domingo, 18 de agosto de 2013

Trono Manchado de Sangue (1957)



“O motivo de eu ter situado a história no século XVI ao adaptar Macbeth? Muitos já me questionaram. E o motivo é simples. Era um período de Guerras civis que correspondiam bem aquele descrito pelo poeta inglês. Também tivemos no Japão um personagem como Macbeth. A transposição do drama me veio automaticamente, de uma forma bem natural mesmo. A partir daí eu esqueci Shakespeare e o filmei como se tratasse de uma história de meu país.”
Akira Kurosawa



“Japão, século XVI. O país é varrido por lutas territoriais promovidas pela ambição dos senhores feudais. Ameaçado por dois poderosos adversários que se unem para se apoderar de seus territórios, Tzuzuki conta com a eficiência de ois poderosos vassalos, Washizu e Miki, para restabelecer a ordem. Após um grande triunfo os dois homens ao serem chamdos pelo Senhor Tzuzuki, se perdem na Floresta das Aranhas e encontram uma bruxa misteriosa que lhes prediz um futuro auspicioso: Washizu se tornará o Senhor do Castelo da Aranha (pertencente a Tzuzuki) e o filho de Miki o virá suceder. Após isso Miki continua sua existência sem fazer nada que venha a corroborar com a realização da profecia. Já Washizu, envenenado pela ambição e mau aconselhado pela esposa apressa as coisas...”


Não sei exatamente como tratar o escrito a que me dedico. Criticar qualquer obra de um cineasta do porte de um Kurosawa é pretensão demais. Esse diretor se situa no panteão dos gênios, daqueles que mais contribuíram para elevar o cinema no patamar de arte. No entanto quero aqui deixar registradas as impressões que me ficaram ao retornar meus olhos e minha atenção novamente a esse seu filme que vi pela primeira vez na tela grande e ao qual revi através do recurso do DVD. Atenção essa redobrada após ouvir um amigo de origem oriental me atentar pelo fato do por que Kurosawa sofrera uma considerável resistência junto aos seus conterrâneos de antanho, que o acusavam de ocidental em excesso. Curioso se lembrarmos que sua obra “Viver” fora eleita a mais importante feita no Japão em todos os tempos apenas dois anos antes de “Trono manchado de Sangue”. O que motiva então esse ataque contra o seu modo de filmar e em que medida a obra por si só basta para desarmar os seus detratores? É o que ousarei tentar traçar a seguir.



Ao mergulharmos nessa obra de Kurosawa notemos que se ele tivesse dirigindo uma peça de teatro e estivesse em pleno século XVI iria representar a peça valendo-se da herança grega, e seguiria os passos retomados por Jean Racine um século após. Ou seja, respeitaria o talento de Shakespeare, mas seria comedido em cena. É notório que Shakespeare era chamado de bárbaro por mostrar aos olhos dos expectadores o que o teatro grego só insinuava. Qualquer cena de violência ocorria fora do alcance de quem assistia e os seus efeitos eram discutidos em cena. A grande ousadia de Shakespeare foi justamente ousar mostrar o que era escondido. Lógico que somente isso não bastaria para tê-lo imortalizado. Os textos por si só são obras primas mesmo. Mas qual a razão para eu fazer tal afirmação em vendo o trabalho de Kurosawa?



Kurosawa nesse trabalho mergulha em sua terceira empreitada pelo jidai-geki (filme histórico). Ele busca recriar a época da forma mas perfeita possível (bebe da herança deixada por Mizoguchi). Além de um vestuário, a transposição de costumes, notamos a construção quase que perfeita de um castelo em madeira, fincado sobre um terreno de areia (?) escura. A câmera explora todos os ângulos e ela surge livre nesse edifício. E os que os chamam de oriental... não foi do teatro Noh que ele se valeu para realizar a mise em scène? Em vários momentos cenas de intimismo são registradas em um lugar fechado no qual o expectador (a câmera) parece excluída. As mais de 100 máscaras existentes no teatro noh surgem de maneira sutil em cena, sem que nós do Ocidente percebamos sua presença (e creio que também os nipônicos que o julgaram ocidentalizado).


