sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Sobre o direito de auto-criticar



Com o passar do tempo, tudo muda: o universo se expande, os planetas giram, a mente subverte-se. E mudando bruscamente a postura usual do blog, não venho aqui para afirmar, mas para negar. Venho, na verdade, fazer uma auto-correção. Há algum tempo, escrevi sobre o filme de Nolan, Inception, e lembro-me bem de ter desfilado uma série de elogios acerca de sua obra, todavia, negá-los-ei agora. É preciso esclarecer que, em minha concepção, não há o menor aviltamento nisso; pelo contrário, como todo ser que tem por hábito o questionamento, não tomando afirmações (mesmo que tais saiam de si mesmo) como verdades absolutas, sinto-me feliz em poder fazer auto-críticas e mudar de opinião. Aliás, você, leitor, há de concordar comigo que também mudou. Certamente não é mais o mesmo de tempos atrás, da mesma forma, seu gosto deve-se ter refinado bastante. De minha parte, afirmo que negarei a mim mesmo até o meu último instante de vida. Ou talvez não.

Em todo caso, esclarecerei os principais motivos que me levaram a tal mudança após, é claro, uma revisão da obra em questão:

1) O Didatismo: Convencionou-se julgar o filme de Nolan como inteligente. Em meu ponto de vista, inteligência corresponde à capacidade de compreensão do cérebro, ao digerir a assimilar fatos e circunstâncias e, nesse sentido, o filme de Nolan fracassa miseravelmente. Como não digerir algo que já se vem minuciosamente detalhado? Não obstante a pretensão intelectual (Oh, vejam vocês, ele colocou um sonho dentro de um sonho!), tudo que se precisa saber para que se compreenda Inception é escancarado o tempo todo, como se o cineasta pedisse permissão aos espectadores para que avance com a verdadeira trama, a qual só se inicia após seu prólogo interminável. Com efeito, perde-se talvez mais da metade do filme com explicações pormenorizadas de uma mecânica inventada por Nolan – que de onírico, paradoxalmente, não há nada.

2) Fuga da Imagem: Primordialmente, o cinema não se caracteriza por outra coisa senão a imagem. Afinal de contas, o som - por exemplo, desde o nascimento da sétima arte, mostrou-se dispensável para sua existência. Existe, na verdade, uma relação de protocooperação entre ambos – e também outros elementos, na qual, mediante boa utilização, o cinema pode evoluir, mas nunca se subordinar a esses tais elementos. O roteiro de uma película, como provou Godard, não é elemento indispensável. Da mesma forma, tomando-se o tal conteúdo do filme (apesar de o cinema em si já ser conteúdo) como principal elemento, poder-se-ia muito bem ler apenas o roteiro que estaria de bom tamanho. Sem a imagem, entretanto, seria impossível a existência do cinema enquanto cinema; seria outra coisa que não cinema. Se houvesse apenas a história, seria livro/roteiro. Apenas o som, seria música. Por outro lado, o cinema sem imagem seria como uma tartaruga sem casco. Nolan, com seus cortes frenéticos, como se quisesse fugir da imagem, nunca a deixando assumir seu estado pleno de imagem, assemelha-se mais a um malvado caçador de tartarugas, metaforicamente, cortando sem piedade não seus planos, mas a tartaruga, por conseqüência, o cinema. Afirmo, pois, que Inception é a pura manifestação do anti-cinema.

3) Personagens-pretexto: As personagens do filme, durante toda a missão que foi assistir inception novamente – e também após ela, são lembrados por mim meramente pela função que assumem. Na verdade, eles configuram-se como instrumentos para que o diretor presunçoso pudesse fazer sua empreitada dentro dos sonhos. O fato é que Nolan precisava de alguma desculpa para tornar o onírico algo lógico; precisava ainda de alguém para explicar de forma didática o que estava acontecendo ao espectador, para que Cobb não dialogasse consigo mesmo os grandes discursos explicativos. Sendo assim, o diretor, genialmente, criou a arquiteta (entre outros personagens-pretexto), que é capaz de fazer os sonhos não serem mais exatamente sonhos e, ao mesmo tempo, de fazer as perguntas que os espectadores desatentos fariam, garantindo-lhe então o entendimento e provavelmente a aprovação do grande público. Ademais, assim como em outros blockbusters como 11 Homens e um Segredo, os personagens são apresentados um a um, e mais importantes do que eles próprios são as funções que exercem. Funções essas cuja explicação, também sobremaneira minudenciada, delimita os trilhos pelos quais o filme pode movimentar-se daí em diante, destruindo a possibilidade de uma eventual reviravolta, tornando-o previsível e enfadonho, o que talvez explique a ação desenfreada como recurso de desespero do diretor. Ou talvez não.

Pelo "sim" ou pelo "não", Inception é uma grande picaretagem pretensiosa; e isso não há auto-crítica que desfaça.

3 comentários:

Lauci Lemes disse...

Nunca vi tanta insensatez, do que chamo de nilismo para explicar o nada, nenhum argumento para refutar o filme, só baboseiras para explicar o gosto pessoal, que é subjetivo e unico para qualquer um. Não ver adjetivos no filme eu respeito, com argumentos sólidos e existentes, mas muita explicação pra "achar" chifre em cabeça de cavalo é um exercicio nilista. Seria mais facil (e sincero) dizer: "Não gostei, é meu gosto pessoal e pronto". Como é minha opinião sobre Magnólia, FILME SENSACIONAL, mas EU não gosto, não preciso escrever disparates pra me convencer de que é ruim. Cinema é ILUSÃO, feita em IMAGENS, e se usa pra isso LUZ e EDIÇÃO! Se não gosta não olha. Nada pessoal Doc.

Dr. Soup disse...

me sinto ofendido, obrigado pela lição de moral.

Lauci Lemes disse...

Não devia! Mas fazer o que? Se divirta um pouco com a situação, sei que esperava essa reação de "quem" gosta do filme. NUNCA É PESSOAL.Não se ofenda. Diogo Mainardi, nunca se ofende.
Abraço Doc. Gosto muito dos teus textos!