quarta-feira, 6 de março de 2013

Um valente Chorão! (e "O Magnata")




Este é um recinto sobre cinema, eu sei. Falarei disso adiante. Todavia, aproveitarei o ensejo pra deixar aqui uma breve homenagem, pela morte desse personagem que fez a sua história. E nossas cortinas vermelhas de veludo estão fechadas. De luto.

Perde-se hoje um sujeito “responsa”, morreu misteriosamente o vocalista da banda Charlie Brown Jr.: Alexandre Magno Abrão, mais conhecido como “Chorão” (apelido advindo de seus tombos de skate na infância – que, mesmo chorando muito, não o tiraram de seguir perseverante o esporte que amava, até o fim), que, se não foi lá dos melhores músicos, técnica e virtuosamente falando, foi, sem dúvidas, um símbolo da contestação e valoração humana. Tem meu profundo respeito.

 E não é pelas musicas irritantes que ouvi, sem querer, nas rádios de tempos pra cá; mas por assumir uma postura irrequieta diante do mundo, não abrindo mão daquilo em que acreditava. Eu tive a oportunidade de estar presente em um de seus shows, e presenciei uma cena memorável, digna de nota e apreço...

Dois jovens, em meio à multidão avassaladora de espectadores, iniciaram uma briga entre si, durante a apresentação da banda Charlie Brown Jr. Chorão, muito atento à reação que suas palavras cantadas geravam nas feições humanas, notou rapidamente o conflito, e parou de cantar. Como não pudessem continuar sem ele, todos da banda logo silenciaram.

O vocalista, humildemente, dirigiu algumas palavras para os dois encrenqueiros: “aqui, no meu show, ninguém vem pra brigar!”, disse ele, dentre outras coisas importantes. E como condição para continuar a apresentação, exigiu, a seu modo bruto e ríspido e sincero, que “dessem o fora!”, finalizando o que tinha de ser dito com palavras de paz e respeito ao próximo.

Ganhou meus aplausos.


A banda, musicalmente, nunca foi muito do meu agrado. Mas o conteúdo de algumas de suas letras (nem tantas, né), essas merecem atenção. Seu linguajar puramente coloquial, palavreados de rua, os tais dos palavrões, não devem nunca ser entendidos como “erros de linguagem”, assunto que já tive oportunidade de discutir em outros textos. Ao meu ver, o errado mesmo é quando um fala e o outro não entende. Ou muito pior: tantos que são o oposto do que dizem; que falam “certo” mas fazem o “errado”. Hipocrisia e pedantismo que o cantor não cansou de pisotear:

“Otário, eu vou te avisar, o teu intelecto é de mosca de bar”.

Chorão tinha suas coisas para dizer, e as dizia a seu modo, ao modo que acreditava ser coerente com seu ser interior e ao modo que sabia que seria entendido. Fez questão de não se curvar para as regras gramaticais.  Queria mesmo era um bom “Papo Reto”!

Suas letras, poesias de quando em vez, se por acaso, não sei, já vi até em livros escolares e, acreditem, em livros acadêmicos importantíssimos de graduação dos estudantes de Linguística, de Letras, etc. Justamente como referência de uma expressão e comunicação que simplesmente não seguia as mesmas normas tradicionais, era outra variante da língua, nem pior nem melhor apenas por isso. Apenas diferente. E adequava-se ao que ele queria dizer; transmitia sua mensagem sem adornos, sem floreados. Eis um cara que não se contentou em ser mera parte do rebanho sistematizado, que não se queimou na fogueira da vaidade; um estilo de vida que não se acovarda, e que confronta,. É desse ponto de vista que vejo sua importância.  

“Eu não sei fazer poesia... Mas que se foda!!!
Eu odeio gente chique.
Eu não uso sapato.

Taí a mensagem.


Chorão e o Cinema!

O MAGNATA (2007)


Chorão também tentou experimentar-se em outras áreas, sentir outros ares, e isso é uma atitude nobre, temos que reconhecer. Em 2007, a partir de uma ideia própria, fez o roteiro e produziu um filme, “O Magnata”, adentrando-se assim em uma área absolutamente inédita para o músico até então.

Bem, a sua experiência e tentativa são válidas, é claro. Entretanto, sem querer ofender ninguém, já que é minha mera opinião pessoal, mas acreditando que os que me lêem possuem um mínimo de bom gosto, convenhamos, o filme é um completo fiasco.

 Creio que posso resumi-lo apenas em uma frase, uma alerta: “cuidado com o que se faz, que suas atitudes têm consequências...blábláblá”. Esse é o tom do discurso. Ainda se fosse só isso, só que minimamente bem feito. O que mais posso dizer dessa coisa medonha? Cenas feiosas, tudo muito idiota, forçadíssimas, de dar nó na espinha.

Admito, fico até um pouco enojado de falar desse filme mequetrefe. E aquele ator, o principal, aquilo não foi pavoroso?  Melhor eu ir parando por aqui, que estou ficando irritado pelas lembranças grotescas e o meu tempo perdido ao assisti-lo corajosamente até o fim. Não vou me alongar sobre o filme. Mas aconselho veementemente que mantenham toda a distância do mundo!!!
                                      
                                                                  ***

Que esse filme não macule impiedosamente sua memória. Lembremo-nos apenas do Chorão bem-intencionado, contestador, obstinado, completamente louco, mas um louco consciente.

Que em paz, descanse.

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