quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando as Metralhadoras Cospem


O primeiro trabalho de Alan Parker na direção, logo antes de dirigir O Expresso da Meia-Noite, um dos seus trabalhos mais aclamados sobre a vida numa prisão turca, se consiste, basicamente, numa comunhão de filme de máfia com musical, ambientado na Nova Iorque dos tempos de lei seca. Sua semelhança com alguns trabalhos que viriam a sequência como Era Uma Vez na América de Sergio Leone e Chicago de Rob Marshall é tão gritante que chega a dar uma quase certeza de que estes últimos foram diretamente influenciados pelo trabalho de Parker.

À partir da figura de Bugsy Malone, personagem fictício baseado em figuras reais como Al Capone, Bugsy Siegel e Bugs Moran, somos levados à história de Fat Sam, dono de um cabaré típico do período histórico em que está inserido, onde ocorre o comércio ilegal de bebidas "alcóolicas" e que vê sua hegemonia cair quando uma gangue rival surge com um tipo muito mais moderno de armamento, uma metralhadora. O poder de fogo da gangue de Fat Sam se vê imediatamente ultrapassado, visto que agora seus rivais conseguem ser muito mais eficientes em atirar tortas.

Tortas? Sim tortas. Uma coisa que eu não disse sobre o filme é que todos os personagens, sem exceções, são interpretados por crianças e adolescentes de, no máximo, dezesseis anos. Nisso temos desde Bugsy, Fat Sam, a femme fatale Tallulah (interpretada pela única pessoa não-estreante do elenco, Jodie Foster, que já havia trabalhado no ano anterior em Taxi Driver), os próprios gângsters, as dançarinas de cabaré e até mesmo os repórteres, todos crianças e adolescentes. E para se adequar a tal atmosfera, algumas adaptações acabaram sendo feitas, como armas dispararem tortas ao invés de balas, móveis menores para se adequarem à estatura mais baixa dos personagens, carros movidos a pedal e bebidas "alcoólicas" que mais parecem soda com corante.

Todos esses elementos, em comunhão, conferem a esse Quando as Metralhadoras Cospem, um ar mágico, reforçado pelas composições magníficas de Paul Williams, que acabaram sendo merecidamente reconhecidas com uma indicação ao Oscar de Melhor Trilha Sonora. Entre as canções, podemos destacar a canção que dá nome ao filme (no original, é claro), Bugsy Malone, cujo estilo semi-jazzístico é bem semelhante ao utilizado em certas canções do musical Chicago.

Talvez o único problema do filme seja a dublagem das canções. Quando da produção do filme, reza a história que Alan Parker disse a Paul Williams que não queria vozes esganiçadas de crianças interpretando as músicas. O compositor interpretou isso e optou por colocar adultos dublando os atores mirins nas cenas musicais. Embora o resultado seja consideravelmente satisfatório, a comunhão entre som e imagem deixa muito a desejar. Lamentável, mas nada que estrague a obra.

Explícito que a intenção de Parker aqui era fazer um filme de gângster para crianças, e o resultado se mostra de uma competência tão extraordinário que acaba se tornando uma experiência ímpar para o espectador, independente da idade deste. Para os mais jovens, a oportunidade de se imaginar na pele dos seus heróis, para os mais velhos, o resgate daquela inocência infantil, para os mais vividos, a comunhão entre o excitante e o mágico.

2 comentários:

ANTONIO NAHUD JÚNIOR disse...

Jorge, vi BUGSY MALONE na tevê, faz tempo, e gostei muito. A Jodie tá linda como femme fatale.
Abraços,

www.ofalcaomaltes.blogspot.com

pseudo-autor disse...

Você não faz ideia do como eu sinto falta do Alan Parker nesse cinema de hoje! Vi quando as metralhadoras cospem há tanto tempo, na sessão da tarde, que nem sei mais precisar quanto tempo faz. E realmente, como disse o Antonio, a Jodie Foster está linda, em começo de carreira.

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