terça-feira, 1 de janeiro de 2013

A Roda da Fortuna (1953)



“Tony Hunter é um ator em decadência. Os amigos roteiristas querem que ele estrele uma comédia musical que estão escrevendo. Crêem possuir nas mãos um algo mais que garanta o sucesso: uma talentosa bailarina, além da direção que estará sobre a responsabilidade de Cordova, um diretor novo e talentoso que caiu nas graças da crítica. Cordova ao ouvir a história, imagina que a mesma nada mais é que uma releitura do mito de Fausto. Sob essa nova visão pesada e sombria o fracasso na noite de estréia é iminente. Contudo Hunter resolve apostar suas economias e propõe que a história seja reescrita levando-se em conta o que inspirara os roteiristas.”

Sempre me simpatizei com esse filme de Minelli. Tinha o costume de ao menos assisti-lo até a cena do “Dancing in the dark” (o filme era programado sempre para a madrugada, era jovem e trabalhava no dia seguinte). Nas programações natalinas e de fim de ano, o filme sempre é reprisado. Ótimo. Não só pelo fato do filme casar com a ocasião(acho-o extremamente festivo), mas, sobretudo por se tratar de um cinema de auto nível.



O filme se fundamenta sobre a preparação de um musical nos palcos. O tema em si não é novo. Para citar um exemplo clássico, fiquemos com “Rua 42”( pequeno grande filme de 1933, coreografado por Busby Berkeley, dirigido por Lloyd Bacon, tendo no elenco Ginger Rogers). Filmes como esse colocam em cena o cotidiano das pessoas envolvidas em tal produção. Ou seja, fala-se da realidade que está sendo preparada para encher as telas. É um jogo de espelho onde a auto-paródia se faz presente. Alguns acreditam (com certa razão) que o filme nada acrescentou ao gênero. É verdade em parte, já que se trata de uma profissão de fé naquilo que já era feito. A crítica a mudança está dentro da película. Cordova fracassou ao modernizar o gênero. É um aviso claro: Não se modifica impunemente um gênero artístico. O filme nesse sentido se alinha à velha geração em detrimento de qualquer sopro de renovação? É uma ode a esclerose? Mister se faz colocar aqui um meio termo: O filme assinala que é necessário deixar para trás um “pouco” do sentimento de nostalgia (preste atenção em “Shoe Shine” levado a cabo por Fred Astaire). E também não devemos esquecer que se junge o clássico (bale) e o popular (sapateado, jazz); e a literatura policial servirá de base para um dos números chaves do espetáculo que surge.



O divertimento que a canção final prega não se restringe a uma atitude de passividade, a um abandono de quem assiste a uma digressão de números um tanto rasos e frívolos. O que se propõe é romper as amarras com o nosso cotidiano, para então podermos reorientar o nosso olhar a fim de perceber a beleza e o maravilhoso que é colocado na tela; em suma a construção de uma realidade feérica. Reparem na caminhada do casal no Central Park em Dancing in the dark. Ali o real é aprofundado, os sentidos são potencializados na verdade poética da corporeidade e dos gestos do casal central, através da dança e do caminhar. Eles se jungem na atmosfera noturna e lânguida da cidade que não ousa adormecer, para apreciar a beleza da natureza que vive em seu seio. Seqüência maravilhosa, uma das mais brilhantes já feitas pelo cinema. São momentos como esses que fazem com que nos orgulhemos de pertencermos a raça humana. É a arte em estado puro. Um legado artístico as gerações futuras. Deveria ser tombado como patrimônio artístico da humanidade: “Após uma discussão no quarto do hotel, Tonny e Gabrielle não estão mais certos de que poderão dançar juntos. Eles vão para a rua e sobem em uma caleça. Ela ganha o Central Park. Uma das tomadas que nos mostra ambos aninhados ali dentro é aérea. Procura-se a todo instante mostrar que o espaço é o mesmo, mas cada um reflete separadamente. A carruagem para, ambos descem, atravessam o campo e ouve-se uma música que rompe o silêncio da noite. De onde ela vêm? O casal de roupas claras desliza na noite. Cria-se um clima mágico. O casal avista o núcleo de onde vem a música. Percebemos a hesitação do casal. Existe ali o chamado da dança. A câmera cria um efeito de zig-zag. Eles tentam primeiro contornar a multidão que dança. Não tem jeito. O grupo de pares logo o rodearão. Eles entram na pista. A câmera mergulha naquela pista de dança e em seguida vemos eles já estão a deixando para trás. O lugar apenas era um pórtico que os conduziriam ao local ideal. Eles ganham uma aléia deserta. Os pares dançando serviu para elevar o desejo a um nível insuportável: Irão eles dançar?" A resposta é óbvia e procurar descrever com palavras aquilo que só os olhos podem fazer é um pecado que não cometerei. Vejam e revejam. O filme não vale somente por essa sequência. Mas que aqui eles se superaram, se superaram: Os Deuses desceram a Terra e dançaram.



Escrito por Conde Fouá Anderaos