sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A cruz dos anos (1937)





Perdoem-me, mas tenho certeza de que tudo o que escreveram aos quais acrescentarei mais algumas linhas não servem para descrever a surpresa maravilhosa que é conhecer essa obra de Leo McCarey. Conheci a obra através do recurso do DVD, o que por si só é um sacrilégio: Esse filme merecia ser visto no sagrado templo proporcionado pelo ambiente de um Cinema. Contudo o próprio DVD nos informa que essa obra permanecia inédita em nossas terras... Um sacrilégio maior ainda!?. Trata-se simplesmente do maior filme já realizado sobre a velhice e o abismo que se forma entre as gerações. Quem se empolgou (como eu) com “Era uma vez em Tóquio” de Ozu entenderá do que falo. Imagine uma obra que se lhe ombreia ou a supera (minha opinião). Não é tarefa das mais fáceis. E entendo agora a admiração e a veneração que John Ford, Jean Renoir e Orson Welles tinham em relação a obra. Não é um simples filme, é uma obra de arte que deveria ser tombada como patrimônio da humanidade. Esqueçam as demais obras de seu diretor (mas a conheçam, são muito boas). Esse é seu testamento artístico.

“Um velho casal reúne os filhos para anunciar a eles que o banco lhes tomou a residência devido ao não pagamento das prestações. Os filhos pegos de surpresa, para não assumirem a dívida, decidem os receber de uma forma provisória: Morarão separadamente, em residências distantes, até que num período de 3 meses, possam novamente estarem juntos morando com a filha Nellie (que deve convencer o marido). A coabitação no entanto se mostrará rapidamente difícil.”

O pequeno resumo acima não é capaz de dar a noção exata do que se verá na tela. Pensamos em um dramalhão daqueles em que Stahl era mestre. McCarey vale-se do roteiro de Viña Delmar de uma forma completamente diferente. A grande força do filme consiste na simplicidade de seu tratamento e uma engenhosa austeridade narrativa e falta de ênfase dramática voluntária que não faz mais do que tornar a emoção maior ainda. Pouco a pouco os idosos se dão conta que eles são em realidade um embaraço dentro do círculo social em que os filhos se estabeleceram, simplesmente devido a sua presença e a atenção corriqueira de que se fazem necessários. Não existe nenhum personagem cruel na história, ninguém é alguém realmente desprezível, mas não se nega o injusto egoísmo e o sentimento de rejeição de que são vítimas. Seriam como se a fogueira que representavam outrora, não tivesse mais necessidade de aquecer ou iluminar aqueles que dela necessitavam no passado. Um círculo natural da existência, em que não se pensa ou se torna algo que deve ser posto de lado. Que sistema é esse em que o ser é considerado como um produto sem nenhum valor?

Em realidade os filhos são egoístas, todos desejosos de não se desfazerem do supérfluo para dar uma vida decente aos dois. O apartamento de um é “diminuto”, o outro trabalha muito, uma última habita muito longe. É duro a convivência com idosos, já que eles carecem de uma atenção e o medo da depressão não inclina ninguém a fazer uma despesa suplementar (lembre-se que a época existiam aposentados sem aposentadoria). A questão do dinheiro está implícita no filme, mas não é ela que direciona o filme. Sabemos claramente que os filhos vivem em melhores condições do que os pais outrora, na época que os criaram.  E uma questão de postura, de não se querer romper o fosso das gerações.

As cenas que surgem são de uma extrema sutileza. Talvez por isso cale mais fundo. Tudo é tênue e natural, portanto ganha um caráter universal. O balançar de uma cadeira de balanço (a redundância aqui reforça o absurdo) causa um barulho incômodo ou seria a presença sentada nela o incômodo?

Todos aqueles que nos soam como agradáveis no filme são estranhos a vivência das famílias. E talvez por isso, por serem de fora, são mais agradáveis aos idosos, já que não tem responsabilidade sobre eles: O jovem médico, o vendeiro, o vendedor de carros e o Gerente do hotel.

E são tantas as cenas geniais que permeiam a película, que corremos o risco de reproduzir no escrito, a obra inteira. 

Contudo cometerei o pecado de citar algumas: O Vendeiro chamando a esposa que se dedicava as tarefas no lar, somente para a admirar (belo momento poético de um texto maravilhoso); a leitura da carta feita pelo vendeiro a Bark que quebrara os óculos é de uma beleza e inteligência que mescla humor e a dor e nos mostra interpretes alçados ao ápice de seu ofício (dueto de Victor Moore e Maurice Moscovitch). E para finalizar aquela que julgo (juntamente com seu final) o supra-sumo de toda a obra: Ao finalizarem o jantar no hotel onde 50 anos antes passaram a lua de mel, eles estão ao ponto de se abraçarem após confidenciarem lembranças agradáveis. Dão-se conta que estão sobre os olhares de todos. Inclusive do nosso. Que coisa genial é essa idéia de nos negar o papel de voyeurs. Além do mais um simples abraço seguido de um ósculo não serviria para sintetizar todo o legado trazido por ambos. Quanto não jaz escondido por trás desse relacionamento. Essa saída reforça o que tem de valiosa a vida de ambos. A intimidade é algo indecifrável. 




E a última genialidade da obra é o seu final (que o Estúdio tentou em vão convencer o diretor a mudar). Sabemos que escapa ao melodrama fácil. Não seria a morte uma forma de se tornar a obra mais digesta? Mas sabemos que não é ela que separará o casal. É a indiferença. Sozinhos na estação (os filhos não tiveram estômago para lá ir?) o final mais é a permanência do questionamento em nós do que um alívio ao que vimos. Um filme que não se preocupa em perturbar, mas que o faz de forma determinante. Welles não exagerou em sua afirmação: “Um filme capaz de fazer até as pedras chorarem”. 




Todos  tem a obrigação de assisti-lo.


Escrito por Conde Fouá Anderaos

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