresco, e temeroso de que por meio dele, pessoas se rebelem. Por isso os livros se tornaram ilícitos e esta é uma lei rigorosamente fiscalizada. Quer manter uma sociedade alienada e acomodada, livre-a dos livros.  



3 – La Jetée (1962): Se um filme se constitui por imagens em movimento, então este curta-metragem não é um filme, já que não há vídeo, apenas imagens que vão sendo colocadas conforme a narração se desenvolve. O efeito, a escolha das imagens, é pensado puramente para soar como recapitulações da memória, como se o personagem – e também nós – estivéssemos buscando no fundo da mente uma lembrança quase esquecida. É como se olhássemos um álbum de fotografias antigo. Nunca antes e nem depois no cinema a memória foi tão bem representada.








4 – Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (2004): Na falta de palavras, no medo de cair em lágrimas apenas por relembrar, minha parte fica em branco. Mas deixo a melhor ilustração, poeticamente falando, que pude pensar, no “Amoroso Esquecimento”, de Mario Quintana:

“Eu, agora – que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?”






5 – Sr. Ninguém (2009): Imagine-se acordando e se dando conta de que está com 120 anos. Assim, sem mais nem menos. Você não se lembra de todo o tempo perdido. É vasculhando em sua memória que encontrará, talvez, a vida que viveu ou não viveu, ou poderia ter vivido, ou deveria ter vivido. Se teve a mulher que sonhara, se amou os filhos, se, enfim, teve ou não sentido ter vivido.  Assistir a própria vida e torcer pra não ser um filme ruim.





 


6 – Eles Vivem (1988): um dos mais memoráveis filmes, repleto de cenas brilhantes e diálogos e improvisações inspirados. Confesso que falar sobre filmes de Carpenter, como fã que sou, é pedir uma lista de adjetivos, sem hesitação; mas esse, acima de todos, considero seu melhor filme. O personagem principal encontra um óculos que lhe permite ver a realidade como ela realmente é. Qual não é a surpresa ao saber que está cercado por alienígenas, pessoas que são aparências apenas, e mensagens sem fim incentivando o que se espera de você: “compre”, “consuma”, “obedeça”, “acomode-se” e assim vai.






7 – Laranja Mecânica (1971): num oscilar de emoções incomum, criado, provavelmente para perturbar a mente e fazer pensar. Até que ponto o estado pode e/ou deve interferir no comportamento das pessoas? Quando a tênue divisão que existe entre minha liberdade e sua é rompida? Quando acaba a minha e começa a sua? São problemas complexos que, talvez, apenas mentes inquietas detectam. Claro que é preciso, antes de tudo, possuir a devida sensibilidade para decifrar a mensagem. Ser louco ajuda, também. Quem aceita passar pelo `Tratamento Ludovico`?






8 – Videodrome (1983): Outro clássico do grandioso David Cronenberg. Ficção científica, Cibercultura e pós-modernidade. Discurso cinematográfico, comunicação e semiótica. Realidade em vídeo, socioespacialização e tecnomagnética.  Live, on-line e obliterações do espaço\tempo.










9 – O Enigma de Outro Mundo (1982): Não me recordo de filme algum tão laboriosamente tenso; a receita não tem erro: jogue um grupo de seres humanas para serem devastados, cheio de sadismos, um por um. A partir de tal premissa, eleva-se a crueldade ao máximo. Ora, qual o melhor lugar? Na Antártida! Quem pode ser o inimigo? Um homem? Ou um alienígena com poderes de se transmutar na aparência das vítimas e infiltrar-se no grupo? Parece que nada é favorável. Carpenter quer porque quer exterminar os homens. Deixemo-no se divertir.








