domingo, 4 de agosto de 2013

Monstros (1932)







Difícil descrever a emoção e a admiração que me causou essa obra de Browning. Tentarei explicar aquilo que me vai n’alma e no pensamento, verdades que talvez só existam no meu imaginário, mas que ao menos lá não deixam de sê-las. Que coragem e sentimento de não acomodação estava imbuído o cineasta quando se lançou sobre tal projeto? Conseguira firmar um contrato com a MGM, que lhe dera a possibilidade de ter liberdade muito acima daquela existente na época para imprimir uma obra com uma visão toda particular (e realista) sobre o mundo que ia retratar. O interesse do estúdio era claro: queria entrar no rico filão dos filmes de terror. Browning podia ter feito um filme de terror comum e sentar sobre a fama e o sucesso de seu filme anterior (Drácula). Contudo preferiu exorcizar (ou retratar) os fantasmas que vira em um mundo que conhecia bem: o mundo circense daquela época. É nessa vontade de se superar que nasce as obras que rompem limites e conduzem a humanidade para um progresso. A forma como o diretor relata as criaturas que são encarceradas pelas deformidades que possuem, colocando-as no mesmo panteão que os normais chocou (e ainda choca) o público acostumado a alienar-se e alienar os que os cercam. Um filme que ainda hoje parece ter sido concebido para um público que ainda não nasceu. A grande dúvida é saber quando surgirá o público que enxergara todas as criaturas como pertencentes não a várias raças ou classes, mas como membros de uma única raça: a humana.


                                                              Schlitzie Surtees (1901-1971)

                                                                          Josephine Joseph (1913 - ?)

                                                                          Daisy e Violet Hilton (1908-1969)

Browning baseou-se no romance Spurs de Tod Robbins para dar início a seu projeto. Mas é de conhecimento de todos que ele caído de amores por uma trapezista abandonou o confortável lar paterno e fugiu atrás de um circo, permanecendo no meio circense entre os 16 e os 30 anos. Então toda a experiência adquirida nesse meio serve para enriquecer o que vemos na tela e o material que serviu de base. Os atores que surgem na tela vivem personagens bem próximos da sua realidade. Como podemos deduzir essa oportunidade de se fazerem visto pela humanidade, distante do lugar em que foram confinados e aceitos (circo, feira de aberrações) faz com que cada um deles dê o melhor de si na tela. Lógico que isso não é uma verdade estendida a todo o elenco, afinal talvez não apreendessem o alcance da proposta do diretor. Nesse instante surge o olhar do diretor para que brilhassem. O filme pode soar truncado (culpas dos cortes criminosos?) em alguns instantes, mas diante do que vemos isso não é uma desculpa. Em realidade, o que surge foi a mutilação maior: a censura e a destruição de um filme adiante do seu tempo. Não creio que esse crime ajudou a engrandecer a obra. Na realidade a obra é tão apaixonante e bem resolvida que conseguiu sobreviver jovial apesar de tolhida. Quantas obras conseguem tal façanha?

                                       Kurt Fritz Schneider (1902 - 1985) e Hilda Emma Schneider (1907-1980)
                                                                                Peter Robinson (1879 - 1956)

                                                                                                  Prince Randian (1871 - 1934)

“O circo Tetrallini é famoso pelas atrações que apresenta: Homens troncos, anões, irmãs siamesas, homem esqueleto, mulher barbada, Josephine – homem e mulher em um só corpo e vários outros seres mutilados. É nesse local que uma história de amor irá se desenvolver. Uma história simples, que o cinema e a literatura já contou várias vezes, mas que nesse ambiente adquire uma aura mágica: Um homem se apaixona por uma bela mulher e essa deixa-se seduzir, com o intuito único de se apossar do dinheiro desse homem. Para alcançar seu intento ela receberá a ajuda de seu amante: um homem rude, forte, frio e lascivo. 
O homem que se apaixona é um anão, que acredita que as barreiras físicas podem se esboroar diante do sentimento maior. A amada e malvada mulher é uma linda trapezista; o seu amante o homem forte do circo.”

