domingo, 16 de janeiro de 2011

Fitzcarraldo


É importante sonhar. Sejam sonhos triviais como debruçar-se no travesseiro e dormir de tardezinha, sejam sonhos difíceis e articulados como dançar tango na lua. Fitzcarraldo é sobre isso. Sobre a relevância da existência enquanto peça subordinada aos delírios, às maluquices, aos sonhos irrealizáveis. Sobre inebriar-se nas alturas feito Ícaro; perseguir quimeras inatingíveis; ser Quixote e mover montanhas.


Quando não movê-las, escalá-las, mesmo que seja com um barco. É o que Fitzgerald (ou Fitzcarraldo, da forma como ficou conhecido pelos nativos), personagem título, apaixonado por ópera, pretende fazer com vistas a arquitetar um teatro em meio à Amazônia. O diretor Werner Herzog, tão lunático quanto seu personagem, nem sequer cogitou o contrário: dispôs-se a desafiar a física e, de fato, escalar um barco a vapor, de 160 toneladas, montanha acima. Talvez seja por isso que, não obstante ser acerca dos sonhos, o filme soe tão real e verdadeiro, afinal de contas, é algo que está ali, que possui cada milímetro documentado com perícia pelo cineasta, por meio de uma sublime mise-en-scène. Tudo ambientado naturalmente, ao som dos pássaros, do vento, dos insetos e do mar que ali se dispunham no espaço, compondo uma verdadeira orquestra natural.


Não gosto de citar atuações, mas nesse caso é imprescindível. Klaus Kinski , conhecido por seu temperamento forte e sua relação bizarra com o diretor alemão (em entrevista, o diretor classificara-o como seu inimigo favorito), interpreta o quixotesco Fitzcarraldo. Assim como em Aguirre – A Cólera dos Deuses, houve conflitos entre eles. A situação esquentou. Os índios que também atuaram no filme colocaram-se á disposição de Herzog, caso este necessitasse de alguém para assassinar Klaus, não seria inédita essa inclinação, visto que nas filmagens de Aguirre, o diretor, com uma arma, manteve Klaus como refém para que pudesse terminar as gravações. Herzog, contudo, não aquiesceu a proposta dos índios, para que não atrasasse suas filmagens com a burocracia que geram os defuntos, suponho. Ademais, o estúdio pensou que o cineasta perdera uns parafusos, e não mais o apoiou, levando-o a, com ajuda de seu irmão, financiar seu filme por conta própria. Tal qual o sonho de Fitzgerald, a obra parecia irrealizável.


Em certos aspectos, Fitzcarraldo (não o personagem; o filme) em muito se assemelha com Aguirre (de novo: não o personagem; o filme). Ambos são épicas aventuras que exploram o desbravamento do desconhecido, a manifestação por vezes doentia da obsessão, e a busca exacerbada de ideais. Se na imagem de Aguirre , todavia, tal atitude configura-se de modo problemático, como se houvessem de puni-lo por isso, em Fitzcarraldo, subverte-se essa noção, e a mesma característica que antes se via como condenável passa então a ganhar significância transcendental.


A divergência está ligada aos fins e não aos meios. Na construção de Fitzgerald, ao contrário da constituição de Aguirre, a megalomania é revestida por fins filantrópicos. Percebe-se isso, claramente, em uma cena na qual ele fica abismado com a forma com que os nativos da região contemplavam sua música, advinda de uma vitrola. Fitzcarraldo é, sobretudo, um altruísta - provavelmente o único naquela região cercada por gananciosos barões da borracha. Mesmo que seja unicamente pelo prazer próprio que tal gesto lhe proporciona. Quer seja por si mesmo, quer seja pela humanidade: que tragédia seria o mundo sem os sonhos.


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