sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Minha Terra, África


Em um país francófono não-identificado da África Subsaariana, de vegetação típica de savana e sistema político em crise, imerso em uma guerra civíl. Nesse ambiente, retrato inverso de um lugar inócuo, Claire Denis nos conta a história de Maria Vial, interpretada por Isabelle Huppert, uma fracesa que vive na África há um bom tempo cuidando da plantação de café da família, provavelmente uma fazenda remanescente do período colonial. A guerra civíl eclode às vésperas da colheita, o que leva todos os trabalhadores a fugirem em busca de refúgio. Maria insiste em permanecer e sai em busca de novos trabalhadores, contrariando as ordens da embaixada de que todos os franceses deixem o país e a vontade de seu marido, interpretado por Chistopher Lambert, o eterno Highlander, que pretende vender a fazenda e usar o dinheiro para recomeçar a vida na Europa.

Embora seja um filme claramente alternativo (o que é alternativo?), White Material, título muito superior ao nacional e que se refere à "coisas de branco", goza de elementos mais ligados a um cinema comercial (o que é comercial?). Exemplos disso são a quebra da linha cronológica, optando por iniciar o filme por sua cena final e a partir daí resgatar toda a história como se fosse um grande flashback, a ausência quase que completa de tomadas contemplativas, que estão se tornando quase que um clichê no cinema de festival, notar os exemplos de Um Doce Olhar e Tio Boonmee, Que Pode Recordar suas Vidas Passadas, premiados em Berlim e Cannes resectivamente, e, acima de tudo, e necessidade de dar uma importância anormal à sua protagonista. Se num primeiro momento Maria parece ser apenas uma pessoa normal tentando (sobre)viver em meio ao caos que se instalou no país, logo percebemos a necessidade de importância em cima de tal personagem, à partir do momento em que o líder da resistência se abriga em sua fazenda, tornando Maria uma pessoa de suma importância até mesmo dentro do cenário nacional. Recurso típico de Blockbusters.

Outro elemento a ser ressaltado é a figura de Manuel, filho de Maria e André e interpretado por Nicolas Duvauchelle. Um personagem que apenas aparece quando nos aproximamos da metade do filme e que não muito mais aparece. Porém, existem algumas peculiaridades a serem ressaltadas. Uma delas é o relacionamento de Manuel com seus pais. O jovem, de seus 17(?) anos, nutre uma relação muito mais estreita com seu pai que com sua mãe, fato bem ilustrado no momento em que rebeldes tomam toda a sua roupa. Enquanto sua mãe corre para acudi-lo, seu pai passa a frente e lhe dá a calça para vestir, protegendo sua nudez de sua mãe numa atitude insensatamente exagerada. A outra é o próprio Manuel, uma criatura de efígie européia, mas alma africana, combinação um tanto quanto atípica e que, tal qual a outra peculiaridade citada anteriormente, fica pouco trabalhada na obra.

A última observação que faço fica sobre a própria direção de Claire Denis e a forma com que ela usa a camera, incorporando para si toda a instabilidade socio-política dessa nação desconhecida ao mesmo tempo em que, de maneira análoga à dos personagens, procura incessantemente um lugar no qual se fixar. Uma busca que talvez tenha faltado ao filme como um todo. Ou então que simplesmente foi infeliz em seu objetivo.

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