quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Bastardos Inglórios







Credita-se com acerto a Walter Scott (Ivanhoé) o primeiro artífice que elaborou a técnica de inserir personagens fictícios dentro de um momento histórico já definido, conseguindo assim recriar e recontar uma história já sabida. Não foi só isso, criou também a interação entre personagem e esse momento histórico, fazendo com que este último crie especificidades nos caracteres dos personagens. Criou-se assim uma amálgama que junge os conflitos históricos aos conflitos internos dos personagens. E também a possibilidade de se lançar um novo olhar sobre os personagens históricos que são vistos através dos olhos desses personagens fictícios. 


A primeira seqüência de “Bastardos Inglórios” logo após os créditos de abertura ao som de ““The Green Leaves of Summer” ” fez com que me quede a uma realidade: Quentin Tarantino é um dos grandes cineastas da história do cinema. A mínima dúvida que eu pudesse ter sobre a sua capacidade enquanto artesão desaparece. Somente um gênio poderia criar de diálogos tão inspirados e fazer uso de todo o universo do pensar nazista. 

Falemos dessa seqüência que abre a película e já que adentrou para os anais da sétima arte. Ela é pungente e insustentável: Fala do nazismo e sua ideologia que consistia em cooptar as boas pessoas mostrando que elas eram falhas somente por esconderem judeus e que poderiam se redimir em os caçando. O roteiro torna cada segundo mais pesado que o precedente, cria um suspense que nos parece insustentável, através de diálogos suaves em aparência, jogando o jogo da sedução o mais pervertido que seja. Instruído, afável, agradável e meloso, o Coronel Hans Landa é sem sombra de dúvida o maior símbolo do Nacional Socialismo concebido pelo Cinema. Ele fere mais por nos soar simpático. Não foi só o fazendeiro LaPadite que fraquejou diante daquela figura. 

A criação de Christoph Waltz não soa em momento nenhum inverossímil. Ele cria um personagem se tornará lenda: um coronel nazista, definido por ele próprio como um Falcão que caça ratos judeus e um detetive que sempre está um passo adiante de sua vítima. O ator dota o personagem de um gestual inusitado, um ar dissimulado e um talento cômico que cativa quem assiste, apesar de sabermos estar diante de um monstro. Essa caracterização faz que quem divida a cena com ele fique em segundo plano(salvo a magnífica presença de Mélanie Laurent - Shosana Dreyfus) Ali carrasco e vítima se encontram em curta cena. Mas o duelo (por falta de uma melhor palavra vai essa – ambos em realidade engrandecem a obra) persiste. Cabe a ela criar um personagem que mescla fragilidade e docilidade, aliada a uma inteligência impar que se presta a se sacrificar em nome do término do terror (ok, existe também o sentimento de vingança, mas parece soar mais forte ali a vontade de tornar o mundo algo melhor).

Ainda que muitos torçam o nariz, sobretudo os historiadores, já que Tarantino de certa forma reinventa um final para o conflito mundial, não se pode negar de forma alguma que tudo soe por demais inverossímil. A cena inicial com o embate entre o Cel. Hans Landa e LaPadite, já nos mostrava que Tarantino se despojou de toda aquela desconstrução temporal e repetição narrativa. Opta pelo essencial: Uma boa história; personagens bem construídos e interpretações irrepreensíveis. E o mérito todo cabe a Tarantino, pois é dele o roteiro e a direção magistral que ousa sem exagerar. É tênue o fio que divide o excesso do genial. Tudo se desenrola numa singularidade que surpreende.




No entanto tenho sérias reservas com o filme. Nem tanto devido às deformações históricas que fogem do aceitável, já que parecem que os personagens dos bastardos parecem ser do século XXI, entraram em uma máquina do tempo e caíram no meio do conflito. Mais até isso eu aceito, pois os diálogos maravilhosos compensam essas deficiências. As reservas a que me refiro são mais de questões de princípios. Eu não amo a idéia de que Tarantino não critique através do filme talvez os excessos belicistas dos últimos anos. Concordo com a observação de Daniel Dalpizollo: "Tarantino continuará sendo o diretor mais arrogante do mundo enquanto souber fazer filmes melhores do que 95% do restante. Como disse o Thiago, um filme pelo Cinema, que ao lado de A Espiã traz algumas das melhores observações sobre a barbárie da guerra."

O que me incomoda é que parece que ele se diverte e reforça o modo de agir nazista. Ao optar por mostrar que todos se encaminham a reencontrar a barbárie, parece reforçar o pensamento nazista. A tropa de bastardos em nenhum momento parece combater o discurso nazista, pois em suma eles usam do mesmo expediente que os ditos “algozes”. E em se perpetuando o modo nazista, que pregava o aniquilamento, a suástica parece estar cada vez mais entranhada dentro das mentes futuras, sem que elas se dêem conta de tal.