10 – A Mosca (1986): Um tanto quanto escatológico, como já fora o diretor. Mas por que bem uma mosca? Já vi muitas pessoas que sentem afeição por baratas, ratos, mas moscas? O único propósito de uma mosca é não ter propósito. Ficam ali zumbindo um barulho cuja freqüência é ensurdecedora; são oportunistas; tomam nossas sopas; têm uma agilidade, um esquivo, dignos de ganhar um oscar; não há Raid, não há havaiana que dê conta; É uma estúpida de uma forte. Como alguém pode gostar de algo assim, ou pior, identificar-se com isso? Cronenberg consegue o que poderia se supor ser impossível.





11 – O Hospedeiro (2006): Mais uma grande realização de um grande cineasta que surgiu nos últimos anos: Joon-Ho Bong .  Se o continente asiático não andava como antes, em tempos de Akira, meio esquecido pelo resto do mundo no que se refere ao cinema, está, parece, fazendo nova história. O filme nos deixa apreensivos e interessados como poucos o sabem fazer. As tramas, subtramas, subsubtramas sãos descascadas aos pouco como cebola. Trata-se de um filme situacional, de um lado para o outro, mas ainda assim, cautelosamente calculado em seu jogo. E a figura do monstro que representa um medo constante; ainda assim, não se sabe ao certo quem é mais monstruoso entre os homens, o estado e a sociedade.




12 – 4:44: Último dia na Terra (2011): Se há algum, dentro os infinitos filmes que tratam do tema batido sobre o fim do mundo, que seja realista, creio ser esse recente filme de Abel Ferrara, o diretor underground que faz os filmes que jamais seriam feitos na grande indústria de cinema norte-americana. Um cinema marginal, autoral, e repleto de uma visão outsider cru do mundo. Aqui, à primeira vista, pareceria um terreno que o diretor rejeitaria pisar: mais uma vez a historinha do fim do mundo. Mas o que se vê é uma doce subversão dos filmes com a mesma temática; todos deveriam aprender a acabar com o mundo como o faz Abel Ferrara.





13 – De volta para o Futuro (1985): Simplesmente cativante. Consegue a façanha de agradar em diversos níveis, públicos distintos, por diversas razões, e ainda assim ser simples. Ah, o que eu poderia dizer dessa obra-prima? Deixarei aqui um interessante artigo acadêmico que pretende mostrar a possibilidade de usar “de volta para o futuro” no ensina de noções profundíssimas de teoria da relatividade e conceitos de física, por exemplo, de Einstein. Fica aqui a fonte da análise da série “De volta para o Futuro” e suas implicações para o ensino da física.







14 – O Planeta dos Vampiros (1965): O diretor Mario Bava, talvez o maior diretor de filmes de terror, de clássicos italianos, um dos maiores manipuladores fílmicos de todos os tempos; ademais, é ainda hoje lembrado pelos milagres técnicos que fazia em filmagens, quando não gozava de privilégio nenhum. Fazia brotar cenas magistrais quase que por magia negra. Aqui, diretor adentra um território insólito, coloca humanos em naves e os manda para planetas alienígenas tomado por seres de estranha consciência. Bava manda o homem para vampiros no espaço, mas não deixa de levar no estoque seu talento.






15 – O Segundo Rosto (1966): A questão posta por “Seconds” é de uma profundidade psicológica quase incabível num filme. Longe de ser um mero filme de época, por interpretações que se prendem na colocação de que o filme seja uma metáfora para a guerra ali posta; mas muito mais evidente é a fragmentação do ser, numa época em que a noção freudiana de inconsciente efervescia o mundo, o que resguarda o interior, a multiplicidade do eu, tudo é fragmentação desconexa. A direção merece respeito. Filmagem excepcional, rotações bruscas, cortes loucos, tudo pensado de modo a soar como se o próprio expectador, adentra-se a pela louca câmera tremelicada.






