terça-feira, 2 de julho de 2013

Força do mal (1948)








Morse, um jovem advogado, tem como cliente um gangster que construiu sua fortuna explorando uma espécie de jogo de bicho ilegal, que virou febre entre a população. Com o passar do tempo, de advogado ele se torna um conselheiro, quase que um sócio. Confrontado pelo irmão, ao se imiscuir com os meandros do negócio, ele que pensava o controlar se vê controlado. E esse se deixar enredar o obriga como única forma de se desvencilhar a enfrentar a máquina que ajudou a fortalecer.

Aparentemente parece fácil enquadrar o filme de estréia de Abraham Polonsky: filme noir. Contudo o diretor e roteirista mostra que se bebe da fonte do gênero, o utiliza, no entanto para fazer uma crítica virulenta contra o sistema norte americano da época.

Cheio de diálogos aparentemente sem sentido, o diretor não poupa ninguém. Faz uso da história para criticar o sistema como um todo. Ninguém que surge a tela está livre dos pecados: Nova Iorque surge na tela como uma Sodoma ou Gomorra. Não é um Grupo de Mafiosos que corrompe uma Cidade, existe também uma Sociedade que faz vista grossa e que em realidade acredita que poderá ganhar algum com a corrupção que a cerca. A cumplicidade e a tolerância existem em todos os níveis da Sociedade. O próprio irmão de Joe, também vive a sombra da ilegalidade e seu discurso de retidão se esboroa diante do espectador que acaba não vendo na tela ninguém digno de confiança absoluta. Num certo nível, compreender-se-á a inclusão de Polonsky na lista negra do Macartismo: Ele associa a passividade com a falta de consciência política. No entanto esse alargar de questionamentos, o excesso de diálogos, a existência de um grande número de personagens, o ritmo lento por vezes (mas que caminha decidido) pode causar na geração de hoje certo estranhamento. Maior talvez que o causado a época de seu lançamento (o filme foi mal distribuído e sofreu uma censura branca). Essas aparentes barrigas na verdade escondem muitas qualidades. Uma delas é a força narrativa. Joe Morse (brilhantemente interpretado por John Garfield – morto prematuramente aos 39 anos) é um personagem profundo. Se no início nos soa apenas cínico e calculista, ele vai se nos mostrando outras dimensões que jaziam adormecidas: uma forte ligação familiar (necessidade de trilhar um novo caminho?), o desejo de encontrar alguém que ainda possua uma pureza que ele já perdeu. É essa dualidade que faz com que ele cave aquilo que aparentemente é a sua própria destruição (daquilo que nos passou em um primeiro momento). Outra que marca profundamente é o aspecto técnico. A fotografia é muito bem construída sobre uma luminosidade que vagueia entre o claro e a semi-obscuridade. Alguns quadros estão entre os mais bem fotografados daquela década. E a estilização da figura feminina: a amante do chefão vista como uma estranha devoradora de homens que se deve evitar e a pura loira que lhe mostra que ainda existe a salvação.


E temos outra grande surpresa. Não é só John Garfield que nos mostrou seu grande potencial dramático. Thomas Gomes que faz seu irmão constrói um personagem difícil que jamais cai no caricato. Ter encontrado tão bons atores, ajudou muito o diretor em sua primeira aventura atrás das câmeras. Ainda que aparentemente o escrito leve a crer que se trata de um filme irrepreensível, cumpre dizer que alguns personagens carecem de um motivo que os impulsione a serem do jeito que são. E existem também alguns desleixos do roteiro que desmentem o dito anteriormente pelos personagens que buscam romper o laço que os prendem ao esquema (e ao mesmo tempo querem lá permanecer). Falhas gritantes que nem a boa intenção primeira deixa passar despercebida. De qualquer forma o saldo é muito positivo.  


Um comentário:

Jefferson C. Vendrame disse...

Adoro esses filmes Noir do final dos anos 40 e inicio dos anos 50. Esse eu não conhecia, valeu muito a dica, vou em busca.

Abração