A máscara Noh tem o intuito de mostrar um estado da alma e também simbolizar um determinado personagem característico dessa expressão de arte. Isuzu Yamada compõe sua Asaji Washizu (atriz de muitos filmes de Mizoguchi) valendo-se da herança do Noh. Na primeira parte em que fria e cinicamente inspira o caminho errado para seu esposo, seus lábios quase não abrem; os olhos surgem semi-fechados e as sobrancelhas estão pintadas bem alta. Um rosto impassível, branco e envelhecido (máscara de mulher fukai). Num segundo momento já tomada pela loucura o semblante permanece frio mas a expressão muda. Veja a semelhança com a máscara “Deigan”. Ela conserva seus traços, mas percebemos uma demência surgindo (sobrancelhas inclinadas, olhos e bocas simétricos). E há também um segundo par de sobrancelhas que visam reforçar o estado de loucura e que inexiste no próprio teatro Noh. Liberdade do artista que visa reforçar com imagens o estado da alma da personagem.







Isuzu Yamada como Asaji Washizu








Máscara Fukai 








Máscara Deigan


A feiticeira que surge funde em si as três que aparecem no original do inglês. Ela tem a função de jungir a sabedoria e a velhice e ao mesmo tempo instigar seus ouvintes de forma zombeteira. Uma espécie de velho demônio que vem tentar os homens. Também surge em cena estática, seu rosto é vítreo, pálido, mas parecendo uma máscara que um ser real. Parece entretido em enrolar um fio e transmite uma calma na postura que se contrapõe as palavras que emite. Se ele (o espirito) permanece calmo, as suas palavras tornam as vidas dos que o ouviram um inferno. O fio poderia representar aqui aquele do destino dos dois que passa a lhe pertencer. É como se os homens perdessem seu livre arbítrio. Quando surge pela segunda vez a imagem que tínhamos dela se modifica. Ela é mais ágil, magra, some e parece repentinamente. Acentua-se seu lado irônico, veste-se de guerreiro. E essa aparição mais frenética visa refletir o estado da alma de um herói que sucumbe? E o que indicaria a chuva que surge antes de cada aparição... Seria a Natureza lamentando a condição humana?





Chieko Naniwa como a Feiticeira 

Acredito que em todo o cinema de Kurosawa e essa obra em especial as imagens carregam um simbolismo. Essas imagens teriam a força de substituir com vantagens a força verbal do texto de Shakespeare. O japonês sabe que cinema é imagem e ao retratar um texto teatral, ainda que tome emprestado elementos de um teatro que conhece (O noh e o kabuki também) vale-se deles para enaltecer as imagens.


A música que permeia a película está a cargo de Masaru Satô. Fortemente influenciada pela cultura Noh, encontramos nela o uso de tambores e da flauta Nõkan.


Agora ainda que isso seja desnecessário é importante referendar a importância de Mifune no todo que veremos na tela. Um ator completo que se vale de seu físico para compor seu personagem, mas que nos momentos de intimismo também dá o seu recado. Notemos agora que ele precisa dar vida ao Lord Macbeth se valendo dos códigos do Noh. Difícil para nós ocidentais percebemos isso. E ai as vezes confundimos isso com algo que nos causa certa estranheza. Os movimentos dele são pensados dentro dessa arte secular, mas ele a transcende. Quando o vemos sobre o cavalo tomado de fúria, louco em busca de algo que apazigue o que lhe vai na alma, nada o liga ao que está sendo retratado de forma oriental. Poderíamos colocar isso dentro de uma película como "Rastros de ódio". Alguém enfurecido tendo a imensidão de um território para apaziguar seu estado d'alma. E uma imagem como essa sempre me dá a certeza de que os mestres sabem extrair um dos outros as lições que eternizam. E muitas vezes mais vale a pena rever um filme de um diretor do porte de um Kurosawa, até para sermos mais seletivos, com o que hoje é oferecido como Cinema.



Escrito por Conde Fouá Anderaos

Um comentário:

Marcelo C,M disse...

Um dos ultimos filmes que eu redescobri desse incrivel cineasta.