quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Adeus, Meninos (Au Revoir, Les Enfants) (1987)




Uma mãe e seu filho em uma estação de trem. Eles despedem-se. Notas de um piano triste enlevam a paisagem; o que se vê não é o lado de fora da janela, tampouco o que ficou para trás, mas sim as feições do garoto desolado pela separação. Vemo-lo, aprisionado atrás do vidro, observando tristemente. É uma partida.  Mãos dizem adeus, mas as bocas calam-se. Os olhos se enchem. O coração aperta. É uma despedida cruel, inevitável como a guerra que estava por emergir.

No colégio interno para o qual o garoto é mandado temos uma visão clara do desenvolvimento psicológico dele e de alguns outros alunos. A guerra, particularmente, não fez tormenta ali no internato rico. É, antes, na verdade um grande subterfúgio para justificar certos eventos que se passarão adiante no filme.

Ora, o que nos comove não é o que há de geral, mas sim apreciar o prosaico em cena, os hábitos detalhadamente, seus deveres na sala, as conversas de garotos, o cotidiano, seus pequenos gigantes dilemas (pequeno, sempre, para quem não sofre), enfim, seus desenvolvimentos. Mas, diante dos fatos e eventos, o que se dá? Um amadurecimento ou embrutecimento? Poder-se-ia, sem sombra de dúvidas, defender uma certa filosofia de Jean Jacques Rousseau. Quer queira, quer não, há uma corrupção, evidentemente. E o garoto que entra desamparado no trem já não é o mesmo ao cabo.

Penso ser impossível que um roteirista atinja tamanha perspicácia no fluxo dos diálogos e acontecimentos dos meninos; porque tudo nesse universo das falas e feitos é absolutamente realista, fazendo-nos imergir na história e – se uma mosca nos distrair – passamos imediatamente a crer que tudo aquilo ali está de fato acontecendo em tempo real. É, portanto, inegável o caráter autobiográfico do filme, arrisco-me sem medo, a dizer que cada bilhete repassado, cada conta de álgebra, cada árdua tarefa e ave Maria rezada foram REALMENTE realizadas no pretérito do diretor.


 E o louvor do diretor Louis Malle está, em primeiro lugar, em rememorar obsessivamente a infância. Se há delicadeza ou sensibilidade na história, certamente não é pelas técnicas visuais ou narrativas, por closes brilhantes nas faces ou músicas grandiloquentes, mas pela própria história em si mesma, que é aquilo mesmo que é. E por isso é bela. E é arte. 

3 comentários:

João Pedro Mello disse...

lindo o texto, lindo o filme AMEI!

Marcelo Castro Moraes disse...

Me deu curiosidade de ver esse

CONDE disse...

Texto interessantíssimo. Tal qual o filme.