                                                                                Johnny Eck (1911-1991)

                                                                                                   Frances O'Connor (1914-1982)

                                                             
      
                                                                              Minnie woolsey ( 1880-1960)



Ao subverter a ordem natural das coisas, mostrando seres normais fisicamente, como monstros interiormente, Browning chocou uma geração. Em meu entender o choque é maior ainda. Afinal em realidade não importa onde estejamos encarcerados, quer em corpos perfeitos, quer em mutilados. Não havendo vigilância monstros adormecidos podem se levantar e tomar conta da cena. O final do filme quando os fracos se unem e castigam o casal central vingando assim o mal que sofrera um de seus membros permite pelo menos duas leituras (uma das cenas cortadas mostraria o destino de Hércules: foi castrado). Uma delas (em minha opinião a mais sensata) seria que a crueldade é inerente a raça humana, nada mais sendo no caso do filme que uma resposta (ou reflexo) aquela cobiça do casal de amantes. Outra seria que isso seria a expressão mais sórdida do determinismo, permitindo que leiamos as entranhas de um desfecho que desnuda todo os rostos e os corpos deformados dos seres que compõem a obra. É uma visão muito sombria, sem concessão que Browning teria assim da humanidade (ainda mais que pouco nos lembramos do palhaço - interpretado por Wallace Ford e a domadora de animais – vivida por Leila Hyams que deveriam servir como ponto de identificação para o espectador). Para coroar a ousadia do diretor, assistimos tudo na posição de voyeurs (faríamos parte daquele grupo de pessoas que na primeira seqüência deseja ver os monstros atraídos pelo anúncio sedutor: Vocês irão ver a mais monstruosa criatura!), mas de um voyeur frustrado já que a câmera se posta atrás do grupo, não permitindo que nos aproximemos e vejamos a criatura. Browning estaria querendo dizer que o que tornou Cleópatra um monstro foi a sua história, que seu físico se encontra daquela forma devido suas atitudes passadas. Quais seriam então os passados deformados de todas as outras criaturas? A seqüência final, fazendo eco a da abertura, permite enfim que saciemos nosso lado de voyeur, já conhecendo os defeitos morais da bela Cleópatra. Apesar da história se passar no velho continente, dos já citados palhaço e domadora, a história foi filmada sem concessões, sem distanciamentos (não custa recordar que Hitler subiria ao poder no ano seguinte a obra, propondo a eliminação dos seres deformados como política de melhora da raça).

                                                                      Elizabeth Greene( ? - ?)

Olga Roderick (1874 - ?)

                                                                      Angelo Rossito (1908 - 1991)


Outro aspecto que sempre devemos destacar na obra foi a forma como o diretor relatou esse povo circense. Anões, mutilados, siameses, gigantes, coxos, vítimas de microcefalia, enfim, todos também são homens e como tais também possuem desejos e sonhos. E o diretor foi capaz de dar a cada uma dessas pessoas a possibilidade de se eternizarem no rol da humanidade. Nota-se em cada enquadramento e diálogo a preocupação de que cada qual se mostrasse com toda a capacidade dramática que possuíam.

         Jennie Lee( ? -?) e Elvira Snow (? -?)

Podemos notar que a obra ainda carrega uma forte influência do cinema mudo, sobretudo nos rostos delicados e nos diálogos que carecem de uma maior espontaneidade, mas a montagem é extremamente moderna e admirável. A imagem parece ter sido filmada nos anos pós-guerra, chega-nos limpa, clara, em seus belos contrastes de preto e branco. A seqüência da vingança, com suas sombras e luzes é uma das melhores de toda a história da sétima arte, bebendo na fonte de um cinema noir ainda insipiente. O som, no entanto soa mal, mas tal se deve não a uma falha na produção, mas sim aos limites tecnológicos da época que não devem ser criticados, mas aceitos com naturalidade.


   Tod Browning (1880-1962)

Como término para meu escrito, terei de ser repetitivo novamente: A maior monstruosidade não está na tela, nem dentro dos espectadores. Está na mutilação de cerca de 30 minutos que a obra sofreu. Cenas essas que segundo o próprio diretor continham dialogos mostrando os deformados como gentis e cordatos e o normais como repugnantes o que era uma crítica ácida contra a intolerância. Em suma: O cinema não merecia ser vítima de tal crime. 

                                                                          Tod Browning e elenco




Escrito por Conde Fouá Anderaos

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