A idéia de se marcar os adversários, era um expediente comum usado dentro dos campos de concentrações nazistas. Lá também cada “cabeça de gado” era marcada. Sabemos que tal expediente não foi uma criação dos nacionais socialistas alemães. Na Argentina do Século XIX(para citarmos um exemplo apenas), o caudilho Juan Facundo Quiroga, obrigava que seus adversários políticos usassem vestimentas que os identificassem. Onde aprendera isso? Nas estâncias de gado onde se criara.

Ao tatuar ou assassinar friamente os seus adversários, os bastardos nada mais fazem que perpetuar o modo de agir nazista. E o final que pode soar para alguns genial, é a grande mentira que corrobora todo o filme; quando o personagem Aldo Raine diz ter realizado a sua obra-prima parece que quem fala é seu diretor. Tarantino está longe de ter feito a sua, ainda que tenha confirmado para o mundo que tem capacidade para isso. Por enquanto ainda creio que filmes como “A vida é Bela”, ainda que feito por um diretor de menor capacidade, tenha contribuído no esvaziamento do discurso nazista e sido mais genial ao relatar os horrores do Terceiro Reich. Tarantino parece crer como Goebbels que o cinema pode ser uma poderosa arma (a idéia de usar os filmes para liquidar a cúpula nazista é genial) mas no final ficou-me a sensação de que falta um rumo ao seu cinema. Ele parece se comprazer em se satisfazer a si próprio.



Escrito por Conde Fouá Anderaos

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Loja da Esquina.


A LOJA DA ESQUINA (1940)

A mais humana comédia de Lubitsch




"É um tema universal e uma história simples. Conheci uma lojinha como esta. Os sentimentos entre o patrão e os que trabalham para ele são os mesmos em todas as partes do mundo creio eu."

"Em termos de comédia humana creio que jamais fui tão bom como em "A Loja da Esquina". Nunca fiz um filme em que a atmosfera e os personagens fossem mais reais".

Não é de hoje a minha predileção pela comédia. Sobretudo aquela produzida na década de 30 e 40 nos EUA. Todos já sabem o carinho e a paixão que nutro por elas. Atenção essa que não me afasta de outros estilos e gêneros. E se eu fosse comparar tal gênero a um delicioso bolo, a cereja de tal iguaria seria a obra capresca. Mas nem só de Capra viveu a Comédia Sofisticada. 

Vários diretores deram sua contribuição ao gênero: John Ford, Willian A. Wellman, Sam Wood, René Clair só para citar alguns. Outros produziram um número maior de obras como Mitchel Leisen, La Cava, Billy Wilder, Preston Sturges, Howard Hawks, Leo Mcarey e Ernst Lubitsch. 

E Ernst Lubitsch é um nome que merece uma atenção a parte. Nunca vi um filme dele que fosse, digamos médio. Não. São sempre produções boas e esta que me leva a escrever é a que mais apreciei. Um primor. 

“Alfred Kralik trabalha faz nove anos na Loja de Matuschek em Budapeste. Certo dia seus olhos se fixam em um pequeno anúncio pessoal de uma jovem mulher a procura de alguém. Ele entabula no início uma correspondência cultural que se encaminha naturalmente para o amor. Um belo dia uma certa jovem de nome Novak se emprega na mesma loja. E lá eles vivem incomodados um com o outro. Evidentemente a jovem Novak é a correspondente misteriosa pela qual Kralik se apaixonou...”

Apesar dessa simplicidade de sinopse não se engane. Estás diante de uma rara jóia. Uma comédia que carrega consigo um charme todo especial. Trata-se de uma comédia romântica onde ambos os protagonistas cairão um no braço do outro. Mas o interesse aqui está localizado no mise em scene, na concepção dos diálogos, na interpretação extraída de todo o elenco. Navegaremos durante a projeção no oceano da elegância. 

O regozijo, a satisfação, que nos toma do início ao fim, não é advinda de um ritmo desenfreado, tampouco de diálogos curtos e réplicas ácidas entre os protagonistas. O sorriso é permanente, mas às vezes melancólico, já que é grande a humanidade que emana de cada personagem: sonhos, limitações, medos, desilusões, a vida em seus altos e baixos. E a direção de Lubitsch permite que os atores carreguem uma densidade na construção de cada ser, que às vezes esquecemos que se trata do não real. 

A câmera capta com acuidade, o que nas mãos de outra direção soaria cruel: o medo do desemprego, as ligações de poder, as adulações e também o espírito de equipe. E em todo momento o diretor demonstra conhecer muito bem o que retrata, pois em cada cena, enxergamos além da aparência o que vai n’alma de cada um, as feridas ou cicatrizes deixadas pela experiência da vida. 

