domingo, 24 de fevereiro de 2013

Argo (2012)




Assisti Argo dia 13/02/2013. Raro caso em que eu não sabia nada a respeito do filme. Ao final da projeção sai boquiaberto. Difícil elencar todos os acertos do filme. E mais surpreendente ainda é saber que a maior parte do mérito cabe ao seu diretor que se mostra como uma das mais promissoras promessas dos próximos anos.

“Em 04/11/1979, quando a clima de tensão entre o Irã do Aiatolá Khomenini e os EUA atinge o seu ápice, manifestantes tomam de assalto a embaixada americana em Teerã  fazendo mais de 50 estadunidenses reféns. Eles exigem o reenvio de Xá Reza Pahlavi (O anterior governante) para que fosse julgado por seus crimes e seu servilismo aos países ocidentais em detrimento do seu povo. Contudo seis funcionários da embaixada conseguem escapar e encontram abrigo na embaixada Canadense. Os invasores da embaixada americana contudo ao fazerem uma verificação atenta dos documentos que foram parcialmente destruídos, podem perceber tal ausência e sair a captura deles, o que pode significar a sua morte (todo americano era tido como espião). A Cia no entanto investe na ideia pouco ortodoxa de um de seus membros que os pretende retirá-los de lá com um plano pra lá de mirabolante.”

Quando o antigo logo da Warner ganha as tela estamos sendo inseridos dentro de uma época que já passou. Para isso o diretor opta por vários truques: letras redondas, ligeiros scratchs sobre a película, fotografia seca, granulosa e descorada.

Não se trata de mais um filme de espionagem. Não que ele em certas horas não nos deixe como que faltando o ar, alterando tais momentos com outros brandos. Um filme que não tem vergonha de ser patriota, mas o é de maneira comedida e ousa citar os podres que colocaram seis vidas (mais a do agente da Cia) em risco. Um breve relato da história recente do Irã é contada e mostra como os EUA interferiu naquele país com o intuito de se beneficiar. São cerca de quatro minutos. Neles vemos o poder passar das mãos de um nacionalista popular a um extremista islamita. Entre ambos um Xá oportunista e corrupto.

Para nos inserir nesse contexto e não sermos levados por um ufanismo para um dos lados, Affleck se vale de certos recursos que funcionam a mil maravilhas. Os iranianos que surgem na tela parecem se enquadrar naquele tipo imortalizado pelo cinema americano dos últimos anos: barba cerrada, olhos negros, taciturnos. Alguns podem achar em tal uma frouxidão. Mas o que querem? O Cinema e a própria História nada mais fazem que nos mostrar que não existe uma verdade objetiva. Apenas coisas a serem contadas que podem ou não se aproximar do que realmente ocorreu. Isso contado por sob o ponto de vista de alguém. Assim os story-board se mesclam as imagens de arquivo e estas por sua vez inspiram as tomadas atuais. O diretor tem a argúcia necessária para criar um distanciamento tal, que de forma equilibrada mescla as cenas de Teerã com aquelas ocorridas em Hollywood onde efetivamente dois moleques brincam de fazer cinema. Assim ao olhar o que ocorre do ponto de vista desses últimos o filme não se encaminha para mais um filme maniqueísta. Ainda que tudo seja criado de forma a se aproximar do real, o que vemos é apenas uma ilusão deste. Para citar uma sequência que justifique o que digo cito aquela da montagem paralela entre a leitura do falso roteiro nos EUA e uma execução de reféns em Teerã que no final se mostrará também falsa. Duas inverdades com um mesmo potencial: a morte. Uma é cômica, a outra não o é. O impacto emocional, no entanto nos atinge, apesar de sabermos que é um engodo.

