domingo, 16 de janeiro de 2011

Barry Lyndon


Às vezes, o nome de uma pessoa pode ser um fardo, e Barry Lyndon esta aí para provar isso. Não digo isso relação à personagem interpretada por Ryan O'Neal, mas sim ao filme em si. No ano de 1975, do qual data este filme, Stanley Kubrick já era um diretor que gozava de um certo respeito, talvez não tanto quanto hoje. Vindo de um filme extremamente polêmico que foi (e ainda é, de certo modo) Laranja Mecânica e com obras como 2001 - Uma Odisséia no Espaço e Dr. Fantástico no currículo, Barry Lyndon soa como uma decadência do diretor, embora tal afirmação seja ligeiramente precipitada. A verdade é que este filme aqui não possui a mesma complexidade nem as mesmas, vamos dizer, "qualidades" (embora tal termo seja de uma subjetividade absurda) das obras supra-citadas. Mas o que faz Barry Lyndon parecer um filme pouco bom é exatamente a cobrança que se tem de um Kubrick. Portar o nome de tal diretor induz o espectador à idéia de que este irá acompanhar um filme digno de figurar entre os melhores da história, e quando percebe que tal idéia não irá se concretizar, já passa a ver o filme com uma ótica mais negativa. Coisa que não ocorreria se fosse dirigido por algum outro diretor.

Filme de proporções épicas, Barry Lyndon narra a história do irlandês Redmond Barry, embora não narre seu nascimento nem sua morte a partir do livro The Luck of Barry Lyndon, de William Makepeace Thackeray. Embora um relato histórico, Redmond Barry, que mais tarde viria a ser conhecido como Barry Lyndon jamais existiu, sendo sua figura vagamente baseada na do "aventureiro" Andrew Robinson Stoney. Um personagem complexo, multi facetado e pluri-dimensional ao qual o filme não se contenta apenas em acompanhá-lo em suas desventuras, como também faz questão de tal companhia quando de sua evolução psicológica, evoluindo em conjunto a esse.

Logo no início, temos um Barry totalmente imaturo, ainda descobrindo o mundo, e assim também é o filme, uma obra imatura, com uma direção passiva, atuações vazias, diálogos fúteis, e uma trilha sonora que teima em aparecer nos momentos mais inoportunos. Porém, conforme o jovem Redmond encontra seu lugar no mundo e começa a tornar-se uma figura cada vez mais forte, o filme também ganha força e começa a demonstrar sua grandiosidade. A direção começa a se mostrar presente, as atuações ganham conteúdo, os diálogos se aprimoram e a trilha sonora encontra sua posição na obra, uma posição perfeita, diga-se de passagem. E o grande momento dessa virada na trama é, sem dúvidas, o alistamento de Barry no exército britânico. Um garoto virando homem, um filme tolo virando um filme genial.

Mas essa não é a única revolução que ocorre no enredo. Ao dividir a obra em dois atos, divide-se também a personalidade de Barry. Na primeira parte, temos um Redmond Barry amável, cuja história provoca a simpatia por parte do espectador. Na segunda parte, quando aquela criatura afável se transforma no frio e de moral dúbia Barry Lyndon, a afeição do público também se inverte. Um título transformando um homem agradável em uma criatura cruel. Clichê, mas que ainda funciona relativamente bem.

Ao mesmo tempo que se acompanha o desenrolar da história, começa-se a notar um certo toque cômico, que num primeiro momento aparenta nem sequer estar lá, de tão sutil que é. Característica do humor britânico, em Barry Lyndon essa sutileza é levada a um nível absurdo, que acaba levando o público a se perguntar o que exatamente achou de engraçado em tal passagem e por que assim a achou. E nesse quesito (comicidade), um elemento se sobrepõe aos demais como provocador principal.

Talvez o elemento mais difícil de ser utilizado de uma maneira razoavelmente boa, junto com a metáfora e com o zoom, e por conta disso evitado por quase todos os diretores, ao contrário dos dois citados. Estou falando da narração, que costuma tirar a credibilidade de uma obra, mas que aqui, vinda na voz inócue de Michael Hordern, acentua o clima da obra, confere aquele humor sutil citado anteriormente e funciona quase que como um personagem à parte, fazendo observações e por vezes, antecipando o que vem a seguir. Um excelente exemplo de como se utilizar de tal recurso.

Mas o mais destacável do filme, sem dúvidas, é a sua composição estética, sobretudo em relação aos figurinos e à fotografia, ambos legendários. O figurino ficou conhecido por se utilizar apenas de vestimentas realmente confeccionadas no século XVIII, embora tal afirmação não seja verdadeira, até porque seria inviável, visto que há hordas colossais de figurantes em algumas cenas e encontrar vestimentas daquele período para tantos extras seria praticamente impossível, além do que isso tiraria todo o mérito da figurinista Milena Calonero, visto que sob essas condições, nenhuma das vestimentas seria legitimamente dela. A verdade, é que alguns dos figurinos são sim originais no período, enquanto a grande maioria foi desenhada tomando como base vestimentas presentes em quadros datados do período.

O outro grande destaque técnico, a fotografia, ainda tem dois grandes trunfos a serem ressaltados. O primeiro é a composição das cenas, onde cenários grandiosos, jardins monumentais e paisagens naturais se misturam para evocar pinturas, sobretudo as do artista plástico Thomas Gainsborough. O segundo destaque a ser feito sobre a fotografia é em relação ao uso de iluminação natural, do qual também se criou o mito de o filme ser 100% filmado desse modo, embora, na realidade, algumas (poucas) cenas empregaram iluminação artificial. Mas esse uso predominante de luz natural chegou ao seu ápice nas cenas noturnas, onde uma lente especial de 50mm foi projetada especialmente para tais cenas, captando as imagens com o mínimo de luz possível. Porém, devido à sua hiper-sensibilidade no ajuste de foco, a câmera foi obrigada a permanecer estática e os atores a se moverem o mínimo possível. Mesmo assim, o resultado acabou excelente.

No geral, Barry Lyndon é sim um excelente filme, embora inferior à maioria dos trabalhos de Kubrick. Um filme onde o roteiro bom é superado por uma estética incrível e cuja fama (ou falta de) não faz juz à qualidade.

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