Notemos a grande diferença que existe entre Capra e Lubitsch. O alemão trazia para as telas a bagagem cultural do velho mundo: citações, objetos, literatura, música, tudo coabita em sua obra. Os personagens citam Shakespeare, lêem Tolstói; os objetos transmitem cultura – As caixinhas de cigarros executam “Olhos Negros”, folclórica canção russa. Capra não dotava seus personagens de tanta bagagem cultural (o que não desmerece sua obra; é tudo uma questão de perspectiva).

Os empregados deixam transparecer em cada olhar, a alegria e a tristeza nas funções mais simples que lhe cabem em seu cotidiano. Quando são escalados para arrumar a vitrine após o expediente; o vazio da loja se reflete no vácuo do imo d'alma através do olhar de Norvak(e podia ser qualquer outro) e seu ressentimento por estar ali. 

Lubitsch também usa nesse filme o recurso da gag contínua que é sua marca ( Em Ladrão de alcova, François tenta se recordar de onde conhecia o secretário da viúva e em várias cenas se apresenta o double-take – movimento com a cabeça de quem percebe as coisas com atraso). Aqui o que serve a esse propósito é a atitude de Pirovitch se esconder cada vez que Matuschek pergunta: Sinceramente... Qual é a tua opinião? Gag em três movimentos, no primeiro o empregado some nos fundos da loja. Na segunda sobe as escadas do depósito e na terceira ao ouvir a frase, interrompe a descida (o reconhecemos pelos sapatos e pernas) e sobe de costas silenciosa e vagarosamente, sem provocar qualquer ruído. É uma contínua anulação do ser. A cada cena menos vemos de seu ser. E uma ode inteligente ao riso. 

Lubitsch desnuda-nos um mundo burguês. Alguns ainda sonham em se posicionar dentro desse orbe, estão contrafeitos com a posição que ocupam (caso de Klara e Kralik), mas também tem consciência do horizonte que podem alcançar. Não é um mundo estático. Todos possuem qualidades e também defeitos. As vezes elas sobem a superfície (caso da coragem de Pirovitch). Nesse sentido Matuschek é o catalisador de todas as tramas. É em torno dele e de seu mundo que tudo ocorre.

E como num toque de magia inaudita essa obra de Lubitsch aproxima-se daquelas produzidas por Capra. Matuschek vai ao correr da obra perder um pouco daquele cinismo ligeiro, dando lugar ao aparecimento de alguém mais brando e sentimental. Tal já ocorria antes, sem que o percebêssemos, já que é notório que o número de empregados era superior a necessidade da empresa. E após a desilusão familiar isso se acentua. Essa tentativa de transformar o ambiente de trabalho, reconstruindo ali o lar perdido, aproxima-se das soluções caprescas. Alguns podem considerar uma barriga, uma fraqueza na obra. Para mim não. É a prova maior que os gênios acompanhavam as lições e descobertas realizadas pelos outros. E ainda que inabitual nas obras de Lubitsch, isso funciona a mil maravilhas, por que não foi posta ali de forma abrupta. Desde o início esse desfecho havia sido pensado.

Talvez minha iguaria, meu bolo predileto, tenha espaço para duas cerejas. 

E é uma iguaria deliciosa para os olhos e a alma. Bom apetite a todos


Escrito por Conde Fouá anderaos

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

AS MULHERES (1939)






É tese defendida por muitos que teriam sido as mulheres um dos grandes móveis de mudança dentro da Europa no tocante ao cotidiano medieval. Sendo verdade que a sociedade era estamental, pouca circulação havia das ideias, tampouco das particularidades de certas comunidades em relação a outras. Quando a filha de um nobre era desposada, junto com o dote mudava-se para a nova residência também o testemunho vivo da realidade em que vivia e a possibilidade dela implantar em outras plagas algumas pequenas mudanças que interfeririam naquele cotidiano. Logicamente que durante tal período ainda a mulher era visto como um objeto de escambo e foi provavelmente o Marquês de Condorcet o primeiro filósofo que alçou a mulher ao mesmo patamar do homem (defendia a igualdade no direito ao voto, educação, campo profissional, etc). Ainda que não nítida tal atuação foi decisiva para que o mundo ocidental mudasse.

