quarta-feira, 13 de março de 2013

Papa, o devoto protagonista. (Habemus Papam)





A vida, a arte, a verdade, a encenação, qual é mesmo a diferença?  Ás vezes tenho a impressão de que Shakespeare tinha toda razão, e que todos a minha volta são atores nesse grande palco que é o mundo. E hoje o protagonista é o personagem do Papa.

         Enfim, cansado de ouvir tanto sobre o mesmo assunto infernal, decidi resgatar uns antigos escritos aqui do blog, com a intenção de reafirmar essa ideia das encenações e gracejos por todos os cantos. Da sua casa à Roma. Da fumaça da sua chaminé à fumaça do Vaticano...

Aqui vai a crítica, escrita por Conde Fouá Anderaus  sobre o filme Habemus Papam:



 Em entrevista recente o cineasta Nanni Moretti fez uma crítica ao filme “O Artista” alcunhando-o de um filme fácil, no sentido de o ser uma obra menor em sua avaliação. Afirmou também que o júri do festival de Cannes seria mais sério que a Academia de Hollywood devido à rotatividade de seus membros (explica assim os prêmios obtidos pelo filme francês em cima de sua obra em solo europeu). Sem querer desmerecer “O Artista” e sem me alicerçar na explicação dada por Moretti pela não premiação ao menos de melhor ator por Piccoli (em comedida e genial composição) pelo seu Habemus Papam, tenho de concordar que a sua obra merece atenção por se direcionar sempre pelo caminho não fácil e cômodo.

Moretti teve o bom senso de optar pela elegância ao não ofender o credo religioso dos católicos ao retratar o Vaticano. Essa sutileza consiste em buscar as semelhanças que podem existir entre os retratados e todo aquele que se digne a assistir o filme. Apesar de sutil a engenhosidade do roteiro posta na tela de questões que não deixam de criticar algo que permanece estático em um mundo cada vez mais sujeito a mudanças. Sobretudo pelo fato do filme terminar da mesma forma que se iniciou, contradizendo o próprio título da obra. Magnífico final que pode desagradar alguns, mas que mostra quão grande é a visão sobre o objeto retratado feito por Moretti.

O diretor opta por iniciar seu filme em mostrando o ritual católico da escolha de um sucessor para o cargo de Pontífice supremo da Igreja. E aproveita para também lançar seu olhar para além da Igreja, de como a mídia já segura das respostas que virão, procura mostrar todo esse ritual como algo novo, sujeito a imprevistos (Veja a cena quando os cardeais se dirigem a Capela Sistina) caindo assim no ridículo do déjà vu.

Passado esses momentos (em outras ocasiões mostrar-se-á o diretor escancarando o vazio das coberturas jornalísticas na Itália – Crítica velada ao Império de Berlusconi?) de uma pompa visual, o diretor volta-se para o individual que existe em cada coletividade. Todos eles solicitam em pensamento que não caia sobre suas costas o peso de tal responsabilidade. É a partir daí que Moretti mostra a que veio. Humaniza uma figura que deveria permanecer divina. E o faz sem agredir de forma virulenta. Ele se limita a criar situações que faça com que pensemos qual será a solução encontrada, já que o que ocorre é bastante plausível e ninguém em sã consciência poderá negar que possa ocorrer. 

Imaginem um evento aguardado por todos. Uma mídia já sequiosa de ver o seu trabalho concluso, um público que nada mais faz que aguardar o momento de acenar para o papa eleito em mostrando assim sua fé, e a necessidade que possuem de serem guiados, mais do que contribuírem para ajudar a guiar . Um cardeal vem e anuncia que o conclave chegou ao fim. Todos aguardam a presença do eleito no Balcão e ... Nada. Apenas um grito, inaudível na praça de São Pedro, que vem das sombras, onde o Papa deveria aguardar o momento de sua aparição triunfal. O grito apenas corrobora o que já víamos. Ele se encontra estático, preso em si e a cadeira onde se sentara. Um pânico terrível se instala entre os “atores” que não sabem como improvisar, qual saída pode ser escolhida.

A justificativa dada ao público cai como uma luva. Lógico que é crível. É só nos lembrarmos dos discursos de posse dos últimos papas: “Sou apenas um obreiro da vinha do Senhor” (Bento XVI) ou a voz tonitruante de João Paulo II dizendo: “Abram todas as portas de vossas existências a Jesus Cristo”. Todos devem prestar continência a Deus (ou Jesus, já que para a Igreja são um só).

A partir daí se reforça a grande qualidade de Moretti. A mise em scène é fantástica e seu roteiro estimulante. O filme passa a nos fazer simpatizar com aqueles idosos que se livraram de uma grande responsabilidade. Alguns desejam sair daquele local e ir desfrutar de doces em Roma conduzidos por um que sabe onde encontrá-los. 

A chegada o psicanalista não conduz a obra a um embate simples entre a Ciência e a fé. Inserido dentro do vaticano o próprio Doutor nada pode realizar com seu conhecimento. Ele serve apenas reforçar a falta de confiança em algo. Não me parece ser alguém que acredita piamente na psicanálise. É o lúdico que ganha o local com a sua chegada. O torneio de voleibol é um achado, que nada mais faz que repicar naquele pátio toda a brincadeira inquiridora de Moretti: A fuga da Santidade que se perde em Roma, o guarda suíço que finge ser o papa, o Conselheiro ou Porta voz do Vaticano (Jerzy Stuhr em interpretação marcante) que se encontra sem saber o que fazer, os atores de teatro que se encontram sem rumo com a loucura de um dos pilares da peça que encenarão, a jovem que cede um celular para a santidade sem saber quem é, a bolsa de apostas sobre quem seria o sucessor, a consulta diante de todos os cardeais, as medicações utilizadas pelos cardeais, etc

Moretti parece querer valorizar cada pequeno ato do ser, cada pequeno gesto de nossa existência tem um significado. Não devemos nos prender apenas em uma possível recompensa futura. É preciso recompensar-se em cada momento. Tudo que nos rodeia pode ser santificado, desde que o queiramos fazer.

Habemus Papam é um filme que certamente descontentará aqueles que gostam de um humor rasteiro. Contudo tem tudo para agradar os mais exigentes, ainda que seja uma obra para ser vista muitas vezes. Apesar de parecer simples, o que chega a tela permite de várias reflexões. Um grande filme, mas que me perdoe Moretti, isso não torna “O Artista” um filme sem credenciais. Mas não seria injusto se Picolli e Dujardin tivessem dividido o prêmio em Cannes. Que grande interpretação. 

Escrito por Conde Fouá Anderaos

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