Aliás a direção dos atores é um primor. Todos funcionam a mil maravilhas de forma que o único destaque é justamente aqueles que estão na função dos ditos sonhadores: a sátira divertida a Hollywood levada a cabo por um Alan Arkin como um produtor apaixonado e John Goodman como um especialista em efeitos especiais e maquiagem.
A propósito de Affleck. Ele interpreta esse agente de forma tão comedida, sua presença na tela nunca fica além do necessário. Um personagem taciturno, centrado, racional, bem resolvido e que o roteiro (como a direção) tem a felicidade de fazer com que não sobressaia sobre os demais. Ele jamais cai na caricatura e transmite uma emoção sincera. Essa naturalidade em cena, não só dele, mas como dos demais é que aproxima o filme mais um pouco de um quase documentário. Apesar de já conhecermos o desfecho (pois é baseado em fatos reais) as soluções encontradas (simples é verdade) pela direção surpreendem. No Aeroporto não compreendemos o que os iranianos falam entre si, o que traz para nós a angústia real dos que dependem das decisões deles para saírem incólumes daquele local.

Em suma: Ben Affleck caminha a passos firmes e seguros para se tornar um cineasta do quilate de um Clint Eastwood. O que ele realizou atrás das câmeras deve no mínimo chamar nossa atenciosa e respeitosa  atenção. 



terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis (2012)





Informações obtidas em pesquisas na internet dão conta que essa seria a 42ª adaptação da obra de Hugo que ganha às telas. Impossível afirmar então com precisão se essa seria uma das melhores ou uma das piores. Eu mesmo vi somente quatro antes dessa. E também temos de levar em consideração que toda adaptação se constrói sobre uma simbiose frágil entre o ponto de vista sobre uma obra e a fidelidade ao autor. A favor de Hooper conta o fato que Hugo inspira, mas ele (o diretor) se vale de uma obra que se inspirou no romance. O musical composto por Claude-Michel Schönberg com libreto de Alain Boublil e letras de Herbert Kretzmer.  Coube a William Nicholson dar forma ao roteiro cinematográfico.  Quando adentrei ao cinema, aguardava algo bom e não temia pelo pior. E o filme me recompensou. Das versões que assisti a melhor adaptação do romance de Hugo (não fidedigna – o livro é gigante e dificilmente uma obra levada ao cinema ou teatro consegue ser fiel ao romance que o inspira). Mas “Os Miseráveis” está lá, sua essência ali permanece.

Sabemos que Hugo se valeu de suas memórias sobre a França e sua história para escrever o livro. Ele se encontrava exilado fazia mais de uma década e recriou sua Pátria (sobretudo Paris)de forma brilhante. Lógico que sobre a tela não veremos muito do detestável,

Difícil falar dessa obra sem se remeter a obra anterior de Hooper. Lá também ele havia decidido pela escolha do íntimo, mostrando o mundo exterior e seus rumores dentro de uma atmosfera acolchoada já que não havia um contato direto com a população. Um Palácio desértico, com habitantes como que perdidos, isolados naquela imensidão. Aqui também em “Os Miseráveis” o homem é que está no centro. Mais o universo que o cerca, apesar de grandioso, não o diminui. Desde a cena inicial, é o homem que está no centro do grandioso. É o homem que se torna o senhor do seu destino, e aceita o comandar. É isso que pregava Hugo. Então respeitando o musical, Hooper o reivindica, permite que o homem comande o espetáculo. A angústia, a combatividade, a coragem, o amor proclamado em canções e sublimado nas atitudes, filmados numa série de close-up e em canções sendo não somente cantadas, mas interpretadas, sentidas no seu sentido literário reforçando a característica da Universalidade e intemporalidade da obra de 1862.

Antes de se valer dos movimentos de câmera grandiloquentes e permanentes para dar uma ilusão de sentido e para antecipar assim qualquer acusação de simples teatro filmado, o diretor compreendeu que era nas almas que se centralizavam todos os combates de cada personagem (não somente aqueles restritos a barricadas), mas isso não o impediu  de ir para certos planos mais largos, na mesma proporção mais magnífica e significativa que eles são de uma raridade avisada as vezes de um sopro épico e de uma beleza arrebatadora.
È puramente cinematográficas algumas cenas, sem ao menos lembrar qualquer influência teatral, como exemplo aquela onde um Jean Valjean recém-liberto vaga pela amplitude de uma montanha gelada meio desnorteado.
Convém, no entanto lembrar que o diretor mais do que criar cenários puramente fincados num realismo, preferiu a força do verbo alavancado pela busca de um realismo poético, que bebeu nas fontes de uma teatralidade aceita e reivindicada para nos brindar com uma poesia sombria adornada pelo domínio das cores azul, branca e vermelha com que os personagens preencem a tela.
Logicamente que os puristas irão questionar certas liberdades tomadas com relação ao romance. Valjean não ficou cumprindo a pena nas Galés, mas sim numa prisão. Um contramestre ao invés de uma freira puritana é que coloca Fantine na rua;  Javert a prende (Fantine) por uma agressão física, quando o que ocorreu no romance foi devolver uma bola de neve que a feriu no peito. O pai de Marius acredita-se tenha sido salvo em Waterloo por Tenardier;  Valjean e Cosette já viviam em Paris e quando Javert os descobrem é que irão por acaso se esconder no Convento da Rua Picpus. Poder-se-ia citar outras tantas liberdades, mas isso não vem ao caso. A realidade é que a essência do livro ali se encontra (como no filme de 1952, que é inferior a esse).