 

Esse filme de Cukor do qual já ouvira falar tem, sobretudo um título que abarca nossas companheiras como um todo, mas sobretudo um subtítulo exclamativo que as colocam na testa de nossos destinos: it's all about men! O filme decepcionará certamente aqueles que foram conhecê-lo, já pleno da emancipação feminina dos anos 60 e 70. Não se trata de um filme feminista, mas sim de um filme feminino. Aquilo que primeiramente chama a atenção é a inexistência em toda a sua projeção de alguém do sexo masculino (até os animais que surgem são todos fêmeas). E para coroar a ousadia foi dirigido por alguém que tinha a alcunha de ser o cineasta da mulher (uma das causas de sua demissão da direção de “... E o vento levou” foi que Gable receou que sobre sua direção, os papéis masculinos ficassem em segundo plano – algo que a luz da razão soa ilógico já que James Stewart dirigido por ele faturou o Oscar  e  também Ronald Colman... Mas se a lenda for maior que a realidade, publique-se ela – já nos diz famoso filme de Ford).

De certa forma foi bom para o filme que Cukor assumisse a direção. Tal projeto fora planejado primeiramente para ser dirigido por Gregory LaCava(em 1937), para alçar ainda mais a carreira de Claudete Colbert. Mas o projeto desandou e em 1938 foi cogitado para os papéis principais Carole Lombard e a própria Norma Shearer. Somente no ano seguinte com a disponibilidade de Cukor (defenestrado de “... E o vento levou”) o projeto ganhou formas. Certamente foi ousadia dele ter em suas mãos um elenco totalmente feminino.  Provavelmente seu assentimento contribuiu para que essa idéia motriz ganhasse as telas. Um filme sobre mulheres? Certamente. Mas também um filme sobre relacionamentos, sobretudo aqueles que valorizam os de mãe para filha.

O filme se abre de maneira audaciosa com a câmera invadindo um território totalmente delas. Um salão de beleza onde a câmera passeia pelo banho de lama, bronzeamento artificial, manicure, cabeleireiras, salas de massagens, maquiagens, etc. Uma selva onde a maledicência, mexericos e maldades preponderam como a música ambiente. E tais diálogos ofídicos se estenderão por toda a película. 


De lá partirá a notícia de que o marido de uma delas se atirou nos braços de uma vendedora de perfumes devoradora de homens. E tal ganhará tal repercussão que temos a certeza que todas estão envolvidas no desejo de que o circo pegue fogo: “Duas mulheres estão sorrindo. O que terá acontecido de ruim com a melhor de suas amigas” – Machado de Assis. Essa dissimulação é alvo do olhar atento do diretor. Elas não lamentam o ocorrido. Elas o divulgam de maneira que se fosse só um rumor ele ganharia ares de verdade. Cabe a personagem de Rosalind Russel ser a mais cruel e hipócrita. A sua caracterização ora toma ares repulsivos, ora nos faz rir da sua frivolidade. Perfeita atuação que não resvala na superficialidade, tal personagem é verossímil até os ossos. Se Rosalind Russel acerta no tom, o mesmo não se dá com Joan Crawford. Ainda que ela possua o phisique du role. Ela constrói tal personagem de forma que não exista nenhuma nuance agradável. É a encarnação pura de uma vampira sedenta de jóias e dinheiro. Talvez a época tenha causado certo impacto, mas tal imagem não nos convence mais nos dias de hoje. Falta densidade a tal figura. Melhor se sai Virgínia Weidller como Marie Haines que não compromete e convence no papel da filha que pressente que o mundo em que pisa ameaça desmoronar. Ainda que não fuja do estereótipo da época, consegue emocionar e não soa artificial sua presença bem como da veterana Lucile Watson como a avó que procura blindar com a sua experiência o lar da filha (alguns entenderão, não sem razão, que tal figura é mantenedora da submissão da esposa a um casamento indigno, por outro lado o que Cukor discute não é a relação em si, mas os sentimentos que envolvem tais situações). Hoje pode soar estranho o caminho trilhado pela personagem. De simplesmente retomar o barco naufragado por culpa do cônjuge. Mas o que se discutia era o sentimento dela por tal homem. E se o barco foi a soçobro definitivo, tal se deu pela aparente passividade dela. E no brilhante diálogo entre Miriam Aarons e Marie tudo se esclarece. Tem lá sua lógica, mas o final talvez seja a parte mais decepcionante dessa obra ousada para época.

Para complementar o filme outras tramas se desenrolam. Servem de exemplos do caminho que poderia seguir Marie. Sylvia Fowler acaba experimentando em si tudo aquilo que a regozijava ver acontecer com a outra. E para fazer par a caricatura de Crawford nada como a condessa de lave, vivida por uma Mary Boland que não deixará saudades.

O resultado é um filme inovador para a época (há uma seqüência de desfile toda colorida), mas que perdeu muito do viço, sobretudo pelo seu final previsível. De qualquer forma tem seus momentos de brilho e vale até hoje a entrada.
Avaliação: 7/10

Escrito por Conde Fouá Anderaos