sábado, 30 de junho de 2012

Sombras da Noite






Sombras da Noite, baseado em uma novela vampiresca da Tv norte-americana, é uma fábula que renasce do velho túmulo característico de Tim Burton à pinceladas expressionistas. De fato, a encenação poética do horror, os contrastes de sombras /névoas e cores pulsantemente obscuras; enfim toda a construção visual soturna da obra é, sem dúvidas, o que especialmente a faz tão bela.

Como em quase todos os filmes de Tim Burton, seja na pele de Edward ou Ed Wood, por exemplo, o tema é o desajuste existencial, sobre um individuo que é perante os outros uma peça estragada do quebra-cabeça (reflexo, talvez, de sua infância solitária e perturbada). Aqui o conflito se dá no transcorrer de épocas, no embate do recalque luxuoso dos salões e lustres nobres com o mundo pós-moderno de superficialidades e outdoors fastfoodianos.

Barnabas Collins (Johnny Depp) é um rapaz de uma renomada família detentora de riquezas e empreendimentos bem-sucedidos. Até se ver transformado em vampiro, por uma bruxa (Eva Green) que nutre por ele uma paixão doentia e não correspondida, que por isso mesmo o enjaula num caixão, do qual ele sairá apenas quase que duzentos anos mais tarde.  


Liberto, o vampiro deslocado é devorado por milhares de estranhamentos e contratempos, que estão certamente entre os momentos mais interessantes  do filme. Todavia, o enfoque amoroso permanece, enquanto a bruxa Angelique empenha-se em seduzir o amor de Barnabas com seus encantos, e este, por sua vez, anseia desastradamente a cativar uma jovem (Bella Heathcote) que julga ser sua antiga amada de outros tempos.

Dizer que a história é fraca por carecer de “profundidade” é pecar por pretensão. Ora, nem toda boa obra artística requer densas reflexões filosóficas ou intensivas críticas sociais. Senão... à fogueira com a literatura de Edgar Allan Poe, com os quadros de Van Gogh, as sinfonias de Mozart e mesmo com alguns dulcíssimos romances shakespearianos, que se valem tão somente da expressão artisticamente engendrada no valoroso intuito de tocar e revirar nossos corações. A arte, e, sobretudo o cinema, impõe-se como experimentação dos afetos. O modo fantasmagórico como se insinua a alma gótica e delicada da história é a própria história.

No entanto, se pensarmos que originalmente a trama baseia-se numa série de vários episódios, fica evidente a dificuldade de abordá-la em sua inteireza num breve filme comercial. De fato, o maior problema do filme, ao meu ver, está ligado à introdução repentina de elementos inusitados somente ao final, como que lançados desavisadamente em um liquidificador caótico. Ainda assim, Sombras da noite é um grande filme. Esteticamente primoroso e ao melhor estilo burtoniano. Indeed.

2 comentários:

Alana Supertramp disse...

De fato, Sr. Soup, percebi também essa liquidificação de cenas que ocorreu no filme, não somente no final. Mas cá entre nós, tal fato foi pouco incomodo (pelo menos a mim.)

Enfim, compartilho o meu comentário sobre o filme:

Inegável a presença excêntrica que Tim Burton tem a nos oferecer, né. O que tenho a dizer sobre o filme? Maravilhoso. Aos olhos desfocados de atenção e profundidade pelo o diretor, acharão fraco o filme e erroneamente julgarão como um filme superficial, A-Burton. Mas humildemente, preciso discordar de todas as críticas negativas que fizeram sobre o filme. Com um olhar atento e sensível as leituras burtonianas, percebe-se facilmente a história sobre a apática vida do século XXI, o eterno estranhamento existencial perdido entre ruas iluminadas por lâmpadas. O cheiro de ternura entre as trevas mais suaves, puras que apenas o Tim Burton tem a nos oferecer está vivo o tempo todo no filme. E é claro, também o referente e delicioso humor burtoniano de enxergar, sentir as coisas medonhas por uma outra perspectiva. ♥

Jhonny Depp mais uma vez esfrega na cara de muitos críticos seus dotes artísticos.

Película Criativa disse...

Parabés pelo blog (já estou seguind) e pela avaliação do filme.

Longe de ser um fracasso, “Sombras da Noite” é inegavelmente divertido e promete seduzir o espectador com a misteriosa saga de Barnabas Collins. Mas, durante seus 112 minutos de duração, o filme não entrega o nível de profundidade, suspense e ousadia que esperamos de qualquer filme dirigido por Tim Burton.

Leia também: http://peliculacriativa.blogspot.com.br/2012/07/critica-sombras-da-noite-dark-shadows.html