sábado, 21 de julho de 2012

Na Estrada (On the Road, 2012)






Há certamente uma triste subversão do espírito incontido e cambiante Beat do livro de Jack Kerouac, encenado tão somente como uma auto-afirmação superficial. Perde-se toda a ideia esfuziante por trás dos atos; é como se de cada passagem, o filme focasse apenas nos tabus sociais em si mesmos (haja benzedrina, maconha e sexo), que roubam a cena em detrimento da motivação íntima do ser.

As ações libertárias soam como mera birra e teimosia. As drogas, as orgias, os roubos, enfim, toda a pretensa loucura é pavoneada na tela e pintada em cores impactantes. Mas lhe falta a incandescência e a louca lucidez incompreendida. Falta-lhe aquela chama interior que não está nas pontas dos cigarros.

Como atribuir a Sal, Dean, Marylou e companhia, a alcunha de detratores das convenções sociais e ideias pré-concebidas, se fazem tantas farras e comemoram tão freneticamente um simples dia de ano novo? E como falar de amor e pureza, tendo em vista que se devoram e corrompem e abandonam-se uns aos outros como canibais, em nome do puro hedonismo?

Ora, então onde, eu pergunto, se encontra o despertar e a iluminação de espírito?

Não há em suas ações nada de sábio, como se pretende crer. O que se vê são apenas pessoas aprisionadas pelas amarras dos vícios, em um embelezamento artificial, usando-se como pretexto o velho clichê “vamos aproveitar a vida”, para se entregar hipocritamente aos seus atos. Quanto a mim, sou daqueles que não enxerga a satisfação da felicidade nessas ações. Outros prazeres me agradam mais e me tocam de forma mais verdadeira.

Não bastasse, a câmera nada transgressora de Salles participa fria e distantemente de toda a vertigem que ali se passa, mas ela própria não faz parte do show; é uma acompanhante que em nenhuma hipótese acompanharia Kerouac nas estradas da vida. As escolhas doentiamente óbvias irritam bastante. Um filmar cheio de intenção, mostrando os pés em movimento é de se lastimar. A aparição injustificada e escandalosa de trechos escritos, clímax forjados, visando apelar pra uma espécie de estardalhaço poético não é menos patético.

De fato, é um filme coerente com a concepção de seu realizador, que quis construí-lo essencialmente em função de “causar polêmica”, como disse o próprio Walter Salles numa entrevista, quando questionado sobre a intenção de seu filme. Um objetivo, ao meu ver, no mínimo indigno para se falar em arte, e mais ainda para se falar em“aproveitar a vida”.


Um comentário:

Jefferson C. Vendrame disse...

Acabei de ler sobre esse filme em um Blog de um outro amigo... Estou curioso para ver esse novo trabalho de Salles,espero que o mesmo chegue ate os cinemas de minha cidade...

Grande Abraço