terça-feira, 13 de novembro de 2012

A MULHER FAZ O HOMEM - CRÍTICA






Com a morte de um dos senadores do Estado de Montana, o governador se vê na incumbência de nomear um substituto. Uma junta de cidadãos já apresentou um nome para ser aprovado, só que este indivíduo não agrada o empresário que controla a mais poderosa máquina política local. Para sanar o problema, o governador acolhe a indicação dada pelos seus filhos (menores de idade) e escolhe Jefferson Smith, chefe de um grupo de escoteiros para assumir o cargo no senado ao lado do outro representante do estado (o senador Joseph Paine). Tido como simplório, que pode ser facilmente manipulado, o mesmo cai nas graças dos cidadãos (que o referendam) e do empresário (que acredita poder usá-lo nos dois meses que restam do mandato).

Smith nasceu, foi criado e, quando o filme se inicia ainda vive numa pequena cidade do Estado de Montana. Um herói sob medida para as pretensões de Capra: íntegro, ingênuo, idealista, tímido, mas corajoso. Vive sozinho com a mãe. Seu pai morreu em luta contra os barões da mineração local, a frente de um pequeno jornal alternativo. O nome Jefferson Smith aglutina as virtudes da tradição (de Thomas Jefferson) com a alma popular (Smith é um nome comum nos EUA, como o Silva no Brasil).

Assim como em O Galante Mr. Deeds (1936), a cidade grande aparece como um lugar carregado de impurezas, que tentarão macular a figura impoluta de Smith. O homem do cotidiano das ruas, guindado a posição de herói, lutando contra um leviatã de corrupção, que deságua num final mágico, extraído de algum conto de fadas esquecido, eis a síntese de sua obra. A missão do senador não será salvar o capitalismo (que ainda passava por séria crise em 1939) mas sim expor a opinião pública, o poder de uma máquina política corrupta. O inimigo de Smith é representado por Paine, que no passado foi o braço direito de seu pai. O Senador Paine ao tentar destruir o seu companheiro de senado, não luta apenas para se manter como político, mas sim para eliminar o seu eu incômodo (Smith representaria o próprio Paine, quando jovem).

O filme, ora tratado, não pode ser rotulado como épico, lírico ou dramático. Capra parece beber na fonte dos três gêneros para criar uma amálgama que surpreende o espectador desatento. Ele inicia o filme in medias res, também se utiliza de um roteiro, que contém uma história, que inconscientemente seu público (o povo americano) já conhece.



No filme ao chegar em Washington, a primeira coisa avistada por Smith é a cúpula do Capitólio. Quando ele busca inspiração para o projeto que irá apresentar no Senado, a lobriga da janela de seu escritório e diz a secretária: “É aquilo que tem de estar no projeto”. O Lincoln Memorial e o Capitólio se fundem na trama como se fosse um só. É do primeiro que desce o Espírito de Lincoln (que no filme seria uma espécie de Deus) para impulsionar Smith, para que este varra do templo sagrado (o Capitólio) os maculadores da ordem e da justiça. Lincoln seria Deus. Smith seu imaculado filho. Nessa qualidade ele enfrenta uma via crucis semelhante a de outros “Cristos” do diretor. Tentando desbaratar a rede de corrupção, o mesmo é acusado de tentar roubar o dinheiro das crianças da América com um projeto que visava valorizar uma área que estaria no seu nome. Smith aproveita uma brecha no regimento do senado para discursar, por mais de 23 horas ininterruptas, tentando desesperadamente conquistar a opinião pública. O esforço culmina num desmaio, onde ele é socorrido pelos demais senadores. O delíquio seria o término da crucificação. O prêmio para o seu sacrifício é a ressurreição posterior. Inconsciente (portanto aparentemente morto) ele derrota a corrupção. Mitologia Cristã e americanismo estão no cerne da obra Capresca.

