segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Carlos


Contam que, originalmente, Carlos deveria ser um telefilme de 90 minutos contando os fatos referentes à prisão do líder revolucionário comunista Ilich Ramírez Sánchez no Sudão em 1994. Porém, logo quando Olivier Assayas aceitou assumir a direção de tal obra e iniciou o trabalho de pesquisa para elaboração do roteiro, ele percebeu que havia muito mais a ser explorado sobre aquele indivíduo, sua visão de sociedade e o mundo onde viveu do que poderia ser apresentado em tão pouco tempo. A conclusão foi que de um telefilme de 90 minutos, Carlos se transformou em uma minissérie de 3 capítulos, totalizando assim 330 minutos.

Logo na abertura de cada episódio (ou parte, como preferir), vêm uma advertência dizendo que o filme deve ser visto como uma obra ficcional, devido a "controversas zonas cinzentas na vida de Carlos", além de deixar claro que as relações de Carlos com as demais personagens são totalmente fictícias. A função disso pode ser vista como, além de anular qualquer problema judicial que Assayas poderia ter, dar uma maior liberdade de expressão para o diretor, permitindo que esse monte a efígie de tal personagem de uma maneira autoral, se soltando das rédeas impostas por uma biografia. Liberdade da qual Assayas se utiliza para construir uma imagem quase que heróica, embora absolutamente humana, de uma figura intitulada pela mídia de "terrorista". Na realidade, o único momento em que a obra induz que Carlos seja um terrorista é nas referidas frases de advertência que antecedem cada episódio. Durante todo o tempo, o que vemos é um homem lutando pelos seus ideais de igualdade social, provavelmente a imagem pessoal que Assayas construiu ao pesquisar a vida desse indivíduo.

A elaboração de um épico sempre é um trabalho extremamente delicado, seja por conta das dificuldades técnicas em se realizar uma obra de proporções tão superlativas, seja pela questão de exigir um roteiro que consiga segurar várias horas sem se tornar cansativo ou repetitivo. E o roteiro, assinado por Olivier Assayas e Dan Franck é, sem dúvidas, o ponto mais forte do filme.

Um roteiro que, de maneira brilhante, consegue reunir inserir quantidades absurdas de informações em um mero diálogo sem, em nenhum momento, soar didático. Um roteiro que consegue, mesclando momentos usuais da vida das personagens com cenas intensas de ação. fazer cinco horas e meia passarem mais rapidamente do que muitos filmes fazem com apenas uma hora e meia. E mesmo quando nos aproximamos do fim e as cenas mais intensas começam a rarear, a relação construída entre espectador e personagem é tão forte que não se sente mais falta delas.

Outro grande acerto do filme foi a escolha de seu ator principal. Assayas declarou que precisava de um ator que tivesse "o carisma e os ombros para carregar esse tipo de fillme" e acabou encontrando no venezuelano, tal qual o personagem a ser retratado, Édgar Ramírez a figura perfeita. Ramírez que havia feito papéis menores em filmes como O Ultimato Bourne e Che, ergue aqui uma interpretação memorável, onde ele não apenas modifica seu próprio corpo várias vezes para interpretar as diversas fases do líder revolucionário, como também demonstra possuir um certa fluência em vários idiomas.

E essa questão dos idiomas é algo bem destacável aqui. Um filme francês, feito em parceria com a Alemanha, filmado na Áustria, França, Alemanha, Hungria, Líbano e Marrocos, com passagens que seriam ambientadas na Rússia, Iêmen, Líbia, Argélia, Eslovênia, Síria e Itália, falado em inglês e com alguns diálogos em francês, espanhol, húngaro, italiano, árabe, alemão, russo e japonês. Algo bastante raro de ver em um mercado onde os filmes tendem a ignorar os diversidade cultural de onde se situa e assumir um único idioma, para facilitar a compreensão de um público de nacionalidade específica.

Carlos é a comunhão entre thriller geopolítico (tal qual Syriana ou (quase) qualquer outro filme protagonizado por George Clooney) e saga de anscenção e queda de um gângster (tal qual nos filmes de Martin Scorsese e/ou Robert de Niro). E o que poderia vir a ser um problema devido ao seu lado saga-de-um-personagem-só, acaba não ocorrendo. Os coadjuvantes, que na mão de pessoas menos talentosas poderiam se tornar apenas uma base para os movimentos do verdadeiro protagonistas, são elevados aqui a um patamar de maior respeito, embora sempre vivam à sombra daquele que é o verdadeiro objeto do filme. São figuras no mínimo bidimensionais, dotadas de personalidades complexas o bastante para evitar a alcunha de "o-carinha-que-faz-isso-ou-aquilo", embora apenas tenham a chance de brilhar quando acompanhadas de Carlos.

Uma coisa que particularmente me atraiu no filme, e isso de uma perspectiva um tanto quanto subjetiva, é a situação em que as personagens se viram inseridas quando do final dos anos 80. Revolucionários socialistas que passaram toda a vida em meio à Guerra Fria, onde tinham seu lar e abrigo ideológico, mas que de uma hora para a outra vêem tudo ir por água a baixo com o triunfo do capitalismo. Talvez as pessoas mais afetadas pelo surgimento da Nova Ordem Mundial. Uma realidade explorada em Carlos, mas que (creio eu), ainda precisa de alguma obra que o explore de forma definitiva.

Assayas que sempre foi um diretor mais voltados aos dramas internos, faz em Carlos seu primeiro trabalho mais grandioso. Um renascimento artístico de um diretor já consagrado, levando-o a patamares ainda mais elevados? Isso apenas dirá o tempo, e principalmente, os seus próximos trabalhos, nos dirá. Mas, levando em conta, entre outras coisas, a aclamação de Carlos como o melhor filme do ano segundo os críticos da revista Film Comment, ouso dizer que sim.

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