quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Véspera de ano novo + morte = uma experiência assustadora

Crítica: A Carruagem Fantasma


Victor Sjöström é considerado um dos diretores mais importantes do cinema mudo e o pai do cinema sueco. Seus filmes influenciaram dezenas de cineastas contemporâneos. É inadmissível que um cineasta de tal importância seja praticamente ignorado e desconhecido nos dias de hoje.
Sjöström dirigiu mais de 50 filmes ao longo de sua carreira e atuou em vários outros. O seu filme "A Carruagem Fantasma", de 1921, pode ser considerado uma verdadeira obra-prima.
A história gira em torno de uma lenda sueca, evocada por três bêbados na véspera de Ano-novo. Segundo essa lenda, se a última pessoa que morrer no ano for uma pecadora, ela estará condenada a conduzir, durante todo o ano, uma carruagem fantasma que recolhe a alma dos mortos, e presenciar todo o sofrimento e angústia causados pelas mortes. David Holm (interpretado pelo próprio Sjöström), um bêbado detestável e repugnante, morre na véspera de ano-novo, e está condenado a tal punição.
O filme é maravilhoso. Utilizando-se de recursos inovadores para a época, como flashbacks, e flashbacks dentro de flashbacks, consegue compor um roteiro inteligente e perfeito, embora possa soar um tanto ingênuo para algumas pessoas nos dias de hoje.
O filme começa com uma enfermeira à beira da morte, na véspera de ano-novo. Ela pede para que possa ver David Holm uma última vez. David está bêbado, junto com outros dois amigos, esperando para brindar a passagem do ano, e se recusa a vê-la. David conta a seus amigos a história de um amigo que morrera na véspera do ano-novo anterior. Nesse flashback, vemos o amigo de David, e ele, em novo flashback, narra a história da carruagem fantasma, antes de se tornar o condutor dela. A partir do momento em que David morre, novos flashbacks contam a sua história, e o presente mostra o arrependimento de sua alma por ter causado tanto sofrimento à sua família e a outras pessoas.
Pode parecer complexo, mas não é difícil de se acompanhar. Destaque para as cenas que mostra as almas. Feitas através de técnicas de superposições simples, porém engenhosas, vemos fantasmas transparentes atravessando paredes, além da carruagem sendo dirigida sobre as águas. Esse processo, visto hoje, com as revolucionárias técnicas modernas, pode soar ultrapassado, mas é um verdadeiro marco da história do cinema, e o filme pode ser considerado o precursor de uma série de filmes famosos, desde "Ghost" à "Os Espíritos", de Peter Jackson.
Aliás, o filme apresenta cenas com uma incrível semelhança com filmes modernos. Tente assistir ao filme e não notar em como a cena em que David, após perseguir sua família, arrebenta uma porta trancada com um machado, não é incrivelmente parecida com uma famosa cena de "O Iluminado", de Stanley Kubrick.
Aliás, não só Kubrick admite ser fã de Sjöström. Vários outros diretores também, inclusive outro grande nome do cinema sueco: Bergman. Tanto que Bergman oferece a Sjöström um papel no filme Morangos Silvestres, no que viria a ser a sua última atuação.
O filme hoje pode soar um tanto datado, principalmente para os adolescentes acostumados com os blockbusters norte-americanos do ano. Mas trata-se de um filme fundamental para todos os amantes da sétima arte, e que não merece ser desprezado em hipótese nenhuma.
A Carruagem Fantasma (Körkarlen, Suécia, 1921). Direção: Victor Sjöström. Elenco: Victor Sjöström, Hilda Borgström, Tore Svennberg, Astrid Holm, Concordia Selander, Lisa Lundholm, Tor Weidjen, Einar Axelsson, Olof As, Nils Ahrén. Duração: 93 minutos.

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