Todas essas sequências aproximam a película do gênero dramático na concepção hegeliana. Os personagens apresentam-se autônomos, emancipados de um narrador (até por que a história já é conhecida), mas todos são dotados de uma subjetividade muito rica. Paine, Sanders e Smith interiormente são indivíduos que trazem adormecidos motivos poéticos. Smith não receia a opinião do mundo que o cerca e revela seus ideais e modo de ser, sendo tido como simplório. Contudo ele desperta nos que o cercam (principalmente em Paine, que outrora fora muito semelhante a ele) sentimentos adormecidos e esquecidos. Saunder (a secretária) revela-se uma mulher sentimental, que chega até a voltar, a ter trejeitos de menina, tocada pelo espírito de fé na humanidade. E, mesmo o repórter, que tem como designação cobrir o gabinete do senador, que aparece no filme como um conformista (1), diante do estado das coisas, apagando sua desilusão em algumas garrafas de bebida, é tomado de um novo impulso e desperta o eu que acredita, que as coisas podem ser diferentes. Já Joseph Paine na narrativa toda, revive o calvário de antigamente. Terá ele novamente a falta de coragem, que fez com que vendesse a alma ao Diabo. Teríamos aqui um exemplo de um roteiro inteiramente pautado na concepção hegeliana (2) se não levássemos em conta o narrador (3). Esse narrador que parece inexistir, é representado pelo olhar do diretor. Nós não olhamos diretamente para a ação que se desenrola. Existe no cinema um filtro que inexiste no teatro. Esse filtro é representado pelo Diretor/Narrador. E nos filmes de Capra (Assim como nos longas de Chaplin/Carlitos) esse filtro é muito mais nítido. Para ambos, o distanciamento proposto por diretores como Rosselini ou Bresson não é tomado como regra. Para eles o envolvimento emocional do espectador é obrigatório. O fato de olharmos através do olhar do diretor, de que os locais onde se passa a ação, serem distantes entre si (Montana e Washington), descaracterizam o filme enquanto dramático, aproximando-o do gênero épico.

Foi o diretor que decidiu escolher os momentos a serem narrados. Há várias cenas que procuram reforçar o caráter dos personagens, e que não influenciariam na totalidade, mas nesse instante parece que o narrador quer deixar seu “eu” falar (o discurso de agradecimento por ter sido escolhido como senador, ou quando pergunta pelo nome da secretária). É nesse instante que a Lírica surge na obra. Capra acreditava que o indivíduo não massificado (um nome qualquer, o nome não importa) poderia melhorar o mundo. É no interior que ele acredita existir esses personagens. É lá que ele buscará sempre um personagem para expor suas ideias. O cinema de Capra tinha um caráter todo pessoal, numa época em que o cinema de autor estava alijado da produção americana.

Notas
1 – Conformista teria um significado diferente de conformado. O conformado seria aquele que aceitas as coisas como elas são, por que as mesmas não podem ser mudadas. O conformista não luta pelo que pode ser mudado, por que não é incomodado por esse estado de coisas, ou por simples preguiça.

2 – O filme apresenta o tempo todo, personagens que se chocam entre si. Desses choques nasce a ação que caminha para um desfecho. As personagens se desvendam paulatinamente aos olhos do público. A subjetividade deles, como já foi dito, é muito destacada.

3 – Compreendo perfeitamente que na Dramática a ação, aparenta não ser filtrada por nenhum mediador. O filme apresentado é constituído por uma série de diálogos, sem interferência do autor (intertítulos, datas). Existe o desaparecimento do cenário, seria como se realmente estivéssemos vendo o Senado e os personagens. O futuro dos personagens que não pode ser desvendado antes do fim, a utilização do flashback evocado nos diálogos (no trem entre Joseph Paine e Jefferson Smith) para não interromper a ação dramática (tempo linear e sucessivo). Apesar de a história se assemelhar a de Cristo, o autor (diretor) faz com que tudo aconteça novamente, perante os nossos olhos (Lessing).


Escrito por Conde Fouá Anderaos

Um comentário:

Camila disse...

Esse filme (e o James Stewart, além do Frank Capra, claro) é um dos donos do meu coração!

Belo texto!