A força épica de uma obra que jaz esquecida é que comanda o filme. E quem sabe não trará novos leitores que aceitem a recompensa de encarar esse escrito. Hooper coloca o embate entre o homem que busca a redenção (Jean Valjean) e o outro que não acredita que as pessoas possam mudar (Javert). Mas não é só isso que vemos na tela. O perigo está ao redor de cada ser. Sobretudo aquele que nasce dentro de si próprio. E quando Javert crê poder estar errado, mostrando que a Lei levada a ferro e fogo é falha, esse tomba definitivamente (mostrando que todo fanatismo traz sérias consequências). Mais existem outros embates que não deixam de ser citados: O combate a miséria física, mas também o combate a miséria moral que permeia todas as classes sociais. O combate entre o amor e o dever social (para Marius). O combate dos amores contrariados (que assola Eponine).

Hooper assina uma obra corajosa e ousada na sua feitura. Ao optar por se manter fiel a crença de que a força das palavras cantadas e sentidas por quase 3 horas arrebataria o público. Esqueceu-se que esse público não está talvez habituado a tamanha ousadia. Mas cá entre nós, isso é uma falha? Então deveríamos continuar a dar tudo mastigado sem despertar nas almas a necessidade de se burilarem. Victor Hugo escreveu tal romance faz 150 anos. Na época foi criticado por se valer em certas passagens de uma linguagem popular. Não posso crer que ocorreu uma involução em um século e meio. O que não pode ocorrer é se servir ao Deus consumo.




PS
Dedico esse escrito a Rede Cinemark. Assisti a esse filme dia 11/02/2013 no Boulevard Tatuapé. Cheguei à bilheteria às 11h30min. Havia uma fila considerável e apenas uma caixa atendendo. Consegui colocar as mãos no ingresso as 12h06min. Corri esbaforido e quando adentrei na sala os letreiros já desciam. Felizmente não era só Valjean que ficaria livre dentro de segundos. De certa forma com o filme eu também me livraria de certa forma daqueles que tratam todos de forma desrespeitosa. Ao final da Sessão busquei a Gerência para reclamar (solicitou que quando eu fosse novamente ao Cinema o procurasse). O mesmo confirmou que só existe mesmo um caixa naquele horário. Que a Rede Cinemark coloque então aviso em seu site informando que seus clientes devem chegar com mais de 1 hora de adiantamento para as primeiras sessões. Tenho certeza que se eu tivesse me dirigido a um boteco para beber doses mil de aguardentes ou a um Ponto de Droga com o objetivo já conhecido seria atendido prontamente. Na Rede Cinemark os que buscam a Cultura são atendidos assim?!. Em que mundo vivemos?



Escrito por Conde Fouá Anderaos

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Os Miseráveis (2012) - Poesia



Um soneto miserável.



Do destino, leis decretam o norte.
Universo infindável da miséria
Olhos no chão; esperanças etérias,
Cantarolando seus cantos de morte.

Negros os dias, vermelho o corte,
Um corpo rasgado no cemitério,
Quantos flancos valem o seu mistério?
Doce Fantine, fecundai tua sorte!

Belos, ternos ombros d’antes culpados,
Crianças famintas caçam migalhas.
Acaso desejas, triste menina,

Roubar do diabo pães amassados?
Lutai com amor, ó, maltrapilhas;
A revolução no canto germina.