16 – Brazil (1985): Terry Gilliam criou um mundo absurdo, rigidamente controlado por um governo totalitário e opressor; um mundo onde reina o caos e a desordem burocrática. É claro que pouco convence a trama no que diz respeito à verossimilhança. A burocracia futurística nos é estranha, mas talvez não se pudesse imaginar a revolução digital de hoje. Em todo caso, a criatividade é também um cão raivoso sem coleira, e as sutilezas no filmar são lindas. De se curvar por tamanha beleza kafkiana.








17 – O Vingador do Futuro (1990): Embora possa estar mais para um filme de ação do que para uma ficção científica, certamente é uma obra relevante a ser destacada. Paul Verhoeven já mostrara seu talento como diretor de filmes ágeis com mais ação e suores de adrenalina, tendo como principal característica sua milimétrica harmonia, seu timing, de maneira que fiquemos sempre fisgados com o enredo, fluindo de emoções para emoções nos momentos pertinentes; coisa rara, aspecto no qual muitos diretores erram a mão. A questão abordada é  mais uma vez a validade objetiva da realidade. Sobretudo, a trama intenta confundir e deixar o constante ar duvidoso do que é real e do que não é, e mesmo decidido, ainda se receia. Em suma, um filme balanceado, ora com ação desenfreada, ora com enigmas na cabeça. A história é bastante mirabolante, e tudo me leva a crer que as caras, bocas, espantos, e enfim, toda a atuação com as caretas de confusão de Arnold Schwarzenegger eram, de fato, reais. Acredito que ele não estava mesmo entendendo o que se passava, e daí atuação mais real não se poderia extrair.



18 – O Planeta dos Macacos (1968): Outro desses clássicos da Ficção Científica que logo se tornam clássicos. Tiro, porém, as conseqüências do que seria uma apreciação “imaculada” desse filme. É necessário um esforço, uma compreensão e tolerância que muitos, com certa razão, não conseguem aplicar. É que falamos de um filme de Sci-Fi dos anos sessenta. A roupagem, maquiagem, todo o design estilístico, digamos que depois de tudo que se vê na modernidade, ficam risíveis, tão patéticos – pra nossa época – que se torna difícil engolir qualquer coisa. Um bom filme, pelo menos idealmente, que envelheceu muito mal. Sem falar nas infinitas seqüências ainda mais desavergonhadas. Uma lástima.





19 – Blade Runner (1982): Opino que este é o melhor filme do diretor Ridley Scott; e o mérito menos seu que do fascínio pelo curiosíssimo plot; uma história que fatalmente notória. Aos meus olhos, nem mesmo a adoração Cult que o filme adquiriu ao longo dos anos se justifica, penso eu. Mas, ora, como poderia ser ruim um filme baseado em Andróides Sonham Com Carneiros Elétricos?” de Philip K. Dick? Escritor esse que ainda se consagraria escrevendo mais histórias de sci-fi que atrairia diretores competentes o bastante para grandes realizações da ficção científica. Por outro lado, há que se dar crédito pela concepção excepcional de uma Los Angeles que quase nos faz sentir o cheiro de chuva no asfalta, a atmosfera sedutora e misteriosa; Blade Runner é a criação de um mundo que subsiste em si.





20 – Matrix (1999): “Você já teve algum sonho que juraria ter sido real? E se você não pudesse acordar desse sonho, como saberia a diferença entre o mundo dos sonhos e a realidade? Ser o que, ser real?” (Morpheus). A indistinção entre a vigília e o sonho. A problemática da representação e sua correspondência com a verdade. O tema não é novo, nem foi tão aprofundado, mas certamente cumpre um papel importante escancarando dúvidas que cada um devia meditar por si. Outra razão de entusiasmo são as referências. O caminhante que segue qual Alice e mergulha na toca do coelho. O mito da caverna de Platão muito bem explícito. Os nomes dos personagens remetendo à características essenciais. Enfim, bom filme, que peca apenas em episódicos romances transversais, intrigas paralelas, pancadaria desenfreada e deixa de ir tão fundo quanto poderia, na toca do coelho.


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